Roleta russófila

Falar de Donald Trump é desmoralizador. Todos os dias se pode escrever 4 artigos sobre as gaffes, mentiras e falhanços (sejam a nível político ou organizacional) da sua Administração. Todos os dias acontecem coisas que podem ser lidas como muito graves, para deleite de quem faz vida de fazer opinião. Assim, espremem-se artigos constantes sobre cada ordem executiva, cada rumor palaciano e cada cheesburger deglutido pelo Presidente. Eu estou um bocadinho farto disso (apesar de continuar a ler todos esses artigos), e por isso tomei como política escrever apenas em semanas em que há mais do que um acontecimento sísmico. Ao oferecermos uma cobertura e análise feitas sem os imediatismos e dramatismos que Trump adora causar, acreditamos poder oferecer uma abordagem mais fria e meticulosa. Só assim se podem denunciar com critério as suas mais perigosas propostas e quebras de normas a nível interno e externo.
Esta semana contou com um escândalo de peso em todos os campos que costumam levar os media à loucura. Uma demissão que aumentou as dúvidas sobre o funcionamento da Casa Branca, um curioso confronto com os Republicanos no Congresso sobre armas, que expôs de novo o vazio ideológico e mesmo intelectual que vai na cabeça do Presidente, um repentino e violento regresso às propostas protecionistas da campanha que promete represálias um pouco por todo o Mundo - tudo temperado com um monte de tweets incendiários.
A semana começou com Trump a culpar toda a gente pela intervenção russa na sua eleição, tirando (pasme-se!) a Rússia. O Presidente fica sempre muito acossado com pessoas que ligam a sua vitória à intervenção russa, e estas suas ridículas inseguranças estão a pôr em causa uma investigação imparcial e um esforço para impedir que o mesmo aconteça em 2018. Seguiu-se um ataque ao seu próprio Procurador-Geral, acusando-o de entregar uma investigação que serve para descreditar o F.B.I. a um "Obama guy", apesar de a pessoa em questão, e, já agora, o cargo que ocupa, terem muito pouco de político. Mais uma tentativa desnecessária de descrédito do sistema de justiça para a coleção!
Depois veio a reunião com membros das duas Câmaras do Congresso para discutir o problema das armas, na sequência do massacre de Parkland. Trump voltou a apresentar-se numa reunião em direto com uma falta de preparação hilariante, promovendo (tal como na sessão anterior sobre imigração) uma série de ideias absolutamente idiotas (armar professores) e passando de seguida a propor retirar armas sem qualquer tipo de autorização judicial, proibir a venda de armas a menores de 21, banir dispositivos que aumentem a potência de armas de assalto e um aumento dos famosos "background checks". Estas propostas são até mais agressivas do que as do Partido Democrata, deixando os Republicanos na sala à beira de um ataque de nervos. Pence ia-se contorcendo, os Democratas iam rindo, mas o momento mágico só chegou quando Trump perguntou aos dois Senadores "pro-gun" Pat Toomey (R- Pensilvânia) e Joe Manchin (D- Virgínia Oriental) se tinham incluído um aumento da idade legal para comprar metralhadoras para os tais 21 anos, argumentando que esse já era o caso para armas de mão. Quando Toomey lhe diz que não, Trump ri-se e diz "You know why? Because you're afraid of the N.R.A.". Boom. Aqui está a única parte positiva desta Presidência, Trump é tão estúpido que às vezes até lhe sai a verdade quando é politicamente destrutiva. Talvez por isso os seus advogados estão a fazer tudo para que o procurador do caso Rússia, Robert Mueller, não o possa entrevistar.
No dia seguinte, Trump teve uma reunião com a N.R.A. e, depois, a sua Secretária de Imprensa disse que não era para levar a sério o que o Presidente tinha dito na reunião. Sabem porquê? Porque toda a gente tem medo da N.R.A.
Por fim, temos o anúncio de tarifas para aço e alumínio a entrar nos E.U.A., decisão apoiada por economistas geniais como Bernie Sanders. Estas novas taxas prometem proteger as empresas americanas (ou melhor, as que financiam o Partido Republicano, Trump e que durante anos empregaram o seu Secretário do Comércio Wilbur Ross), prejudicando os consumidores americanos com aumentos artificiais de preços. Esta medida foi fortemente criticada pelas pessoas que ainda são mais Republicanas que Trumpistas no GOP, com uma série de Senadores, Governadores e Congressistas a lamentar que depois de uma reforma fiscal de séc. XXI se faça uma reforma aduaneira de séc. XIX.
O Presidente parece acreditar que as guerras comerciais que esta medida tem tudo para iniciar não prejudicarão os E.U.A., uma visão contrariada por qualquer pessoa com "dois dedos de testa", uma raridade numa Casa Branca onde o principal requisito para entrar é ser da família do "manda-chuva". Deixando passar cenários apocalíticos sobre guerras comerciais com China e a U.E., vamos falar do departamento de comunicação da West Wing, cuja direção foi abandonada por Hope Hicks, uma leal confidente do Presidente. Claro que gerir as comunicações desta Administração não é nada fácil, mas esta demissão é muito mais do que isso. É mais um exemplo de um crescente mal-estar entre a disciplina militar do Chefe de Gabinete Jonh Kelly e o núcleo duro de Trump. Já a humilhação pública do genro Jared Kushner (ao perder a possibilidade de ouvir informação confidencial) foi neste sentido. Resta saber se a ordem férrea é suficiente para tornar esta Administração funcional. Até agora não parece estar a funcionar...
P.S.: O problema das armas e do seu lobby era demasiado complexo para ser discutido neste post, mas será brevemente abordado com mais profundidade.
João Jonet
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