Não compro bilhete


Aparentemente, Oprah Winfrey é a favorita para a nomeação Democrata em 2020. Depois de um discurso muito bom nos Globos de Ouro, em que tocou em temas como o racismo e sexismo com enorme sensibilidade e eloquência, a ex-apresentadora de televisão dominou as redes sociais com pedidos para que se candidatasse à Presidência, pedidos esses que vieram de cidadãos anónimos, de outras celebridades e até de profissionais da política, numa onda que dominou o ciclo noticioso americano durante mais de 24 horas, pondo todo o jornalismo político em modo parafuso. Se numa primeira instância vimos uma onda de apoio sem limites e projeções de que Oprah venceria facilmente tanto a primária Democrata como a geral contra Donald Trump, a segunda vaga de reações, na qual me vou incluir, vai no sentido de pedir a todos os santinhos que a bilionária apresentadora tornada atriz e autora não decida candidatar-se ao que ainda é o trabalho mais importante do Mundo.

Eu percebo que a perspetiva de responder a uma celebridade movida por ódio com uma movida por simpatia, com uma base de apoio transversal e reconhecida capacidade discursiva apela aos Democratas. Não há dúvida que, com as condições certas, Oprah seria uma potente força eleitoral, que provavelmente venceria um Presidente que nem tem metade da sua popularidade. Por mais engraçado que pareça, até já se fizeram sondagens deste possível confronto, com Oprah a liderar por cerca de 10%, que, apesar de tudo, são as margens de quase todos os possíveis candidatos Democratas. Não há dúvida que para um partido que nos últimos 18 anos teve duas experiências traumáticas, em que apresentou um candidato muito mais qualificado, que ganhou o voto popular e acabou por perder a Presidência, a perspetiva de uma vitória rápida e limpa, pagando na mesma moeda e criando uma guerra de celebridades pareça extremamente apelativa. No entanto, como muitas coisas extremamente apelativas à primeira vista, se analisarmos um bocadinho, conseguimos perceber que, se calhar, não é a melhor ideia.

Começando pela simples premissa de nomear uma celebridade, uma ideia terrível para um partido que tem focado a sua mensagem na incapacidade de Trump para governar. O que é que acontecia aos argumentos de que o Presidente é um idiota mal preparado, se contra si fosse nomeada uma pessoa que, por melhores ideias que tivesse, gozaria de ainda menos preparação. Não parece uma mensagem muito coerente. Depois, teríamos uma agravamento do esvaziamento do debate político, com um foco cada vez maior nas aparências e cada vez menor nas propostas, algo que, para um partido interessado em criticar aspetos específicos das propostas dos seus adversários para conseguir ganhos políticos, seria muito mal pensado. Como poderia Oprah Winfrey criticar as reformas fiscais de Trump ou as suas ideias para a saúde se não tiver a menor ideia dos efeitos que têm os cortes nos impostos sobre as empresas na economia, ou como é que funcionam os mercados do Obamacare. Os debates entre Trump e Oprah seriam tão vazios de conteúdo que seriam uma afronta ao eleitor comum, cujos problemas reais nada têm a ver com um duelo de celebridades zangadas.

Passando às especificidades da candidata Oprah, podemos começar pela parte positiva, porque isto vai ficar muito negativo muito rápido. Winfrey é uma mulher afro-americana: sendo eleita quebraria  barreiras que a vitória de Trump fez parecer intransponíveis, e a grande votação que provavelmente teria poderia servir para castigar o GOP pelo seu pacto com o diabo, trazendo maiorias democratas às duas Câmaras do Congresso. A sua falta de experiência poderia levá-la a reunir conselheiros de qualidade, que preparariam reformas inteligentes que se sustentariam na sua popularidade. Isto era se tudo corresse bem, mas infelizmente a candidatura de Oprah parece ter tudo para correr mal. Assumindo o mais provável - que se fosse candidata contra 10/15 políticos democratas, ganharia a primária dada a divisão do "establishment" e do campo progressista - Oprah partiria para a geral sem unificar o partido, e com um currículo de decisões estúpidas e declarações idiotas que rivaliza com o de Donald Trump, desde defender um livro que propaga a ideia que com o poder da mentalização TUDO é possível, a gerir um colégio interno na África do Sul com um histórico de abusos sexuais, há muito por onde escolher no campo dos escândalos, e, numa batalha na lama com Trump, sabemos que os porcos partem em vantagem.

Reconheço as razões para este entusiasmo, mas não deixa de ser curiosa esta particularidade da política, em que as pessoas se sentem atraídas por possíveis candidatos que não percebem mesmo nada do assunto. É o equivalente a tentar arranjar um bom eletricista e aparecer um canalizador a dizer "eu não percebo nada de eletricidade, mas o seu eletricista era um idiota e eu tenho aqui uma série de ideias inovadoras para melhorar a eletricidade em sua casa": não faz muito sentido. Oprah é muito simpática e carismática, mas para um espetáculo com dois intervenientes cujo Q.I. combinado deve ter dificuldades a chegar aos dois dígitos é que não me apanham a comprar bilhete.

João Jonet

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