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A mostrar mensagens de 2018

Não saber ler nem esperar

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Saber ler resultados eleitorais nos Estados Unidos exige duas coisas cada vez mais raras: paciência e ponderação. No dia 6 de Novembro ninguém quis usar nenhuma das duas e o resultado foi uma leitua perfeitamente idiota dos habituais "paineleiros" que transbordou para a opinião pública e para a cabeça de um Presidente cada vez mais iludido e isolado no seu mundinho. Os resultados das eleições intercalares foram uma brutal rejeição da agenda deste Presidente, com uma histórica vitória para os democratas na House, uma resistência impressionante destes no Senado, e vitórias brutais ao nível estadual. Qualquer leitura de que os E.U.A. estão divididos e que este resultado esteve perto de um empate foi formulada para o imediato da noite eleitoral, antes de se contarem os resultados da Costa Oeste e não corresponde minimamente ao que se passou. É preciso perceber que no Oeste não só as urnas fecham muito mais tarde, como muitos votos vêm por correio, e podem ser entregues até a...

Guerra de trincheiras

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Não, não vimos com o discurso clássico de que já não há esquerda nem direita e que o populismo vai acabar com o Mundo como o conhecemos. Não vamos perder tempo a escrever sobre a difusão de ideais xenófobas com tiques de autoritarismos que ameaça a ordem vigente, esse assunto já foi explorado até à exaustão. Vimos, no entanto, abordar a forma miserável como tanto a direita e a esquerda têm vindo a lidar com este fenómeno. Queremos criticar a política do “ou estás comigo ou contra mim” venha de onde venha. Esta sociedade binária em que reconhecer racionalidade num argumento condenável ou mesmo legitimidade numa opinião divergente são atos de traição gravíssimos está a cansar-nos e por isso queremos fazer uma análise crítica que toque todos os cantos do espectro político. Comecemos pela direita. Os políticos de direita vivem num dilema constante em que tentam agradar a todos nas suas “fileiras”. Ora, as fileiras destes partidos revelam, mais do que nunca, uma falta de homogeneidade ...

Não há pão para malucos

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Donald Trump prepara-se para retirar os Estados Unidos do Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos, apenas 10 dias depois de, no Canadá, ter mandado passear os seus principais aliados, recusando-se a fazer concessões no que toca à sua absolutamente idiota guerra comercial. Os pedidos de reintegração da Rússia no G-7, que parecem ignorar que a nação tinha sido expulsa pela sua nefasta agressão à Ucrânia e pelos insultos que dirigiu a Justin Trudeau ("fraco e desonesto"), foram apenas a cereja no topo do bolo de estrume que serviu aos seus parceiros, em mais uma prova de brutal desrespeito pelos valores do Ocidente e, principalmente, do seu país, que arquitetou esta Ordem Mundial. No meio disto tudo, ainda abandonou os exercícios militares com a Coreia do Sul; tudo para agradar o seu novo melhor amigo stalinista, não fossem os ditadores árabes e autocratas europeus deixá-lo a sentir-se sozinho. Por estas concessões feitas a um Estado prisão, Trump conseguiu um com...

República das bananas

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Passaram 3 meses desde que o povo italiano foi às urnas produzir os resultados mais estranhos e perigosos que se podiam imaginar. Nesses três meses mantive-me pensativo, resignado, olhando para as constantes voltas do processo de formação de governo com um misto de descrença e vergonha alheia, enquanto via algumas das personagens menos recomendáveis da Europa Ocidental a brincar à roleta russa da política com a 3ª maior economia da Zona Euro. Não foram poucas as vezes em que pensei começar a escrever um artigo sobre Itália, só para parar a meio, completamente perdido e com a certeza do que nada do que me tinham dito naquele dia seria verdade no dia seguinte. Tive de esperar três meses, mas, finalmente, depois de me certificar mais do que uma vez de que Giuseppe Conte tinha mesmo sido empossado como Primeiro Ministro, posso dizer que consigo analisar Itália, e as repercussões que as eleições de Março terão no seu futuro. Começando pelo dia das eleições, as surpresas não foram tanto...

Orgulho e irresponsabilidade

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Tivemos corrupção, sede de poder, facadas nas costas e vira-casacas, numa cena de drama inédita na história da Democracia espanhola. Para perceber esta crise governativa, há que analisar, não só o momento da queda aparatosa de Rajoy, mas também o caminho que fizeram todos os outros partidos até aqui. De um canto ao outro do espectro, encontramos várias pessoas que tiveram um comportamento absolutamente condenável, o que,  num país que precisa de encontrar soluções de fundo para as suas divisões,  não é nada recomendável. O meu primeiro alvo é o PP, um aparelho de corrupção que anda a ser confundido com um partido político desde 1989. Nascido das cinzas do franquismo, pelas mãos dos mesmos intervenientes, falamos de um partido que, durante anos, procurou dividir a sociedade espanhola com uma retórica unionista primária e irracional, a que juntou um conservadorismo social enjoativo, enchendo os ouvidos do eleitorado de moralismo e nacionalismo, ao mesmo tempo que a sua clas...

Um erro colossal

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Após uma semana de elogios constantes à maneira pouco polida mas eficaz como esta Administração gere a política externa dos E.U.A., somos violentamente relembrados do quão incompetente é este Presidente e das ameaças constantes que coloca à paz mundial. Anos de diplomacia convencional deixaram o Mundo cheio de problemas por resolver e este "cowboy" nova-iorquino prometia resolver cada um deles com um misto de insultos no Twitter, discursos inflamatórios e apertos de mão confrangedores. Como era de esperar, esta narrativa não sobreviveu muito mais que uma semana, em grande medida por estar rotundamente errada. As comparações feitas com o estilo de Reagan não passavam de uma análise básica e pouco estruturada, e os créditos que recebeu devido à cimeira entre as Coreias não são mais do que um exemplo de que a imprensa está há 30 anos a comprar todas as mentiras que Trump decide espelhar e a aproveitá-las para vender jornais. Esta retirada do Acordo Nuclear do Irão é um con...

Bright side of the Moon

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Um ambicioso acordo foi hoje assinado entre as Coreias. O fim da guerra, a desnuclearaização, e uma eventual unificação foram alguns dos aspetos negociados entre Kim Jong-Un e Moon Jae-In, que culminam num dos momentos mais relevantes da História da Península. Como é que isto foi possível? Que papel tiveram líderes internacionais como Trump e Xi no processo? E, principalmente, será que isto não é só fogo de vista? Poucos me poderão acusar de desvalorizar a importância do papel dos Estados Unidos no Mundo, mas o ruído que vem dos cantos mais trumpófilos da sociedade ocidental está claramente a dar um papel exagerado à intervenção do Presidente americano nesta solução. É verdade que a pressão feita pela Administração Trump junto da comunidade internacional veio isolar ainda mais o regime do Norte, e que a personalidade irrascível e falta de tato de Trump tenham levado Moon a arregaçar as mangas e procurar trabalhar sem os E.U.A. para encontrar uma solução. Agora, é importante não co...

Adeus ao líder relutante

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Qual Costa Concordia, a maioria Republicana na House está à beira de um desastre, e, tal como ao largo da Toscânia, um capitão sem muita vocação para o cargo prepara-se para abandonar o navio em Washington. Paul Ryan anunciou que este será o seu último mandato na House, abdicando do martelo de Speaker e de todo o poder e responsabilidade que o cargo acarreta. É raro ver um político abdicar voluntariamente de poder, especialmente porque Ryan (aproveitando a inexperiência e falta de preparação de Trump) vinha assumindo uma relevância característica da Presidência, estando por trás de toda a agenda legislativa da Administração e de praticamente todas as suas propostas a nível interno, mas é precisamente por ter este nível anormal de influência, por ter esta anormal Presidência, que a decisão do Speaker não podia ser outra. Foram só 3 anos, mas devem ter parecido 20, tais as dificuldades que foram impostas a um homem que teve de ser empurrado contra a sua vontade para o cargo. Ryan ...

Era uma vez na América

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Imagem que ilustrou o artigo de opinião do ex-juíz do Supremo Tribunal John Paul Stevens (Republicano) no NY Times a apoiar a revogação da Segunda Emenda ( link aqui ) "A well regulated militia, being necessary to the Security of a free State, the right of people to keep and bear arms, shall not be infringed." Confusa, anacrónica, cheia de vírgulas, a Segunda Emenda é uma relíquia do séc. XVIII que foi elevada à santidade por paleo-conservadores nos anos 80 e judicialmente divinizada pelo Supremo Tribunal em 2008. O direito individual de posse de armas, supostamente consagrado nesta famosa frase, é dos aspetos mais estranhos da vida americana para qualquer europeu, combinando bem com o estereótipo do cowboy dos tempos da conquista do Oeste, mas que faz menos sentido na era de Silicon Valley. Ao longo deste texto tentarei explicar este fenómeno usando história, política, geografia e um bocadinho de "pop culture" numa tentativa potencialmente fútil de traduzir ...

O fim do compromisso

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A política mundial tem um cancro. Não é o populismo, não é o politicamente correto, nem os interesses do grande capital ou os sindicatos. Esta doença está presente nos dois lados do espectro político, corroendo as instituições democráticas, destruindo a confiança do eleitorado, e dando azo a pensamentos radicais e movimentos violentos. Falo, claro, da incapacidade que os políticos por todo o mundo demonstram para moderar a sua posição e procurar compromissos que garantam uma governação eficaz e trabalhos parlamentares construtivos. Onde está essa cooperação tácita entre lados antagónicos? Quem é, afinal, o grupo ou indivíduo responsável pela transformação das casas da democracia em que primavam a retórica e a vontade de servir o público em zonas de conflito em que dominam as táticas de guerrilha e a vontade de servir os próprios interesses? Os media são provavelmente os maiores culpados, ao fomentarem pensamentos radicais com sensacionalismos, desinformação e reportagens para choc...

A extinção anunciada

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Começava a manhã em Washington e o Secretário de Estado Rex Tillerson descobria pelo Twitter que tinha sido demitido pelo seu instável patrão. Tillerson foi um balanço curioso que o establishment Republicano ofereceu a Trump, parecendo por fora ideal para esta Administração ( CEO de uma petrolífera, amigo de Putin e anti-político) ao mesmo tempo que tinha conceções de política externa moderadas, perfeitas para conter os impulsos mais idiotas de Donald Trump. Ser um adulto nesta Casa Branca era obviamente um desafio, e dado o apetite do Presidente por um bom "yes-man", sempre pareceu que o introvertido texano tinha os dias contados, mas a maneira como foi desrespeitosamente despedido mostra três coisas: primeiro que, citando Ted Cruz, esta Administração "descarrilou"; segundo, que o trabalho de demolição que Trump tem planeado para a diplomacia americana ainda agora começou (apesar de Tillerson já ter feito bastanates estragos); e, terceiro, que o Presidente, vend...

Roleta russófila

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Falar de Donald Trump é desmoralizador. Todos os dias se pode escrever 4 artigos sobre as gaffes, mentiras e falhanços (sejam a nível político ou organizacional) da sua Administração. Todos os dias acontecem coisas que podem ser lidas como muito graves, para deleite de quem faz vida de fazer opinião. Assim, espremem-se artigos constantes sobre cada ordem executiva, cada rumor palaciano e cada cheesburger deglutido pelo Presidente. Eu estou um bocadinho farto disso (apesar de continuar a ler todos esses artigos), e por isso tomei como política escrever apenas em semanas em que há mais do que um acontecimento sísmico. Ao oferecermos uma cobertura e análise feitas sem os imediatismos e dramatismos que Trump adora causar, acreditamos poder oferecer uma abordagem mais fria e meticulosa. Só assim se podem denunciar com critério as suas mais perigosas propostas e quebras de normas a nível interno e externo. Esta semana contou com um escândalo de peso em todos os campos que...

Estendendo uma passadeira laranja

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Fui adiando este artigo, esperando em vão que pudesse ser escrito depois de Elina Fraga ter posto fim ao seu percurso no PSD, que tem tanto de penoso como de curto. Apesar disso, a continuidade da ex-Bastonária só vem reforçar o ponto que já venho a fazer desde Outubro: Rui Rio não tem capacidade nem qualidade para liderar um grande partido português e vencer eleições legislativas. Esta novela foi um exemplo claro disso, pela quantidade de erros crassos que foram acontecendo. Uma pessoa que ganha com a legitimidade reduzida com que ganhou Rio tem de ter cuidado para acomodar a fação derrotada, sob perigo de sectarizar (ainda mais!) o partido. A união com Santana ia nesse sentido e parecia tudo lançado para que esta primeira fase fosse uma raro momento de confluência e tranquilidade no PSD. A escolha "surpresa" de Elina Fraga veio arruinar isto tudo, trazendo de volta à memória aquilo que mais desagrada aos militantes no seu novo líder, o facto de ter abusado da oposição ...

Coligaçãozinha sem sal

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Para uma pessoa que está sempre a exigir mais incrementalismo e menos fervor partidário na política americana, eu estou certamente enjoado dos passinhos de bebé da política europeia, e com europeia quero dizer alemã, logicamente. Dependendo de uma votação dos membros do SPD, que deverá ser favorável, está feito um acordo para mais uma grande coligação entre os Democratas Cristãos (CDU) de Merkel e os Sociais Democratas (SPD) de líder a definir, e é mais do que relevante perguntar em que é que esta será diferente das outras duas coligações do mesmo tipo que controlaram a Alemanha em 8 dos últimos 12 anos. A resposta é difícil de encontrar. Num documento de quase 200 páginas, os dois partidos, mais a CSU, partido irmão da CDU na Baviera, fizeram questão de ser o mais vagos possível, especialmente no que toca à questão europeia, onde a presença de um ex-Presidente do Parlamente Europeu (Schulz) fazia prever muito mais. O facto de Martin Schulz ter desistido da liderança do Ministér...

Puritanismo por conveniência

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Nada é mais fácil do que apanhar um político americano a ser profundamente hipócrita. Dada a mediatização do fenómeno por aquelas bandas, não só as opiniões dos políticos mudam ao sabor das constantes sondagens sobre tudo e mais alguma coisa, como a sua presença constante em meios de comunicação os leva a serem facilmente apanhados a dizer tudo e o seu contrário. Mais importante que tudo isso, a cada vez maior polarização leva a que os partidos estejam muito menos preocupados com coerência e muito mais com ganhar a próxima batalha pela alma dos Estados Unidos. Eu nem sou uma daquelas pessoas que valorizam a coerência ideológica (ou a falta dela) como essencial no currículo de um político; aliás, até acho que pessoas demasiado comprometidas com correntes filosóficas fazem políticos ineficazes, incapazes de alcançar compromissos e operar em câmaras legislativas com práticas complexas. Mas há limites, senhoras e senhores. Quarta-feira, dois dias antes da data limite para finan...

O estado da união é deprimente

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Dada a grande controvérsia gerada pela publicação de informação confidencial pelos Republicanos no Congresso, cuidadosamente selecionada para tentar comprometer a investigação ao envolvimento da Rússia na campanha de Trump, nenhum balanço desta Presidência, alicerçado no discurso do Estado da União, podia estar completo sem conhecer todos os factos deste processo. Assim, escrevo agora sobre o discurso de terça-feira, ms também sobre o degradante circo mediático e institucional que se seguiu, espelhando o que tem sido esta Administração. Se num dia Trump consegue usar a instituição da Presidência para normalizar o seu discurso de ódio e divisão, nos dias seguintes a sua falta de controlo e tato político deitam tudo a perder, condenando-o a uma base de apoio, que não cresce nem decresce, de independentes nacionalistas e Republicanos em geral, que preferem consistentemente o partido ao País. O discurso do Estado da União é a arma perfeita para um Presidente conseguir a aprovação da s...