Uma escolha irRexponsável


Esperei e esperei que Trump concluísse o seu gabinete ministerial de forma positiva com a possível escolha de duas Democratas para Secretárias da Agricultura (a Senadora Heidi Hetkamp do Dakota do Norte que levaria os Democratas a perder mais um lugar no Senado) e dos Veteranos ( a Congressista do Hawaii Tulsi Gabbard, antiga apoiante de Bernie Sanders). Vou avançar para este artigo sem essas escolhas confirmadas e, portanto, numa nota mais negativa. Tinha dito anteriormente que só perceberíamos a Administração Trump depois de este ter escolhido os Secretários de Estado, do Tesouro, do Comércio e da Defesa. Estando já isto tudo definido, vamos avaliar uma a uma as escolhas do Presidente-eleito.

No Comércio, o bilionário Wilbur Ross, formado em Yale e Harvard e especializado em comprar empresas altamente endividadas e reestruturá-las com mestria, se bem que com alguma brutalidade. Empresário do carvão e do aço, personifica a vontade de Trump de voltar ao modelo de produção dos anos 60 para pôr os EUA a competir com a China e com a Tailândia, deixando o setor dos serviços e de outras coisas liberais para os "esquerdalhos" da Europa e do Canadá. Nós agradecemos! A confirmação de Ross no Senado não deve ser difícil (até já foi Democrata registado e colaborador de Bill Clinton).

No Tesouro, Steve Mnuchin, formado em Yale e ex-quadro da Goldman Sachs, aventurou-se no mundo da produção cinematográfica recentemente, tendo sido ridicularizado por isso. Mnuchin fez desde cedo parte da campanha de Trump e foi o principal conselheiro em matérias financeiras do bilionário nova-iorquino, com quem já tinha trabalhado (curiosamente já foi processado pelo Presidente-eleito). Não sabemos muito sobre esta escolha, mas sabemos que Trump atacou Clinton a torto e a direito por ser próxima de grupos financeiros, não deixando de ser curioso que escolha um quadro da Goldman Sachs para levar a cabo a sua desregulação de Wall Street (que em muito beneficiará bancos de investimento como a Goldman). Apesar de algumas ameaças de Bernie Sanders e Elizabeth Warren, esta confirmação deve ser pacífica, optando os Democratas por se concentrar noutras batalhas.

Na Defesa, uma das melhores escolhas de Trump, o muito condecorado General James Mattis. A escolha até é ilegal (os militares só podem passar para o Governo civil depois de 7 anos de inatividade e Mattis só está reformado há 3), mas as posições pró-NATO e anti-Rússia do General são encorajadoras e contrárias às do Presidente-eleito. Já a sua posição mais agressiva em relação ao Irão tem sido mais criticada. Para quem, como eu, acha que não se devia negociar com o Governo radical do Irão, e que tentar acordos com fundamentalistas pode acabar, literalmente, a rebentar-nos na cara, um Secretário da Defesa com estas posições é uma nota positiva. O Senado deverá confirmar Mattis e acabar com a lei que o impediria de assumir o cargo.

No Urbanismo e Habitação, uma das escolhas mais rídiculas desta Administração. O neuro-cirurgião/ diretor de hospital Ben Crason (uma escolha óbvia para a Saúde) é escolhido para liderar a secretaria do Urbanismo, pouco tempo depois de ter dito que não se sentia preparado para gerir um departamento. Ainda mais ridículo fica quando nos lembramos que Carson foi candidato Presidencial este ano. Então afinal está pronto para gerir o país, mas não um mísero ministério, que afinal está pronto para gerir, mas só se for um de que não percebe nada? Parece que estão a gozar connosco.

No Emrpego, Andrew Puzder, um CEO de uma empresa de "fast-food" e acérrimo crítico dos direitos do trabalho. Parece fácil perceber o processo de escolha de Trump. Olha para uma Secretaria, descobre para que é que ela serve e escolhe a pessoa (de preferência homens ricos e brancos; se não, pelo menos um dos critérios) que odeia mais essa mesma secretaria. Simples.

No Interior, o congressista do Montana Ryan Zinke , escolha pessoal de Donald Trump Jr., que selecionou um amigo de caça para evitar regulações quando forem numa caçada (sim, chegámos a este ridículo).

Na Energia, Rick Perry, ex-Governador do Texas e homem que em 2012 tentou, sem sucesso, prometer que ia acabar com o Departamento da Energia (o vídeo está no nosso Facebook). Apesar de ter tomados posições em favor da indústria petrolífera, Perry (que deve ser a pessoa com o QI mais baixo dos selecionados) até começou um programa de energias renováveis no Texas. Também, não podia ser tudo mau.

Para terminar em beleza, o fim da busca por um Secretário de Estado acabou na semana passada, dando a origem a uma onda de indignação e a um trocadilho de má qualidade no título deste artigo. Rex Tillerson, CEO da ExxonMobil e homem próximo de Putin, foi escolhido em vez de Mitt Romney, que se humilhou perante Trump e arriscou toda a sua credibilidade para acabar a sua carreira com uma vexame inacreditável.  A proximidade de Tillerson à Rússia é preocupante, visto que nada de interessante pode vir de uma tentativa dos EUA se aproximarem de um ditador com sonhos de grandeza megalómanos que ameaça constantemente a ordem mundial. A Rússia tem uma economia fraca e umas forças armadas ultrapassadas, se a isolarmos ela vai apodrecer e morrer como já aconteceu uma vez, se a quisermos ajudar vamos perpetuar lá um líder que é um inimigo ativo do estilo de vida Ocidental. Alguns Senadores Republicanos como Marco Rubio, John McCain e Lindsey Graham já mostraram ser contra esta escolha e consequente aproximação à Rússia; já os Democratas juntam a isso o medo de que os EUA baseiem a sua política externa em interesses de petrolíferas. A confirmação não será fácil e um eventual chumbo de Tillerson seria um percalço muito grande para Trump, logo no início do seu mandato.

João Jonet




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