Volta ao Mundo dos Populistas

Farto de esperar que Trump escolha o seu Secretário de Estado para acabar de analisar a sua equipa, vou fazer uma revisão dos grandes assuntos políticos da última semana. Numa autêntica volta ao Mundo, vou tentar de forma rápida explicar as consequências dos grandes temas dos últimos dias.
Começamos pelo nosso "amigo" Donald Trump, que decidiu abrir um canal diplomático fechado há 37 anos. Ao contactar com a Presidente da República da China (Taiwan), o Presidente-eleito dos EUA parece querer provocar a República Popular da China, país que ameaçou durante toda a sua campanha com uma "guerra comercial" e que acusou de ser um país desonesto na prática de preços e a definir o valor da moeda. É claro para todos que a competição desleal da China no mercado internacional desde que aderiu à Organização Mundial do Comércio tem causado enormes e rápidas mudanças no tecido social ocidental. No entanto, a solução é obviamente continuar a promover a globalização, para que a classe média chinesa continue a crescer e ganhe poder para exigir o que todas as classes médias exigem desde sempre: boas condições de vida e Democracia.
Quanto à legitimação do Taiwan, que desde 1979 passou a ser considerado parte da China, parece-me que Trump agiu bem ao reconhecer a existência da pequena ilha. O país acabou de eleger uma Presidente que quer por fim ao diferendo com a China comunista e tornar o Taiwan no país independente que realmente é. Desde que os comunistas tomaram o poder na China que o governo legítimo do país se encontra exilado no Taiwan, com os dois lados a exigirem que o outro se renda a uma só China, dominada por um ou por outro. Quando Nixon visitou a China continental em 1972, abriu as portas daquele regime, que substituiu a China legítima nas organizações internacionais nos anos subsequentes. O Taiwan, uma economia vibrante e democracia totalmente livre, tem o direito de re-entrar na arena internacional e deixar de ser humilhado. É importante fazer um esforço para que a China reconheça a independência da ilha, visto que não parece possível uma re-unificação. Acho que é a primeira vez que disse que Trump fez alguma coisa bem. Não sei se me sinto em condições de continuar...
Fora de brincadeiras, temos agora o fantasma do comediante Beppe Grillo a pairar sobre a União Europeia. Depois da derrota da reforma constitucional de Matteo Renzi em referendo, a Itália deve estar a caminho de umas eleições em que o Movimento 5 Estrelas PODE vencer. Todos nos rimos do famoso slogan do palhaço Tiririca (Deputado federal do Estado de São Paulo) " Vota Tiririca/ Pior que tá não fica", mas agora parece ser essa a bandeira das principais ameaças ao Mundo liberal e globalizado que passámos os últimos 70 anos a construir. De Nigel Farage a Trump, de Le Pen a Catarina Martins, de Pablo Iglesias a Beppe Grillo (o expoente máximo), os líderes da "onda populista" avançam numa cruzada contra os "intelectuais do sistema" que os vê a querer tornar a ignorância numa bandeira eleitoral. Com ideologias soltas e pouco elaboradas, estas pessoas querem tomar o Ocidente para o "mínimo denominador comum" e o próximo capítulo do seu assalto parece estar em Itália. De ressalvar que a reforma de Renzi era muito mal pensada e merecia falhar, o problema é que neste momento estamos em guerra entre o Mundo que temos e o que os populistas querem criar. Ou é preto ou é branco. Sim, a reforma de Renzi ia tornar o Senado num antro de corruptos regionais não-eleitos, ia dar demasiado poder ao Primeiro Ministro e esse poder nas mãos erradas seria muito perigoso e ia destruir a atual estrutura bi-camarária italiana que tantas vezes salva o país de ideias populistas. Por outro lado, o que pode acontecer se Beppe Grillo ganhar as próximas eleições pode ser muito pior. Ainda de outro ponto de vista, se o referendo passa e Beppe Grillo ganha as eleições na mesma, fica com um poder perigosíssimo. Num país com uma banca instável e que pode afundar a UE, esta instabilidade não é nada bem vinda. Não está nada fácil em Itália... para variar...
Na Áustria, um raro momento de felicidade para quem acredita nos valores da Democracia e da Liberdade. Alexander Van der Bellen venceu as presidenciais, derrotando um partido neo-nazi. O cargo de Presidente da Áustria é bastante irrelevante. Mas não deixa de ser preocupante verificar como os "partidos do arco da governação" sociais-democratas e democratas-cristãos não conseguiram que nenhum dos seus candidatos passasse à segunda-volta. Estas ideologias estão por toda a Europa a ser rejeitadas e se o NEOS (o único partido liberal da Áustria) não conseguir compensar as previsíveis perdas dos dois maiores partidos austríacos nas urnas em 2018, haverá a possibilidade de a extrema-direita ganhar um poder bem mais real, o executivo.
Por fim, em França, tivemos o reconhecimento pela parte de Hollande de que a sua Presidência foi um fracasso. O atual Presidente não quis candidatar-se com 4% de popularidade, o que teria sido mais um espetáculo triste para acabar o espetáculo triste que foi o seu mandato. Para lhe tentar suceder, candidatou-se o seu Primeiro Ministro, Manuel Valls. Um socialista da "terceira via", liberal social e economicamente, tem tentado reformar a economia francesa e acabar com as suas leis laborais dos anos 50. Devido ao seu pendor reformista tem sido alvo da ira dos sindicatos e a sua popularidade junto do eleitorado tradicional do PS não é fantástico. Valls é um bom candidato, pode ser considerado um centrista e, se ultrapassar a primária interna e fizer uma boa campanha, poderá chegar à segunda-volta. Claro que gostaríamos de ver Fillon e Valls na segunda-volta para humilhar Le Pen, mas se for apenas um, será certamente um bom Presidente para França, que trará as reformas necessárias e defenderá a atual ordem mundial e europeia.
Aperte o cinto e mantenha as mãos dentro do carro, porque os próximos anos serão uma montanha russa e podemos ser projetados para fora dela se não tivermos cuidado.
João Jonet
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