A vingança serve-se rápido

Como estava previsto, a eleição regional de ontem na Catalunha não resolveu absolutamente nada, revelando-se um erro de cálculo monumental de Rajoy, que, a juntar à impressionante performance do Ciudadanos, pode condenar o seu governo minoritário a novas eleições nos próximos meses.
Se já se esperava que os resultados não fossem conclusivos, a vitória do bloco liderado por Puigdmont, composto pelo partido independentista de centro-direita que tem dominado a política catalã nos últimos 40 anos e por uma série de candidatos da sociedade civil, sobre a Esquerda Unida, veio complicar ainda mais a situação. Apesar de esta ser a primeira eleição em que a direita separatista não representa o maior grupo parlamentar (teve menos 3 deputados e 4% dos votos que o C's, representado o seu pior resultado de sempre), ganhou o estatuto de maior força pró-independência contra todas as expetativas, dando ao pouco talentoso Puigdmont um importante trunfo nas negociações com Madrid.
Sendo a principal conclusão a tirar que Puigdmont pode afinal voltar a ser Presidente da Catalunha, se conseguir formar governo com uma Esquerda Unida mais moderada e uma CUP mais radicalizada, solução que não se afigura fácil. Apesar de tudo, é de notar que foram eleitos 70 deputados de partidos independentistas, contra apenas 58 de partidos abertamente unionistas (descontando os 8 deputados do Podemos e aliados que têm uma posição ambígua). O resultado até castiga o bloco separatista, cujos membros mais radicais, os anarquistas da CUP, viram a sua votação cair para metade, tal como o seu grupo parlamentar, reduzindo as hipóteses de outro governo ser forçado por este partido a fazer uma declaração unilateral de independência. Também do lado unionista, os extremistas foram castigados, com o PP a perder metade da sua votação e quase três quartos do seu grupo parlamentar.
Esta eleição mostra principalmente a força do C's, que ganha pela primeira vez uma eleição em Espanha, mostrando-se capaz de absorver o voto do PP e do PSOE, conglomerando-os numa força centrista agregadora. Ficou também provado que posições ambíguas não servem, e o Podemos que o diga, pois perdeu 3 deputados e não passou dos 7,5%, isto apesar de controlar a Câmara de Barcelona e de ter aqui mais de 20% dos votos em eleições nacionais. O PSOE foi outra das grandes desilusões, não conseguindo um resultado expressivo o suficiente para conseguir que o seu líder, Miguel Iceta, entre imediatamente na corrida para ser um Presidente de consenso.
Com a confusão instalada, uma união de todas as forças separatistas parece ser a solução de governo mais viável e, mesmo assim, a probabilidade de sucesso não é grande. Dependendo da força que a CUP tivesse nesta solução (era preferível que o Podemos substituísse os radicais neste pacto), os passos seguintes poderão variar entre tentar um novo referendo, desta vez legal, ou até mesmo um curso de ação que assumia que a Catalunha era independente, preparando estruturas de Estado e mesmo forças de segurança, como já foi sugerido por alguns independentistas, forçando de novo o Governo central a agir de forma mais agressiva.
Impossibilitada que está a colaboração entre C's e independentistas, todas as hipóteses de governo deverão passar pelo grande vencedor da noite: Carles Puigdmont. Por isto ser verdade é que a posição de Rajoy em Madrid fica muito mais fragilizada, visto que o PM tinha feito tudo para evitar um regresso triunfal do seu rival, e terá agora de lidar não só com as exigências de amnistia por parte dos separatistas, como com as exigências dos seus maiores aliados no Parlamento, o C's, cujos líderes já devem ter percebido que podem fazer mossa se novas eleições forem convocadas no próximo ano.
Em terceiro nas sondagens, com o PSOE a definhar e Rajoy KO, parece evidente que se Albert Rivera e o Ciudadanos conseguirem forçar eleições no próximo ano, sem que sejam diretamente responsabilizados por isso (talvez tentando que os pequenos partidos regionais que também sustentam o Governo desertem, tal como já ameaçaram nas negociações do Orçamento deste ano), e se a situação catalã se deteriorar e as propostas do C's continuarem a agradar ao grande público, o mais provável é que consigam andar à volta dos 20% no mínimo, conduzindo-os pelo menos a uma posição de enorme força na formação e construção programátca do próximo Governo.
João Jonet
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