O mito do Presidente cerebral

Já todos assistimos a este ciclo. Donald Trump diz/faz alguma coisa manifestamente estúpida, o Mundo reage em choque através das redes sociais, surgem inúmeros painéis de analistas para explicar o que é que se passou e, por fim, aparece o consenso generalizado de que a ação do Presidente não foi afinal estúpida, mas sim calculada e estratégica, sendo fácil de explicar se tivermos em conta as suas particularidades ideológicas e as da sociedade americana. Quando Trump decidiu reconhecer Jerusalém como capital de Israel, assistimos a mais um episódio desta já famosa saga.
Afinal, o Presidente respondia apenas aos anseios dos seus aliados internos e externos, sendo esta ação perfeitamente coerente com o que prometera em campanha. Tudo certo, o reconhecimento de Jerusalém é um assunto muito importante para uma das fações Republicanas mais responsáveis pela sua vitória em 2016: a direita cristã, que engoliu um sapo do tamanho do Texas ao votar num homem que tinha posições periclitantes relativamente ao aborto, estava casado pela terceira vez e que se gabara de assediar mulheres enquanto estava casado (esta última parte, para eles, até é capaz de ser mais relevante). Assim, este osso que Trump atirava era mais que merecido.
Não podemos também esquecer a brilhante estratégia para o Médio Oriente que esta Administração está a construir. Ao tentar uma aproximação da Arábia Saudita com Israel, os E.U.A. parecem procurar não só contra-balançar o poder do Irão, como conseguir passar o testemunho de "polícia" da região para os seus dois aliados. Naturalmente que Trump tinha de recompensar os israelitas por estarem a entrar nesta curiosa aliança e a mudança da embaixada foi a forma mais simpática e simbólica que encontrou, pois, quando é para dar presentes, o Presidente não olha a limitações fúteis como a estabilidade da região mais perigosa do Planeta.
Estes fatores podem parecer mais do que suficiente desta ação, mas a mim algo não me cheira bem, e isso está intimamente ligado com o "timing" da decisão. Se a panorâmica interna e externa não se alterou desde que Trump tomou posse, por que raio fazer isto agora, quando já ninguém se lembrava da promessa eleitoral. Aqui é que entra para mim o fator que explica toda a ação de Trump, nesta e noutras matérias. A única coisa que lhe interessa é a sua sobrevivência, e estando ela constantemente ameaçada, o melhor que há a fazer é tentar mudar o ciclo noticioso, focando-o em "faits divers" como o facto de profissionais de futebol americano se ajoelharem enquanto toca o hino, aquela história de Elizabeth Warren ter dito numa candidatura de trabalho que tinha herança nativa-americana, ou até a narrativa da "Guerra contra o Natal". Usando o Twitter como principal arma, tudo serve para desviar atenções de legislação terrível, candidatos inqualificáveis, comportamentos hipócritas, e especialmente da investigação do envolvimento da Rússia nas eleições de 2016.
Não me parece, portanto, coincidência nenhuma que esta decisão tenha sido anunciada um dia depois de Michael Flynn (ex-braço direito de Trump para política externa e defesa) ter admitido que mentiu ao F.B.I., permitindo que se comece a construir um caso de obstrução de justiça contra o Presidente.
A decisão de Jerusalém não foi uma coincidência, tal como não foi a decisão de começar uma investigação a fraude eleitoral (alegando que 3-5 milhões de pessoas tinha votado ilegalmente em Hillary) apenas dois dias depois de demitir o Diretor do F.B.I. por este não ter parado de investigar Flynn, ou a decisão de acusar Obama de ter posto escutas na Trump Tower quando o foco do ciclo noticioso era a demissão de Flynn, ou quando chamou "sons of a bitch" a jogadores de futebol americano que protestam pacificamente contra discriminação racial para cobrir o facto de ter acabado com o popular programa D.A.C.A., que concede amnistia a imigrantes ilegais que entraram no país quando eram menores, já para não falar do facto de Trump ter passado o mês de Agosto a defender neo-nazis e a perdoar um xerife racista para cobrir o facto do Procurador Especial Robert Mueller ter começado precisamente nesse mês a intimar pessoas que participaram na sua campanha, ações que resultaram nas confissões de dois ex-funcionários (Flynn e George Papadoupolos) e na acusação de outros dois (Rick Gates e Paul Manafort).
Se chegou até aqui, calculo que isto lhe tenha parecido uma grande teoria da conspiração, mas, mesmo que não seja verdade que Trump colaborou com a Rússia, este escândalo dá má imprensa, e por isso é natural que se procure mudar o foco.
Basicamente, o que eu quero aqui é que da próxima vez que Trump disser/fizer alguma coisa escandalosa, o leitor vá ver, não o que é o novo escândalo, mas sim o que é que o Presidente dos E.U.A. lhe quer esconder. Marco Rubio perdeu as primárias republicanas no dia em que disse 4 vezes no espaço de 30 minutos a seguinte frase "Vamos deixar esta fantasia de que Barack Obama/Hillary Clinton não sabem o que estão a fazer, eles sabem exatamente o que estão a fazer". Por isso, agora digo: vamos deixar esta fantasia de que Donald Trump tem uma estratégia política coerente, ele está só a tentar sobreviver.
João Maria Jonet
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