Guerra de trincheiras
Não, não vimos com o discurso clássico de que já não há esquerda nem direita e que o populismo vai acabar com o Mundo como o conhecemos. Não vamos perder tempo a escrever sobre a difusão de ideais xenófobas com tiques de autoritarismos que ameaça a ordem vigente, esse assunto já foi explorado até à exaustão. Vimos, no entanto, abordar a forma miserável como tanto a direita e a esquerda têm vindo a lidar com este fenómeno. Queremos criticar a política do “ou estás comigo ou contra mim” venha de onde venha. Esta sociedade binária em que reconhecer racionalidade num argumento condenável ou mesmo legitimidade numa opinião divergente são atos de traição gravíssimos está a cansar-nos e por isso queremos fazer uma análise crítica que toque todos os cantos do espectro político.
Comecemos pela direita. Os políticos de direita vivem num dilema constante em que tentam agradar a todos nas suas “fileiras”. Ora, as fileiras destes partidos revelam, mais do que nunca, uma falta de homogeneidade ideológica que vai desde indivíduos com posições políticas alinhadas com o centro-esquerda a simpatizantes de Donald Trump e Jair Bolsonaro. A solução dos líderes partidários, numa tentativa de agradar a gregos e troianos, tem sido a de manter uma posição neutra. Parece ser uma ideia sensata, dadas as circunstâncias: o líder do partido representa todos os militantes e, por isso, tem de adequar o seu discurso a tal. O grande problema está em definir a linha em que a neutralidade já não é compatível com os princípios pelos quais se (supostamente) rege o partido. Neste esforço constante que a direita portuguesa faz para não levantar ondas em questões sociais, acaba por comprometer os valores liberais democráticos que diz defender. Ficamos igualmente enjoados com o aparecimento desta direita contra-cultural que se sente perseguida como se fosse uma minoria, que vive da provocação e que dá demasiada importância à manutenção de um status-quo social que há muito se perdeu, assim como nos incomoda o facto de não se separarem devidamente as águas. Se há direita dura em Portugal que forme o seu próprio partido e se remeta ao seu cantinho. Se o PSD e o CDS são de facto partidos comprometidos com a democracia liberal e com os valores do progresso, que se deixem de meias medidas e o assumam, não andem a apaziguar uma fação que nunca vai ser apaziguada. Esse foi o grande erro do Partido Republicano em França e nos Estados Unidos, dos Conservadores em Inglaterra e da CDU na Alemanha e mesmo assim os líderes da direita continuam a mostrar a mesma cobardia eleitoralista de sempre para tomar posições em questões fraturantes da sociedade.
A esquerda também peca por fazer uma oposição ineficiente aos populismos emergentes, mas de outra forma. Enquanto a direita se revela pouco firme e assertiva quanto à defesa dos princípios da igualdade e de luta contra a discriminação, a esquerda toma uma posição de puro repúdio de qualquer comportamento desviante à sua ideologia. Vozes influentes da esquerda portuguesa tornam-se tóxicas ao classificar de extremista qualquer indivíduo que mostre sequer simpatia com um argumento mais populista, num constante exercício de snobeira intelectual e puritanismo ideológico. Aqui se põe o grande problema: o uso barato de termos como “fascista” ou “extremista” para conotar qualquer indivíduo que seja, por exemplo, pouco recetivo à entrada de migrantes económicos no seu país, ou à discussão mais aberta de comportamentos sexuais. Este comportamento vai levar a que pessoas que estejam no “limiar da direita”, com uma posição política ainda indefinida em determinados aspetos, se sintam desprezadas por indivíduos que os rotulam automaticamente como seres inferiores. O resultado será logicamente o fomento do ódio contra o “lápis-vermelho” da esquerda, que só admite apoio entusiástico a todas as suas causas, deixando esquecida na sua triunfal marcha revolucionária a extraordinária virtude da tolerância. Sabemos que muitas vezes pode parecer insuficiente, mas vitórias totais são raras e não costumam produzir resultados fantásticos no longo prazo.
Logicamente, estas críticas não se aplicam a todos os políticos de direita e de esquerda. A solução, na nossa opinião, passa por derrotar estas vozes que abrem portas à difusão dos populismos através de uma só maneira: informação e desmistificação. Nunca através de censura. A banalização de comportamentos autoritários deve ser contrariada ao relembrar a história. Deve fazer-se notar que o politicamente correto é o reflexo (que por vezes pode ser extremado) de um nível de tolerância social nunca antes presenciado na História, algo que deve ser valorizado. No entanto, apesar de ser claro que o liberalismo social venceu a maioria das guerras culturais e se assume como ideologia dominante, não devemos humilhar o adversário (uma tática que foi tão descredibilizada pela história como qualquer tipo de totalitarismo).
A política não pode ser feita exclusivamente com base em emoções. As campanhas políticas não podem ser feitas através de protestos e provocações. O diálogo não pode ser evitado com a justificação de que as “elites” controlam a comunicação social. Tudo isto são ímpetos novos e tóxicos na política.
Por outro lado, o centro pragmático e tecnocrático que aqui estamos a defender (ou pelo menos a não atacar), também não pode esquecer o lado emotivo das interações sócias, devendo tentar perceber problemas sociais para lá dos gráficos e das folhas de cálculo. Apesar de uma abordagem científica ser essencial na formulação de políticas públicas, se esquecermos o fator emotivo seremos, como temos sido na última década, surpreendidos pelo tipo de problemas identitários que não aparecem em previsões macro-económicas.
O populismo e a demagogia começam a ganhar forma em Portugal. Já começam a nascer movimentos que se apresentam como uma via alternativa ao “sistema”, encobertos com propostas como o fim da asfixia fiscal ou a desburocratização do Estado, encabeçados por políticos com um historial de discurso racista. Isto é o reflexo de uma falha do sistema no seu todo, tal como a apatia democrática evidenciada pela elevada abstenção que temos registado.
Estamos numa fase decisiva no nosso país, em que podemos optar por duas vias: a de desprezar quem se sente esquecido e opta por vias mais radicais ou por ficar em casa, originando mais ódio e mais revolta contra o “politicamente correto”, contra o “sistema” e contra o “poder instalado”, tornando-se moda dizer o que antes não podia ser dito para conseguir votos; ou a segunda via: compreender o porquê do (re)nascimento destes movimentos e através da informação e educação prevenir a sua difusão, uma visão que vai de encontro aos valores de uma ordem liberal que é fundamentalmente boa na sua génese e que queremos manter viva. O mais importante é perceber que reformar o modelo existente de democracia liberal (que consideramos o ideal) é a única maneira de o preservar e que em Portugal, os ímpetos destruidores vão aparecendo à esquerda e à direita e a vontade de mudar alguma coisa por parte dos grandes partidos continua nula.
João Maria Jonet e João Moreira da Silva

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