Não saber ler nem esperar


Saber ler resultados eleitorais nos Estados Unidos exige duas coisas cada vez mais raras: paciência e ponderação. No dia 6 de Novembro ninguém quis usar nenhuma das duas e o resultado foi uma leitua perfeitamente idiota dos habituais "paineleiros" que transbordou para a opinião pública e para a cabeça de um Presidente cada vez mais iludido e isolado no seu mundinho.

Os resultados das eleições intercalares foram uma brutal rejeição da agenda deste Presidente, com uma histórica vitória para os democratas na House, uma resistência impressionante destes no Senado, e vitórias brutais ao nível estadual. Qualquer leitura de que os E.U.A. estão divididos e que este resultado esteve perto de um empate foi formulada para o imediato da noite eleitoral, antes de se contarem os resultados da Costa Oeste e não corresponde minimamente ao que se passou. É preciso perceber que no Oeste não só as urnas fecham muito mais tarde, como muitos votos vêm por correio, e podem ser entregues até ao dia da eleição. Por isso, fazer uma análise de resultados, como tantos fizeram, no próprio dia é no mínimo pouco inteligente. Comecei a escrever este artigo com ainda 8 lugares na House, dois no Senado e uma eleição de Governador por decidir, portanto mesmo agora ainda estou sujeito a que muita coisa mude. É ridículo que, tendo todos os ganhos para os Democratas no Senado e um terço dos seus ganhos na House vindo de regiões no fuso horário do Oeste, se tenha dito que os resultados eram fracos e não mostravam uma rejeição de Trump. O Orange County em Los Angeles e o Arizona são dois dos maiores bastiões do conservadorismo americano e, em Janeiro, o primeiro passará de 4 para 0 representantes republicanos (estou a projetar uma derrota de Mimi Walters no 45º) e o segundo terá uma Senadora democrata abertamente bi-sexual. Se isso não é uma rejeição do Trumpismo, não sei o que é.

A análise de que os Democratas não tiveram a vitória gigantesca que lhes era exigida está toldada pela visão dominante do último ano de que estes já iam ter uma grande vitória, sendo a base das expectativas uma mega onda azul. Se o mínimo era isto, então é óbvio que desiludiram, mas não me parece que a maior vitória no voto popular desde 1946, 36/44 ganhos na House apesar de mapas adversos, apenas duas (até podem ser zero) perdas no Senado, 7 mansões de governador ganhas (mais do que os Republicanos na sua "onda" de 2010) e 333 lugares e 7 câmaras legislativas estaduais recuperadas (um terço do que Obama perdera nos seus 8 anos), sejam coisa pouca; são, sim, uma derrota brutal para Donald Trump. Claro que era preferível que tivessem ganho o Texas, o Indiana, o Missouri, o Dakota do Norte e ganho o Senado. Claro que tinha sido melhor terem ganho a eleição para Governador na Geórgia, no Ohio, no Iowa e na Florida. Mas é só voltar para trás e ler esta lista de Estados para perceber a extraordinária conquista que se estava a exigir. TODOS estes estados foram ganhos por Trump em 2016, só três deles por menos de dois dígitos. O mapa não ajudava os Democratas de maneira nenhuma e mesmo assim estamos aqui a falar de uma vitória clara. Ao mesmo tempo é verdade que alguns dos candidatos que tiveram mais mediatismo, também por serem mais progressistas, foram vencidos, tendo a vitória sido alicerçada em pragmáticos moderados, num sinal do que deve ser o rumo a tomar pelo partido a nível nacional. Para 2020 observamos um ressurgimento dos Democratas no Midwest alicerçado pelo desapontamento e consequente abandono da coligação Trump por parte de independentes brancos, e observamos uma competitividade cada vez maior em subúrbios afluentes e com altos níveis de formação que torna o partido competitivo no Sul historicamente conservador. Ambos estes fatores tornam improvável uma vitória de Trump se este continuar na sua linha ideológica. Por outro lado se conseguir trabalhar com a House Democrata e virar ao centro, estará em excelente posição para recuperar estes eleitorados e ser re-eleito. Mas esperar que Trump vire ao centro de forma disciplinada é um exercício de fé tão grande como esperar que o Presidente pague os seus impostos. Esta é a versão resumida do que se passou, o aprofundamento que se segue será maus exaustivo e será só para os mais leais e interessados leitores

Na House estamos a projetar que os Democratas ganhem 41 assentos, o que representa o maior ganho para o partido desde as eleições de 1974, ano em que Richard Nixon se demitiu devido ao caso Watergate. Se isso e se casos como o de Orange County não são impressionantes o suficiente, vitórias em distritos eleitorais suburbanos em que os Republicanos dominavam há gerações, desde New Jersey até ao Minnesota, da Florida a Washington não faltam histórias impressionantes. Houve 15 destes districts suburbanos em que a preformance democrata melhorou em mais de 20%(!), e números destes explicam vitórias em bastiões republicanos como Oklahoma City ou Charleston (Carolina do Sul), provando que a base suburbana dos Republicanos já não tapa mais os olhos e põe a cruzinha para apoiar Trump e virou definitivamente costas a esta versão deturpada do seu adorado partido.

No Senado é preciso uma explicação mais aprofundada (também lhe podem chamar "spin") para explicar porque é que os resultados são maioritariamente maus para os Republicanos. Dependendo de uma segunda volta no Mississipi (em que uma vitória para o partido do Presidente é esperada, mas depois do Alabama nunca se sabe) e de uma recontagem na Florida (onde o Governador Rick Scott vence o Senador Bill Nelson por 0,15% com imensos relatos de irregularidades), o GOP deverá ganhar 2 assentos no Senado, expandindo a sua maioria para uma cifra mais confortável de 53-47. Isto deve-se a vitórias contra resilientes incumbentes democratas no Missouri, Indiana e Dakota do Norte que tinham resistido nos últimos ciclos à violenta viragem à direita dos seus estados, também com grande ajuda do fator sorte. Joe Donnelly do Indiana ganhou em 2012 com uma sorte descomunal, vendo o ultra-popular incumbente republicano ser derrotada na primária por um candidato de extrema-direita, que implodiu depois na geral com declarações afirmando que a gravidez resultante da violação era uma dádiva divina. Sem este tipo de fortuna num estado que Trump ganhou por 20% em 2016, Donnelly foi naturalmente de vela. No Missouri, a história é muito a mesma, margens de 20% para Trump em 2016, uma vitória em 2012 contra um candidato que disse que existia "violação legítima" e uma derrota natural este ano. No Dakota do Norte ninguém disse nada sobre violação em 2012, mas Heidi Heitkamp ganhou num estado historicamente democrata que guinou à direita no virar do século com uma margem mínima de menos de 1%, sucedendo a outro democrata conservador, mas no ambiente super-polarizado de 2018 não resistiu num Estado que Trump ganhou por 40%. A provável derrota do amorfo Bill Nelson na Florida deverá fechar o capítulo de boas notícias para Donald Trump, visto que o Presidente convenceu o seu amigo Rick Scott (também milionário) a candidatar-se à Câmara Alta. Apesar disto, o Governador distanciou-se muito do Presidente (não quis participar em comícios) e foi a sua popularidade muito superior junto da historicamente republicana comunidade latina da Florida que garantiu a sua possível vitória, a juntar a um partido republicano local muito mais trumpista que no resto dos grandes estados (apesar de ser apenas de 48%, o approval rating presidencial no Estado é 7% maior que a nível nacional), devido à grande comunidade de reformados e ao eleitorado branco de classe trabalhadora do norte do Estado que se assemelha muito ao Alabama.
Como pontos positivos para os Democratas temos a já referida vitória no ancestralmente Republicano Arizona, a derrota de um incumbente do GOP no Nevada, a derrota por apenas 2,5% no outrora ultra-conservador Texas (dizem que em 2020 o estado já poderá ser um swing state, o que é brutal para um estado que há 14 anos os Republicanos ganhavam por 23% e há 2 ganharam por quase 10%) muito por mérito do carismático Beto O'Rourke que se colocou bem para estar no ticket do partido em 2020 (ou tentar de novo o Senado). Também é importante ressalvar as vitórias de Jon Tester no Montana (que Trump ganhou por 21%) e de Joe Manchin na Vírgina Ocidental (ganha por 40%), provando que um candidato excelente para o Estado vence independentemente da polarização. As vitórias esperadas de Democratas em estados do Midwest que Trump ganhou por margens mais pequenas (Michigan, Pennsylvania, Ohio e Wisconsin) também são bons indicadores para 2020, principalmente pelas margens confortáveis.

Nas eleições estaduais, os Democratas destruiram muito do domínio que os Republicanos tinham construído a este nível nos 8 anos da Administração Obama. Algumas vitórias eram óbvias, o Illinois, Novo México, Maine (estados ganhos por Hillary Clinton, alguns por larga margem) estavam a pedir para reverter à norma. Algumas foram importantes para 2020 como no Wisconsin e no Michigan, a juntar à manutenção convincente da Pennsylvania na coluna democrata. E uma foi particularmente simbólica, com o extraordinariamente republicano Kansas a ser pintado de azul, e um nomeado apadrinhado por Trump contra o establishment local a ser derrotado de forma humilhante. As derrotas apesar dos candidatos fortes na Geórgia, Iowa e Ohio foram desmoralizadoras, mostrando que a Geórgia é um swing state que ainda mantém o seu conservadorismo e os restantes estão cada vez mais à direita do que seria desejável. A provável derrota na Florida (também em recontagem) perante um acólito radical de Trump, mostra que a escolha de um candidato da ala de Bernie Sanders, na esperança de entusiasmar uma maioria silenciosa progressista no Sul, é uma solução que falha mesmo contra candidatos fracos e que não deve ser repetida. Por fim, destaque para os 4 Governadores Republicanos re-eleitos em estados que Hillary ganhou, alguns por mais de 20% (Maryland, Vermont, New Hampshire e Massachussetts), que provam que o centro do partido ainda está vivo e, apesar de não ter grande futuro a nível nacional, continua a mostrar a competência de centro-direita que era característica do partido. Infelizmente, já deixei de esperar que esse tipo de política volte, restando-nos esperar que o Partido Repubicano continue a sofrer derrotas convincentes até abandonar este rumo nacionalista e populista focado na identidade branca que agrada a uma minoria com poder desproporcional mas decrescente nos Estados Unidos.

P.S.: Desde que este post foi escrito esta manhã 3 assentos na House foram ganhos pelos Democratas, confirmando-se a projeção do domínio total de Orange County.

João Jonet

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