Alemanha 2017: O Dia do Juízo Final

Dizer que a nossa cobertura das eleições alemãs tem sido modesta é um exagero. Numa campanha aborrecida (o título deste artigo é uma tentativa desesperada de fazer o plebiscito de hoje parecer interessante) em que os dois principais candidatos passaram mais tempo a concordar do que a atacar-se, nenhum dos nossos colaboradores mostrou a menor vontade de acompanhar o fenómeno eleitoral alemão com artigos, até porque estando ganho à partida, não era um tópico particularmente atraente. Como o leitor calcula, eu prefiro a dramática e ultra-mediática política americana a este festival de aborrecimento que ocupou os últimos meses do mais importante país da Europa, mas como não pode deixar de ser, há que deixar aqui uma previsão e uma breve análise à campanha, às propostas e ao que se passará a partir de amanhã. Sim, porque a partir de amanhã o interesse na política alemã deverá triplicar (tal como o número de artigos), com a especulação sobre soluções governativas a tomar conta das notícias e a pairar sobre o futuro da UE, da crise dos refugiados e da relação da Europa com os E.U.A. de Trump.
Começo por deixar aqui uma explicação, já preparada há alguns meses, do complexo sistema eleitoral alemão, para que o leitor possa entender minimamente (digo minimamente porque eu próprio não consegui ainda dominar muito bem as especificidades do sistema) as contas que serão feitas esta noite. Passemos então às previsões e análises:
CDU- 260 a 290 assentos no Bundestag - O partido de Angela Merkel será sem dúvida o mais votado, mas deverá perder lugares no Parlamento Alemão, fruto da entrada de dois novos partidos nas contas parlamentares. É um resultado que agora nos parece óbvio, mas que há seis meses esteve muito em causa, quando Schulz entrou em cena, ou há 2 anos quando a crise dos refugiados fragilizou brutalmente a posição da Chanceler. Há que ter em conta que Merkel é uma política com sete vidas e mil mudanças de posição, absolutamente maleável ideologicamente, e portanto prescrever o seu declínio é sempre um exercício profundamente arriscado. Nestes 2 anos (e nos últimos 12) o povo alemão teve uma Chanceler que mostrou calma e frieza perante os maiores desafios da Alemanha unificada (Grande Recessão, Crise da Zona Euro e Crise dos Refugiados), estabilizando o país e garantindo um crescimento económico assinalável. Quando se compara a tranquila situação alemã com as caóticas situações no Reino Unido ou E.U.A. não fica difícil para os alemães perceberem que têm aqui uma pragmática e capaz líder que não tem medo de mudar de posição, se for nos interesses da opinião pública, como foi o caso na abertura aos refugiados (que lhe valeu o ódio da ala mais à direita do seu partido conservador democrata-cristão, que entretanto passou para a mais radical AfD) ou no caso do casamento gay, em que Merkel abriu caminho à igualdade de casamento apesar de décadas de oposição, para retirar um trunfo eleitoral a Schulz. Angela Merkel vai ser Chanceler Alemã nos próximos anos e ainda bem, porque a Europa e o Mundo percisam deste tipo de líderes.
SPD- 150 a 180 assentos - Schulz abandonou o seu prestigioso cargo de Presidente do Parlamento Europeu há cerca de 6 meses, com o intuito de ressuscitar o mais importante partido social-democrata da Europa, depois de 4 anos como parceiro minoritário de coligação com Merkel que tinham fragilizado muito o SPD. Com o centro-esquerda em queda um pouco por todo o Ocidente, Schulz parecia vir salvar o seu campo ideológico qual cavaleiro andante, irrompendo pela cena política interna (onde nunca tinha tido protagonismo) e desafiando a longa liderança de Merkel. Longe vão esses meses de Primavera em que os sociais-democratas estavam colados aos democratas-cristãos nas sondagens e depois de uma campanha pouco aguerrida e pouco inspiradora o SPD está a caminho do pior resultado de sempre (abaixo dos 23%), o que poderá impedir Schulz de juntar-se sequer a um futuro Governo de coligação. Estes resultados não surpreendem, visto que Merkel tem ocupado o centro da política alemã sem deixar ninguém entrar e depois de incorporar o SPD no seu Governo (pela 2ª vez) tirou-lhes a voz na oposição. A única hipótese que Schulz poderia ter explorado era a exaustão do povo alemão, que ao fim de 12 anos poderia querer só mudar de ares e despachar a Chanceler, mas a popularidade desta não desaparece e o líder do SPD caminha para o seu enterro político, que dada a sua incompetência e afirmações grosseiras enquanto em Estrasburgo, é muito bem vindo.
Agora passamos para a parte mais importante desta eleição: A corrida pelo 3º lugar. Quem lá chegar deverá liderar a oposição no caso de uma coligação (muito provável neste momento) entre os dois maiores partidos.
AfD- 60 a 90 assentos - Se a direita isolacionista (leia-se islamofóbica) ficar em terceiro terão uma plataforma única para atacar o governo do "centrão" como maior partido da oposição. A sua agenda pode classificar-se como liberal para consumo interno (leia-se branco), pois o partido que nasceu para combater o Euro, mas que vive para atacar imigrantes, está muito próximo da ideologia de Wilders na Holanda, defendendo liberdades individuais e mercado livre, mas só para alemães. Por isso hesito sempre em chamar extrema-direita a este tipo de movimentos, que não passam de uma direita velha e racista que felizmente vai morrendo nos principais partidos de direita ocidentais.
FDP- 50 a 80 lugares - Se os liberais chegarem ao 3º poderão dar a Merkel a sua coligação preferida, feita à direita com uma agenda de liberalização económica e pró-europeia que pode favorecer a visão de Macron para a UE. O líder dos liberais, Christian Lindner, rejuvnesceu o seu partido, que depois de uma coligação com Merkel não tinha passado os 5% necessários para entrar no Bundestag em 2013, e com uma agenda "business friendly" com um toque social moderno (o líder é muito jovem) e um infeliz piscar de olho à direita que quer fechar fronteiras parece estar numa boa posição, se bem que chegar ao Governo, numa coligação só com a CDU ou também com os Verdes não é a mais provável neste momento.
Die Linke- 50 a 80 assentos - A esquerda radical alemã foi o maior partido da oposição na última legislatura e com a sua forte base de apoio na Alemanha Oriental não deverá ter problemas em continuar na luta por ser a 3ª maior força política, apesar da sua fraca campanha, ideias descabidas e mensagem pós-comunista enjoativa. Infelizmente não parece que a Alemanha se vá ver livre deste disparatado partido anti-capitalista nesta eleição.
Verdes- 30 a 60 assentos - Um partido verde que tem feito parte do arco da governação (depende também do nível de radicalismo da liderança, esta é das funcionais), que se posiciona perto do centro e que é um parceiro de coligação possível para um partido de direita é uma coisa rara na Europa. Apesar de ter líderes competentes, o partido não foi feliz nesta campanha, pois a sua posição em relação a fronteiras e à globalização é a menos popular de entre os 4 partidos que lutam por ser a 3ª maior força política alemã. A única esperança é que Merkel seja forçada a coligar-se com eles e com os liberais numa "coligação Jamaica" (as cores dos três partidos correspondem às cores da bandeira do país caribenho).
Assim ficam as minhas previsões para logo à noite, esperando-se que me engane e que a AfD e a Die Linke tenham um resultado muito pior do que prevejo, e que os centristas liberais possam formar com Merkel um governo que seria a melhor solução para a Alemanha.
João Jonet
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