O Príncipe (Herdeiro)

Visto que John Delaney decidiu começar a campanha para 2020 dois anos antes do que é suposto, vou começar uma longa e irregular série de artigos em que apresentou ao leitor possíveis candidatos à Casa Branca nas próximas presidenciais. Deverei apresentar bem mais candidatos Democratas do que Republicanos (pelo menos ao início, se Trump não acabar o mandato muda tudo) até porque, apesar de me identificar mais como o Partido Republicano, não consigo deixar de pensar que essa ligação esteja cada vez mais a ficar no passado, com a crescente radicalização do GOP. Estes perfis serão tendenciosos, tanto paleo-conservadores como Ben Sasse e Mike Pence como progressistas radicais como Bernie Sanders ou Elizabeth Warren terão à sua espera violentos ataques, tal como centristas como Kasich, Cuomo ou Hickenlooper terão avaliações muito simpática, mas ao meu centrismo já deverá o leitor estar mais que habituado. A ideia é conseguir, chegue o Verão de 2019, dizer que consegui avaliar o mais amplo possível espectro de candidatos, sendo de ressalvar que em 2005 ninguém diria que Barack Obama teria a mínima possibilidade de ser Presidente, tal como em 1997 eram poucos os que apostavam em George W. Bush e em 1989 ninguém sabia quem era Bill Clinton. Mesmo correndo o risco de escrever perfis irrelevantes, acho um exercício muito importante para compreender o loooongo processo eleitoral americano.
Começamos a nossa série com aquele que será neste momento o meu candidato Democrata preferido, não só pela sua capacidade para derrotar Donald Trump, mas também pelas suas credencias governativas. Falo claro do re-eleito Governador de Nova Iorque Andrew Cuomo, que também foi Procurador-Geral do Estado e Secretário da Habitação e do Desenvolvimento Urbano de Bill Clinton. Para além de um currículo recheado conta também com um facto de ser filho de um dos grandes ídolos do Liberalismo americano, Mario Cuomo, derrotado apenas quando concorreu para um 4º mandato enquanto Governador do Empire State e que durante anos foi considerado o favorito a nomeação democrata, sem nunca se chegar à frente. Andrew parece querer emular o pai, tendo rejeitado qualquer especulação quanto a 2020, dizendo-se antes focado na sua re-eleição para um 3º mandato em 2018. Se já vimos esta conversa muitas vezes nos E.U.A., acabando quase invariavelmente na candidatura daqueles que veementemente negaram interesse na Casa Branca, e se não será à primeira vista impeditivo para Cuomo ser re-eleito em 2018 e depois iniciar a sua campanha em 2019 não deixa de ser um sinal negativo.
O grande erro de Mario Cuomo foi o seu 3º mandato, em que os Republicanos, controlando o Senado Estadual, bloquearam o orçamento do Estado de 1991 para o impedir de concorrer em 1992, ano em que teria sido certamente eleito Presidente, dada a fraca popularidade de George H. W. Bush e o fraco leque de candidatos Democratas, tendo um jovem desconhecido Governador do Arkansas (Bill Clinton) acabado nomeado. Se Andrew aprendeu alguma coisa com o passado, afastar-se-á de Albany (capital de N.I.) e da sua violenta e vingativa política e preparar-se-á para ser o 46º Presidente dos E.U.A. (ou 47º porque Mike Pence ainda poderá suceder a Trump).
Por agora as sondagens ainda dão a Cuomo poucas hipóteses de ser nomeado, mas a verdade é que continuam a incluir pessoas que podem muito não se candidatar em 2020 apesar da sua popularidade, como Joe Biden e Bernie Sanders, dada a sua idade avançada. Para além disso, Cuomo ainda não se dedicou a isto seriamente, porque se e quando o fizer, como animal político que é, ainda por cima na excelente posição de ter apoio político e económico da "esfera Clinton" (devido à associação profissional) e também da família Kennedy (era casado com uma filha de R.F.K.), não deverá ter problemas em tornar-se o favorito da máquina do Partido, com todas as vantagens que isso lhe pode trazer.
Resta agora explicar porque é que gosto de Cuomo. Muito tem a ver com o seu pragmatismo maquiavélico exemplificado na maneira como gere campanhas legislativas estaduais. Cuomo é um moderado assumido, que prefere governar mais ao centro que à esquerda (para onde o seu Partido tem vindo a fugir), por isso o Governador decidiu que só apoia candidatos com que consiga negociar, esquecendo as afiliações partidárias. Esta posição que o leva a apoiar Republicanos e o seu continuado controlo do Senado Estadual vale-lhe muitas críticas da ala "Sanderista" do Partido Democrata, mas o facto é que lhe traz resultados, seja no campo fiscal, da organização urbana ou das reformas sociais (conseguiu passar uma lei de igualdade de casamento e outra que garante acesso gratuito a universidades comunitárias com a ajuda dos seus parceiros à direita, que em troca vêm impostos a descer e qualidade de vida a subir seja em N.Y.C. ou no interior do Estado).
A sua constantes crítica de radicais de esquerda e de direita como prejudiciais à governação vale-he uma relação fria com o progressista Mayor de Nova Iorque Bill de Blasio e desconfiança da esquerda do seu Partido. A sua frieza, calculismo e rispidez também não fazem muitos amigos no meio político, mas o facto é que é um homem capaz de fazer aquilo a que se propõem sem muitos sobressaltos e colaborando com a oposição, algo tão raro como admirável na política moderna. É um candidato urbano com que o eleitor rural se consegue identificar, um homem que cresceu privilegiado numa família italo-americana originalmente muito pobre. No papel é o candidato perfeito, até pela sua personalidade combativa e agressiva, que dará para belos debates com Trump. Se estiver para aí virado e se o seu Partido não estiver irremediavelmente perdido para a esquerda radical, não tenho dúvidas de que será um excelente Presidente. Agora é esperar.
João Jonet
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