Consolida, filho, consolida!


A cantoria de intervenção estaria orgulhosa deste título; e o tema até se presta em parte às preferências políticas de José Mário Branco. O poder autoritário - incluindo o da República Popular (do povo, sempre do povo, Zé Mário) da China - anda a consolidar-se em homens fortes.  Esta tendência leva-nos a questionar se não valerá a pena repensar os versos do "FMI!", e se não será mais acertado clamar 'Xi Jinping! Não há força que retorça o Xi Jinping!'

Mas visitemos primeiro a Turquia: o Presidente Recep Erdogan tem revelado os seus ímpetos autoritários desde há muito. O Golpe de Estado falhado de há ano e meio, que viu o objetivo de retirar Erdogan do poder completamente frustrado, foi o pretexto ideal para o Presidente Turco e os seus compinchas começarem uma purga que está longe de terminar. Jornalistas, ativistas, opositores políticos... todos são ameaças ao regime, e todos vítimas da autoridade do Presidente. O  referendo de há uns meses foi apenas a confirmação de algo que não precisava de muito para ser confirmado: a realização de que Erdogan é o homem-Turquia. Por ele todos os poderes passam (uns mais diretamente do que outros), e que ninguém duvide disso! Mas entre os líderes que consolidam, Erdogan será dos que tem as bases mais tremidas. O referendo que acabou por lhe conceder mais poderes como Presidente da Turquia (e, basicamente, acabar com o estatuto do Primeiro Ministro) foi ganho com uma margem muito curta, e o líder Turco parece andar ansioso. A coligação rural e conservadora islâmica que lhe suporta o trono não é assim tão sólida, e o legado secularista e democrático de Ataturk deixou marcas que Erdogan gostava que fossem mais voláteis. Não são.

De Ancara atravessemos o Mar Negro e demos um saltinho à Russia de Putin... à Rússia-cada-vez-mais-de-Putin. Afinal, é ele um dos mais consolidados líderes deste mundo. A ele nenhum líder faz frente. Aliás, parece não haver nenhum líder senão Putin. Os índices de popularidade deste homem são considerados baixos quando roçam os 60%, e, mesmo numa altura em que um país que, em tempos, foi uma das principais potências industriais se encontra economicamente definhado, o ex-agente da KGB está em alta, com taxas de aprovação a rondar os 90%.
A ele é atribuído o mérito de ter restaurado o orgulho Russo, e de ter devolvido à Rússia o papel relevante a nível internacional que a História lhe deve, e que o futuro recompensará. Quem se disser capaz de derrotar Putin num confronto eleitoral será, no mínimo, alvo de chacota; e os próprios opositores têm noção disso. O movimento cosmopolita/liberal cinge-se a elites que não são, ainda, capazes de reverter o status quo instaurado por Putin. E duvida-se que o consigam enquanto ele se mantiver por perto. A Rússia é uma 'democracia' ao sabor de Vladimir, que não precisa sequer de ser Presidente para atuar como tal: os anos em que assumiu o cargo de Primeiro Ministro, mas em que tudo permaneceu basicamente como quando era Presidente, são prova disso. Putin é o homem-Rússia muito mais do que Erdogan é o homem-Turquia; controla os oligarcas russos com a superioridade de quem corrige meninos indisciplinados; tem tantos tentáculos quantos lhe sejam suficientes, e não parece ter quem lhe faça a vida muito difícil no país, exceto uns ativistas e outros jornalistas, ninguém para quem uns anos de cadeia (se tiverem sorte!) não sejam bom remédio. O que Erdogan faz em regime de emergência (a pretexto da tentativa de Golpe de Estado) é feito por Putin sem grandes constrangimentos.
A grande questão será: e depois de Putin? Quem consolida tanto quanto Putin chega ao ponto de se tornar insubstituível. Mas haverá um dia em que terá que haver transição, e, ou Putin tem escondido bem o seu benjamim, ou talvez se verifique mesmo que não há sucessor para Putin e o seu regime. Putin tem tido um talento notável para manter em cheque e pouco ruidosos todos os que são necessários à sua permanência no poder. Quando o lugar vagar, poderão ser 7 cães a um osso, e se um deles não for obviamente mais voraz, pode até ser que nenhum dos 7 saia vencedor. Nesse caso, não haverá nenhum sucessor ao nível de Putin, e a dinastia será feita de um só rei. Quem sabe se o que se segue não será democracia... senão o caos.

Para terminar a jornada, rumemos a Este, e descansemos em Pequim, onde, na semana passada, o Secretário Geral do Partido Comunista e Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, se prolongou no regime por meio de uma revisão à Constituição, que acrescentou aos princípios gerais "O Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era". Xi torna-se, assim, no terceiro Presidente a ser mencionado na Constituição, juntando-se a Mao Tse Tung e Deng Xiaoping, sendo que este último foi apenas mencionado na Constituição depois de morto.
Numa ditadura como a da China, o Partido é o elemento central, e o Secretário Geral apresenta-se ao seu serviço. Mas Xi Jinping tem desafiado a tradição. Tal como Putin, mas por outros meios, Xi tem multiplicado tentáculos, exercendo influência em estruturas do Partido através de organismos por ele criados; o peso das empresas detidas pelo estado, e a influência que estruturas partidárias podem exercer sobre estas, aumentam. A mais notável ditadura de partido único do séc.XXI tem-se personificado na figura de Xi Jinping, e a 'constitucionalização' deste presidente é só a mais recente (e, porventura, mais notável) das provas. Notável, também, e coerente com a consolidação de poder na figura, em vez de no partido, é o facto de Xi Jinping não ter seguido a tradição, e não ter apresentado um provável sucessor ao cargo de Presidente da China, dado estar o mandato de presidente limitado a apenas 10 anos.
Quem pode pode, e Xi Jinping tem podido cada vez mais. Ao rasgar com tradições, Xi Jinping mostra que é mais do que o Partido: o seu Pensamento será estudado nas escolas; a sua influência toma muitas formas e atinge todas as áreas da sociedade, e, mesmo que o mandato enquanto Presidente seja limitado a 10 anos,  Xi mostrou que o seu poder já está bem consolidado.
E depois de Xi Jinping? No caso chinês, essa questão não é tão relevante, precisamente porque o Partido é a base, e não o homem. É principalmente por isso que as ações de Xi são tão assinaláveis: apesar de ser uma ditadura assente no Partido, e não no homem, o Secretário Geral conseguiu destacar, por meios institucionais, a sua figura enquanto líder, e fazer de si mesmo um pouco homem-China.

O poder autoritário está com saúde. Cada um destes homens sente-se cada vez mais a alma do país que governa. Nem sempre lhes corre bem esta perceção, e, para que corra, não basta que fiquem quietos, admirando como são obedecidos. Cientes disso, é natural que lembrem a si mesmos quão importante é aprofundar o poder que já detêm; e, por isso, não será de admirar se for sabido que todas as noites estes líderes cantem baixinho a si mesmos "Consolida, filho, consolida!".

SG

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