O Burro Ainda Vai Coxo

Observadores atentos de política americana concluirão pelos resultados eleitorais da semana passada, e pela enorme dificuldade republicana para lidar com o seu terrível candidato ao Senado no Alabama, que 2018 terá tudo para ser um ano fantástico para os Democratas. Se nem num bastião do GOP como o Estado de Forrest Gump a liderança no Congresso consegue arranjar um candidato que, ao mesmo tempo, agrade minimamente ao eleitorado e... sei lá... não seja um teocrata lunático com antecedentes de pedofilia, o que será do Partido Republicano para o ano, quando forem a votos os 435 membros da Câmara dos Representantes, 33 dos 100 membros do Senado e 36 dos 50 Governadores da Nação (com respetivos Congressos estaduais). Ainda por cima, com as taxas de aprovação de Trump a não passarem dos 39%. Não admira que dois Senadores e 24 Congressistas republicanos tenham anunciado que este será o seu último mandato em Washington....
O problema é que "são precisos dois para dançar o tango" e os Democratas ainda têm muitos telhados de vidro, apesar da força mostrada nas eleições da semana passada. Ainda são assombrados por muitos dos fantasmas de 2016, que são os mesmos de 1992, bem... os mesmos desde pelo menos 1968, ou talvez desde 1876, que é para não dizer os mesmos dos anos 40 do séc. XIX (escrevi um texto sobre estes problemas há mais de um ano). Tem sido esta a sina do Partido Democrata. Aliás, tal com a do Partido Republicano. Ambos com imensos avanços e recuos foram sendo puxados pelas massas "anti-establishment" para a esquerda e direita respetivamente. De tal maneira que agora não só trocaram de posição ideológica como estão tão polarizados na sua nova casa intelectual (ou pseudo-intelectual, melhor dizendo) que nem conseguem comunicar.
Essas divisões só devem aumentar em 2020, com os Republicanos forçados a barricarem-se com Trump, e os Democratas a terem como favoritos líderes como Bernie Sanders ou Elizabeth Warren, que prometem levar o partido num caminho que, na Europa, seria visto como o da social democracia moderna, mas que nos E.U.A. faz mais lembrar marxismo-leninismo.
A verdade é que o Partido, apesar de não estar às portas da morte como muitos na imprensa defendem, tem ainda de levar uns retoques, pois, se os candidatos mais "sanderistas" foram derrotados nas primárias da Virgina e de New Jersey e acabaram por lutar pelo partido (e pelo nomeado mais moderado) acerrimamente na eleição geral, nada nos garante que esse será o caso em todas as eleições de 2018, ou em 2020. Bernie e Warren demoraram imenso tempo a apoiar Hillary e, quando o fizeram, principalmente no caso de Sanders, faltou um pouco mais de entusiasmo.
As alegações feitas pela ex-Secretária Geral do Partido Donna Brazile de que a estrutura Democrata participou de forma menos correta em manobras financeiras com a campanha de Hillary antes desta ser nomeada vieram deitar sal nas feridas, tal como a declaração de Elizabeth Warren, dizendo que acreditava que as primárias tinham sido orquestradas pelo Partido para prejudicar Sanders.
Se os Democratas querem ganhar em 2020, vão ter de copiar o modelo da Virgina, apresentando nas primárias os 2 melhores candidatos, um de centro e outro de esquerda, deixando o eleitorado decidir qual o melhor. Depois o nomeado (preferencialmente seria um moderado como Cuomo) deve escolher para Vice-Presidente o candidato da outra fação (como disse milhares de vezes que Hillary devia ter feito com Sanders) e o Partido deve deixar as primárias para trás, unindo-se à volta dos seus candidatos e correndo Trump da Casa Branca.
Claro que a Virginia foi um caso perfeito, mas o ódio a Trump também pode forçar essa união a nível nacional. O mais complicado será mesmo que não se candidatem 2 mas sim 20 Democratas em 2020.
João Jonet

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