The End is Near


Apesar de a Presidência de Trump ainda nem ter um ano, a cortina final parece, como cantava Sinatra, aproximar-se. As eleições de ontem na Virginia e New Jersey, a juntar a outras eleições menores um pouco por todo o país, mostraram que a coligação que levou Trump à Casa Branca se está a desmoronar e que a impopularidade do Presidente será provavelmente fatal para os Republicanos a concorrer nas eleições intercalares, de 2018, tanto para o Congresso como para os órgãos estaduais.

A capacidade que os Democratas mostraram em eletrizar o seu eleitorado num ano sem Presidenciais (o que não é nada normal) deixa excelentes indicadores, tal como o facto de terem conseguido consolidar e melhorar as prestações de Clinton em zonas suburbanas, outrora bastiões Republicanos, cujo eleitorado ainda foi fundamental para a eleição de Trump.

Começando pelas eleições menos importantes, no extremamente Republicano Utah para substituir o congressista James Chaffetz (que vai para a FOX News), foi eleito John Curtis,  Republicano moderado que é muito crítico de Donald Trump.
Em Manchester no New Hampshire (primeiro Estado a receber primárias presidenciais) houve uma eleição para Presidente da Câmara e a Democrata Joyce Craig, depois de receber o apoio de muitos possíveis candidatos Presidenciais, derrotou o incumbente Republicano. Isto apesar da cidade — que é a mais populosa do Estado — e os seus arredores terem votado em Trump em 2016.
A 5ª cidade mais populosa da Florida, S. Petersburgo, vital para a vitória de Trump naquele Estado, re-elegeu um Democrata, mostrando que 2016 pode ter sido um acidente de percurso.
Na corrida local mais mediática da noite para os "media" portugueses (vá-se lá saber porquê) Bill De Blasio foi re-eleito "Mayor" de Nova Iorque com mais de dois terços dos votos, apesar de ter tido uma performance pior do que há quatro anos, notando-se o efeito do desgaste das elites democratas, para quem De Blasio é demasiado progressista.
No Estado de Washington os Democratas ganharam uma eleição especial para o Senado Estadual, conquistando assim a Câmara Alta, para juntar a todos os Congressos Estaduais que já têm na Costa do Pacífico.
Finalmente, no Maine um referendo foi passado para impedir que o Governador Republicano Paul LePage volte a vetar uma expansão do programa "Medicaid" prevista no "Obamacare". Assim, o Maine tornar-se-á no 33º Estado a gozar do aumento de cobertura que o programa de Obama oferece, depois de cinco vetos de LePage.

Passemos ao que interessa, às eleições para Governador! Estas duas eleições, as únicas de relevo no ano a seguir às Presidenciais, são vistas como bons indicadores da situação política que a nova Administração vive, principalmente na Virginia, que é um "swing state". Normalmente o primeiro ano presidencial é muito complicado, e por isso nos últimos 50 anos, apenas depois da eleição de Nixon em 1969 é que o partido do novo Presidente ganhou a Mansão de Governador. Nos últimos 30 anos também New Jersey tem elegido um Governador do partido que está fora da Casa Branca.

Logo, as vitórias de Phil Murphy em New Jersey (que Hillary ganhou por 14%) e de Ralph Northam na Virginia (que Hillary ganhou por 5%) podem parecer naturais. No entanto, a sua natureza esmagadora num ano em que os eleitores Republicanos tendem a aparecer mais (Murphy ganhou com margem de 13% e Northam com 8,5%) a juntar ao colapso do GOP nos subúrbios e à incapacidade dos seus candidatos para lidarem com a presença de Trump deixam sinais muito encorajadores (Ou preocupantes se o leitor for "trumpista").

Estas eleições foram interessantes porque opuseram dois Democratas moderados (Murphy foi Embaixador na Alemanha e trabalhou na Goldman Sachs, Northam é oriundo de uma comunidade rural e era Vice-Governador de um grande aliado dos Clintons) a dois Republicanos do "establishment" conservador (Ed Gillespie foi Presidente do GOP e Conselheiro de Bush na Virginia e Kim Guadagno Vice-Governadora de Chris Christie em New Jersey). Todos foram desafiados em primárias pela ala mais radical do seu partido, mas enquanto os candidatos Republicanos tiveram de se radicalizar para conquistar o resto do seu dividido eleitorado, os Democratas uniram-se em volta dos seus nomeados, evitando que estes tomassem posições eleitoralmente prejudiciais. O resultado foi a destruição da base suburbana do GOP, condenando o partido à base que caracteriza o "Trumpismo".

Se há um ano o eleitorado suburbano se manteve no GOP, votando em Trump de "nariz tapado" na esperança de ver concretizadas reformas fiscais, regulatórias e de programas sociais, agora, confrontados com a ineficácia do seu Presidente, decidiram votar Democrata ou ficar em casa. Também a classe trabalhadora branca parece desencantada com o Presidente, voltando timidamente para os Democratas, juntamente com as motivadas minorias  que se tinham abstido em 2016.

Se o eleitorado continuar neste senda, e mais importante, se os Democratas nomearem um moderado em 2020 que consiga juntar no partido a ala progressista de Bernie com o centro suburbano que começa a abandonar os Republicanos (como fizeram Northam e Murphy), as hipóteses de fazer de Trump um Presidente de um só mandato aumentam exponencialmente.

Continuando também esta motivação por parte de uma coligação de mulheres, minorias, e brancos mais abastados, 2018 verá os Democratas a varrerem eleições a torto e a direito, bloqueando a agenda de Trump e acabando efetivamente com a sua Presidência. Não parece fácil, mas se pensarmos que antes de ontem os Democratas tinha um terço dos assentos na Câmara baixa do Congresso da Virginia e hoje estão a caminho de ser a maioria, o céu é o limite.

João Jonet







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