Confusão permanente


Hoje, a Catalunha terá eleições regionais, convocadas por Mariano Rajoy depois da pseudo-declaração de independência de Carles Puigdemont. Temos como ponto assente que estas eleições só aumentaram o caos na região, tal como a tomada de poder direto por parte de Rajoy e o referendo e consequente declaração de independência. O que também parece claro é que os seus resultados não trarão qualquer tipo de conclusão a este processo, servindo apenas para prolongar a agonia de uma região cujos problemas se resolveriam com um simples, justo e bem organizado referendo.

O medo que o Primeiro-Ministro tem deste possível plebiscito é compreensível. Afinal, é graças à sua linha intransigente na questão do federalismo/eventual independência de partes de Espanha que o PP se tem aguentado como força política de poder, apesar dos escândalos de corrupção constantes e da sua herança ideológica duvidosa (o partido é um produto da união de forças de centro-direita associadas a Suárez , movimentos liberais conservadores e, principalmente, de neo-franquistas como Manuel Fraga). O radicalismo unionista é ao mesmo tempo a causa do sucesso do PP e também uma consequência da propaganda que o partido faz, principalmente no interior do país. A reforma ao estatuto da Catalunha de 2006 (que teria evitado esta questão) foi derrubada com base nesta raiva anti-catalã que se foi criando no seio do conservadorismo espanhol.

Se porventura o PP fosse menos radical, não haveria sequer necessidade de se fazer um referendo, bastava alguma sensibilidade para perceber que não se ganha nada com esta instabilidade e que as principais exigências catalãs (equipararem-se ao nível autonómico com País Basco e Navarra) são perfeitamente razoáveis. Aliás, um partido de direita até devia perceber melhor que outros esta vontade catalã de gozar de maior autonomia fiscal.

O grande problema é que Adolfo Suárez está morto, e com ele se foi a sanidade da direita espanhola, que se limita agora a explorar medos e inseguranças em vez de construir ideias agregadoras para o futuro. O PP não tem soluções para a automatização de economia, para o futuro da União Europeia ou para a reforma do Estado Social; tem, sim, posições intransigentes e geradoras de divisões no plano da integridade territorial espanhola, e a isso junta escândalos de corrupção e trocas de favores que o levam a evitar reformas estruturais necessárias à justiça e política espanholas.

Por Espanha ter este mau partido de poder, um PSOE irresponsável e um Podemos inqualificável, as reformas do sistema político têm de ficar na gaveta. A questão catalã torna-se impossível de gerir e, assim, hoje teremos eleições, sem que se perceba bem em que é que isto vai dar.

Passo assim às minhas previsões para essas mesmas eleições:

1º- Ciudadanos (34 a 43 deputados)- o único partido que acrescenta coisas positivas ao debate político espanhol, adotou também uma posição intransigente ao nível do unionismo, mas, em vez de resmungar contra referendos como faz o PP, optou por criar uma campanha moderna e abrangente que visa mudar a perceção que as pessoas têm do que significa ser nacionalista. Assim, o nacionalismo do séc. XXI deve ser inclusivo, procurando conciliar identidades, abraçando heranças culturais sem criar divisões políticas. Para vender esta imagem de esperança e união aparece o líder nacional Albert Rivera, que é catalão e fundou o partido em Barcelona, e a líder regional Inés Arrimadas que, com apenas 36 anos e muito talento oratório, procura ser a primeira mulher a liderar um governo catalão, que seria forçosamente de índole unionista.

2º- Esquerda Unida (28 a 35 deputados)- Com o seu líder Oriol Junqueras, preso por ter participado ativamente na realização do referendo e consequente declaração de independência, este partido independentista histórico que dominou a política local antes da Guerra Civil, tem tido uma campanha atípica. Assumindo-se como a voz da razão do lado separatista, a Esquerda diz-se preparada para abdicar da questão da indepêndencia, procurando antes resolver os problemas que afetam o catalão comum. Esta postura sóbria e pragmática deve valer um bom resultado e talvez até a hipótese de formar governo, caso o lado unionista não consiga, como é até provável, formar um governo.

3º- PSOE (20 a 27 deputados)- Aquele que era o partido nacional com mais expressão na Catalunha antes da questão da independência tomar conta do debate político parece estar pronto para fazer parte de uma coligação de poder, servindo como poder equilibrador, seja de uma coligação de cariz separatista liderada pela Esquerda ou uma unionista liderada por Arrimadas. O seu líder, Miguel Iceta, tem feito uma campanha marcada pelo unionismo moderado e pelo pragmatismo, oferecendo uma alternativa de centro-esquerda sensível que o partido nacional não é capaz de reproduzir, o resultado até pode ser a escolha de Iceta como Presidente de consenso.

4º- Junts per Catalunya (20 a 27 deputados)- A força liderada por Puigdemnot até é apontada como candidata à vitória pelas sondagens, mas estou a apostar que a falta de inteligência que o ex-Presidente revelou na gestão da questão da independência, a juntar ao facto de não se poder fazer de mártir como Junqueras, de os independentistas mais radicais terem ficado desapontados com a sua espécie de declaração e da sua evidente falta de qualidade acabem por prejudicá-lo bastante. De ressalvar também que é essencial para a causa independentista que esta lista consiga um excelente resultado, tal como a Esquerda Unida, pois só uma coligação maioritária entre estes pode legitimar nova busca pela auto-determinação.

5º- Catalunya en Comú (8 a 12 deputados)- Uma coligação entre diversas forças de esquerda locais (a mais proeminente liderada pela unionistaAda Colau, Alcaedesa de Barcelona) sob a égide do Podemos resulta num partido que é pró-referendo, mas que tem uma posição ambígua quanto à questão da independência (pelo menos ao nível local) e que tanto poderá servir para dar maioria a separatistas, unionistas  ou uma mescla dos dois. O resultado ficará bem aquém do que o Podemos consegue em eleições nacionais.

6º- CUP (5 a 9 deputados)- Radicais independentistas de extrema-esquerda que poderão servir de novo para dar maioria a uma coligação entre Junqueras e Puigdmont. Os resultados caóticos de um pacto desses estão à vista.

7º- PP (4 a 8 deputados)- Se a posição do PP nesta crise não bastava já para dificultar a sua vida nestas eleições, a escolha de um candidato de direita populista do mais trumpiano que já se viu na Península Ibérica não vem ajudar, especialmente numa das regiões mais progressistas de Espanha. O facto do voto unionista se concentrar no C's só vem ajudar a condenar os conservadores a um resultado embaraçoso.

Assim, a Catalunha acordará dia 22 com a provável necessidade de que 3 partidos se entendam para formar Governo, a combinação resultante ditará como se vai resolver a questão da independência, sendo que a minha aposta está num Governo de esquerda que inclua separatistas e unionistas e que enterre a questão, embora continue a exigir mais autonomia e, talvez, até um referendo.

João Jonet

Comentários

Enviar um comentário