Bright side of the Moon

Um ambicioso acordo foi hoje assinado entre as Coreias. O fim da guerra, a desnuclearaização, e uma eventual unificação foram alguns dos aspetos negociados entre Kim Jong-Un e Moon Jae-In, que culminam num dos momentos mais relevantes da História da Península. Como é que isto foi possível? Que papel tiveram líderes internacionais como Trump e Xi no processo? E, principalmente, será que isto não é só fogo de vista?
Poucos me poderão acusar de desvalorizar a importância do papel dos Estados Unidos no Mundo, mas o ruído que vem dos cantos mais trumpófilos da sociedade ocidental está claramente a dar um papel exagerado à intervenção do Presidente americano nesta solução. É verdade que a pressão feita pela Administração Trump junto da comunidade internacional veio isolar ainda mais o regime do Norte, e que a personalidade irrascível e falta de tato de Trump tenham levado Moon a arregaçar as mangas e procurar trabalhar sem os E.U.A. para encontrar uma solução. Agora, é importante não confundir tweets com ações, ameaças com propostas e gritaria com resultados. Este processo resulta de três factos essenciais: o facto da Coreia do Norte se ter tornado uma potência nuclear, o facto de Moon (filho de refugiados norte-coreanos e devoto unionista) ter sido eleito Presidente da Coreia do Sul em 2017, e, finalmente, da China ter apelado ao regime de Kim para que se comportasse com mais decoro.
A participação (por mais soft que tenha sido) da China nas sanções internacionais ao regime de Pyongyang parece mesmo ser o único fator de pressão internacional que fragilizou Kim na mesa das negociações, que se viu pela primeira vez na história sem o apoio incondicional do seu maior aliado. Como poder responsável, que procura cada vez mais ser respeitada em todo o Mundo, a China não podia abster-se de condenar uma Coreia do Norte nuclear, principalmente quando a Coreia do Sul lhe começava a abrir os braços com o mais amistoso Moon. Isto não quer dizer que a China tenha sido responsável por esta cimeira, cuja realização dependeu apenas da habilidade política dos líderes coreanos, mas contribuiu certamente para o seu aparente sucesso, dada a posição mais humilde do Norte.
Dizer que Trump e as suas ameaças de um Japão e de uma Coreia do Sul nucleares, ou de uma nova guerra total na península, contribuíram para mais do que para propaganda anti-americana no Norte é o mesmo que dizer que as suas ameaças de matar combatentes do Daesh com balas molhadas em sangue de porco fazem alguma coisa para reduzir extremismo islâmico. Apenas o medo da loucura do Presidente dos E.U.A., da sua cada vez mais inegável falta de preparação mental para liderar uma mercearia, quanto mais o Mundo Livre, pode ser visto como um fator neste processo, se bem que considerá-lo decisivo me parece um favor ao ego do senhor.
A imprensa internacional e a maioria dos entendidos na matéria têm dado a Kim a maioria dos créditos por esta "détente" e o seu racional é compreensível. O programa nuclear sempre foi o garante da sobrevivência dos Kim's no sentido mais literal do termo. Com a aparente impossibilidade de perpetuar o seu estado prisão para a era digital, a dinastia comunista viu a hipótese de se tornar uma potência nuclear como a única maneira de galvanizar a sua população (e principalmente as exigentes forças armadas) ao mesmo tempo que melhorava a sua posição negocial na inevitável discussão da re-unificação. Digo inevitável não só pela fragilidade do regime do Norte em comparação com o Sul, como porque a falta de uma fronteira geográfica coerente e a homogeneidade etno-cultural da Coreia fazem com que que, tal como na Alemanha, esta divisão não passe de uma relíquia da Guerra Fria à espera de cair de podre.
Kim está a ser elogiado por ter conseguido jogar bem com a abertura de Moon, a falta de inteligência da Casa Branca (que o legitimou com a desnecessária oferta de uma cimeira), e a insegurança da China quanto ao futuro da região. Tudo certo, Kim jogou bem com a mão que herdou e mostrou-se muito mais do que um "Little Rocket Man" em todo o processo. Apesar disso, tenho alguma dificuldade em celebrar um genocida que tem um domínio ferro sobre uma prisão com 20 milhões de detidos, como um grande pacifista. Habilidoso político tudo bem, mas há uma pessoa neste processo que tinha um caminho muito mais difícil até chegar a este ponto, e que o fez com uma mestria assinalável. Essa pessoa é o Presidente Moon.
A Coreia do Sul é uma democracia dividida entre uma direita conservadora que apenas aceita vitórias totais sobre o comunismo totalitário do Norte e uma "esquerda" liberal com algum medo de ir contra este mantra, sob a pena de ser vista como pouco patriótica. Moon, também ajudado pelas suas origens, rompeu com este paradigma durante as suas duas campanhas presidenciais em 2012 e 2017. Na primeira falhou muito por causa disso, sendo derrotado pela filha de um ditador dos anos 60 e 70, cujas credenciais anti-Norte nunca estiveram em questão. Na segunda, triunfou principalmente porque a Presidente Park falhou a toda a linha, tanto política como moralmente, sofrendo inclusive um impeachment. Os coreanos abraçaram o seu liberalismo progressista, sempre positivo e conciliador, e deixaram-no tentar um arriscadíssimo malabarismo entre o Norte, os E.U.A., a China e o Japão. A missão era começar a negociar uma re-unificação, mesmo que isso significasse pedir aos Estados Unidos para reduzirem ou terminarem a sua presença militar, ao mesmo tempo que aumentava os laços da sua pujante economia com a chinesa, criando um clima de amizade propício para o complexo processo negocial. Fazer isto sem aborrecer os seus tradicionais aliados japoneses e sem perder o apoio de um Presidente americano absolutamente imprevisível parecia uma missão impossível. A verdade é que menos de um ano depois da sua eleição, Moon ja conseguiu em grande medida alcançar os seus objetivos. É amigo de Xi sem chatear Shinzo Abe, tem uma relação funcional com Kim e com Trump ao mesmo tempo, e nem teve de pedir nada para o Norte parar de fazer testes nucleares, nem teve de ceder na presença americana na região.
Moon é a prova de que líderes ambiciosos e bem intencionados são o que o Mundo precisa para resolver os seus problemas mais complexos. Não é certamente com retóricas de divisão e ódio, ou com desejos de vitórias totais que se vai a algum lado (Netanyahu que o diga).
Não sendo de todo certo que isto seja mais do que uma promessa vazia de paz e prosperidade, o passo é positivo e foi feito da maneira certa, localmente mas com base nas intenções das organizações internacionais, cordialmente sem nenhuma vontade de superiorização ao parceiro de negociação, e calmamente sem passos maiores que as pernas. Sim, já vimos este filme com os outros Kim's, de boas intenções está o Inferno cheio e outras coisas que o comentador de televisão gosta de dizer para parecer interessante. A verdade é que a re-unificação da Coreia já vai com 70 anos de atraso e cada vez que se dá um passo nesse sentido, dá-se um passo para a tranquilização da região numa altura em que o Mundo podia viver com menos problemas.
Comentários
Enviar um comentário