O fim do compromisso

A política mundial tem um cancro. Não é o populismo, não é o politicamente correto, nem os interesses do grande capital ou os sindicatos. Esta doença está presente nos dois lados do espectro político, corroendo as instituições democráticas, destruindo a confiança do eleitorado, e dando azo a pensamentos radicais e movimentos violentos. Falo, claro, da incapacidade que os políticos por todo o mundo demonstram para moderar a sua posição e procurar compromissos que garantam uma governação eficaz e trabalhos parlamentares construtivos. Onde está essa cooperação tácita entre lados antagónicos? Quem é, afinal, o grupo ou indivíduo responsável pela transformação das casas da democracia em que primavam a retórica e a vontade de servir o público em zonas de conflito em que dominam as táticas de guerrilha e a vontade de servir os próprios interesses?
Os media são provavelmente os maiores culpados, ao fomentarem pensamentos radicais com sensacionalismos, desinformação e reportagens para chocar. O ciclo noticioso de 24h trouxe um escrutínio importante, mas perigoso. Ao aumentar a sensibilidade das pessoas para assuntos dos quais estavam alheadas, verfica-se um aumento da consciência coletiva e maior facilidade em justificar determinados rumos políticos, como por exemplo no caso recente do ataque químico na Síria e consequente retaliação dos EUA. O lado mau disto é que se trivializa a importância dos assuntos, sendo neste momento tão ou mais fraturante na opinião pública portuguesa o abatimento de um rottweiler ou a morte de um adepto de futebol do que as questões da vacinação ou a solução para a dívida pública. Ao simplificar a notícia, e mesmo distorcer a importância de cada assunto para conseguir audiências, a comunicação social faz com que o cidadão tenha uma opinião muito forte (e desinformada) sobre todos os assuntos. Na mesma medida, a clara inclinação ideológicas dos diferentes meios de comunicação faz com que as pessoas (com falta de tempo para procurar várias fontes) sejam incapazes de ver os pontos de vista contrários, alterando a percepção do que é verdade, e radicalizando ainda mais o grande público. Com a internet, dizem que se verifica cada vez mais este fenómeno de as pessoas viverem em "bolhas" em que só vêem, lêem e ouvem o que querem, apesar de eu não ver a diferença entre isso e viver numa aldeia do interior e só ter acesso a um jornal de direita nos anos 60, mas estou a divagar. Os media são vitais para a democracia, mas a sua incapacidade para fazer dinheiro sem a fragelizarem hoje em dia é muito perigosa. Aconselha-se o consumidor a pensar também nisto.
Depois temos o eterno problema do mau perder. Um série de grandes mudanças nos últimos três séculos, mas especialmente nos últimos 30 anos, levou a que um heterogéneo grupo de protecionistas, racistas, religiosos, homofóbicos, comunistas, pacifistas, isolacionistas, trabalhadores do setor primário e secundário saísse constantemente prejudicado, vendo a ordem mundial ser traçada num modelo liberal, globalista, laico e socialmente tolerante, que, se não fosse aceite, seria imposto pela força militar do país que inspirou todas estas mudanças, os Estados Unidos da América. Esta coligação de perdedores vai ficando mais enraivecida com o tempo, mobilizando-se como só uma multidão furiosa consegue e aproveitando a sua desproporcional força política para eleger representantes que defendam com unhas e dentes os seus interesses. Estes representantes radicalizados pelo seu eleitorado usam a guerrilha política para fazerem valer o seu pensamento ultrapassado e minoritário.
Há também que culpar os eleitores que delegam aos seus representantes a responsabilidade acrescida de os informar politicamente, não procurando por meios próprios conhecer os factos e ficando sujeitos ao "spin" de pessoas com que já concordam. Isto leva a que narrativas com pouca fundamentação se instalem e definam o debate político, desde temas como o comércio livre à imigração. A falta de confiança que é depositada em especialistas vem da estranhíssima conceção de que se um cientista ou um académico também se enganam, a sua análise passa a ter a credibilidade da de um astrólogo ou de uma leitora de tarô. Tudo isto contribui para um clima de rejeição das "elites" à força toda, apesar de nelas se incluirem personagens tão díspares como financeiros e atletas de alta competição. O eleitor tem a obrigação cívica de estar bem informado na hora de votar, de procurar fontes de informação fidedignas e de dar oportunidades a diferentes ideologias, mesmo que não concorde com elas à partida. Os sistemas democráticos são fantásticos, mas exigem trabalho e abertura de espírito para funcionar de forma eficaz. Outra coisa que também exigem é paciência e capacidade de digerir compromissos políticos, duas coisas que têm faltado ao eleitorado Ocidental, que castiga qualquer representante que não tenha uma abordagem dogmática a todos os assuntos e por vezes condena partidos inteiros por terem chegado a compromissos que eram necessários (como foi o caso dos Liberais Democratas no Reino Unido). Com canais de notícias em que uma decisão é esmiuçada por 875 pessoas diferentes (e nem sempre muito qualificadas) num dia, pedir paciência não é fácil, mas é essencial para que o debate político seja construtivo.
Claro que a política está cheia de compromissos nefastos que merecem forte oposição, desde a Constituição dos E.U.A., que definiu que um afro-americano valia 3/5 de uma pessoa, ao acordo de retenção de refugiados entre a U.E. e a Turquia. No entanto, é evidente que não nos fazia mal nenhum levar a política, e, de forma mais geral, a vida de maneira a beneficiar e respeitar a vontade do máximo de pessoas possível, discutindo as questões com mais humildade, mais informação e mais calma. Sem dúvida que com um aumento na civilidade se observaria igual aumento na governabilidade e na confiança do eleitorado nas instituições.
João Jonet
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