Não há pão para malucos


Donald Trump prepara-se para retirar os Estados Unidos do Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos, apenas 10 dias depois de, no Canadá, ter mandado passear os seus principais aliados, recusando-se a fazer concessões no que toca à sua absolutamente idiota guerra comercial. Os pedidos de reintegração da Rússia no G-7, que parecem ignorar que a nação tinha sido expulsa pela sua nefasta agressão à Ucrânia e pelos insultos que dirigiu a Justin Trudeau ("fraco e desonesto"), foram apenas a cereja no topo do bolo de estrume que serviu aos seus parceiros, em mais uma prova de brutal desrespeito pelos valores do Ocidente e, principalmente, do seu país, que arquitetou esta Ordem Mundial. No meio disto tudo, ainda abandonou os exercícios militares com a Coreia do Sul; tudo para agradar o seu novo melhor amigo stalinista, não fossem os ditadores árabes e autocratas europeus deixá-lo a sentir-se sozinho. Por estas concessões feitas a um Estado prisão, Trump conseguiu um compromisso menos sólido do que qualquer Presidente antes dele, voltando para casa com uma mísera intenção de desnuclearização, que certamente estará contingente na retirada americana daquela região, para gáudio de outro ditador em Beijing.

É perante este cenário negro, de abandono dos valores pelos quais os Estados Unidos se batem desde o fim da I Guerra Mundial ao nível de política externa, do multilaterialismo, do comércio livre e da promoção da paz, a juntar a uma resignação completa na defesa dos direitos humanos e na promoção da democracia, que sinto que é altura de dizer chega!

A Europa está há um ano e meio a respirar fundo e a deixar rolar. A aguentar birras sobre tarifas, quando os Estados Unidos são tão protecionistas quanto nós; a ignorar o apoio que Trump dá a inimigos do projeto europeu e dos seus valores, de Putin a Erdogan, da Hungria ao Brexit; a assobiar para o lado quando o Presidente Americano rebenta com as suas principais conquistas de política externa (Acordos de Paris e do Irão), ou pura e simplesmente a deixar-se insultar por este ignorante que, sem saber como, acabou na Casa Branca (só nos últimos 15 dias disse que a Alemanha era um antro de crime quando a criminalidade está em mínimos históricos e perguntou a Macron se tinha alguma coisa a acrescentar numa reunião sobre terrorismo visto que "Paris está infestada deles"). Com amigos destes quem é que precisa de inimigos?

É óbvio que a Europa depende muito dos EUA, principalmente para a sua segurança, mas a verdade é que nem a Rússia, nem qualquer outra rival, têm ainda capacidade para ameaçar fundamentalmente uma Europa unida. A união é fundamental, pois dado o estado de coisas em Itália e na Alemanha, não me parece que um salto ambicioso para fora do colo americano tenha potencial para acontecer.

Mesmo que não seja possível concretizá-lo na prática, está na altura da União Europeia, a maior economia do planeta, dizer a Trump que não está para os seus disparates, que se os Estados Unidos se forem portar como a Polónia não são um aliado estratégico interessante e que a parceria transatlântica se tem de basear em valores partilhados; senão, podem ficar com os seus porta-aviões e dar voltas no Golfo do México.

Esta posição de força é não só necessária para manter a dignidade do Velho Continente, como pode também ajudar a descredibilizar ainda mais um Presidente que caminha a passos largos para violentas derrotas eleitorais. Seria um passo simbólico que poderia influenciar profundamente a política interna americana e ter muito poucos resultados práticos, dada a tendência de Trump para se acobardar quando lhe fazem frente, não fosse ele um clássico bully. Mesmo que Trump fizesse questão de continuar a fazer a guerra com os seus aliados, estamos a apenas 6 meses de um Congresso Democrata, que poderia reverter praticamente todas as suas decisões. Quanto mais bombástico for o contra-ataque europeu, mais desprestigiante e politicamente tóxica será a repercussão para um Partido Republicano que está a ter dificuldades em agarrar os 30/40% do seu eleitorado mais moderado, que se recusa a embarcar no "Trump Train".

Tal como proponho que não se deve negociar com Cuba, com a Coreia do Norte ou com o Irão sem que antes estes nos mostrem o devido respeito, também estes EUA de Trump, inimigos da Ordem Internacional que trouxe níveis inigualáveis de paz e prosperidade à Europa e que foi a base do projeto europeu, devem ser tratados como adversários até prova em contrário. Talvez retribuindo bofetadas consigamos acordar o eleitorado americano para a estupidez do seu renovado nacionalismo. Os Estados Unidos fazem-nos falta, mas é preciso mostrar que, apesar de tudo, nós europeus também lhes fazemos imensa.

João Jonet

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