Orgulho e irresponsabilidade


Tivemos corrupção, sede de poder, facadas nas costas e vira-casacas, numa cena de drama inédita na história da Democracia espanhola. Para perceber esta crise governativa, há que analisar, não só o momento da queda aparatosa de Rajoy, mas também o caminho que fizeram todos os outros partidos até aqui. De um canto ao outro do espectro, encontramos várias pessoas que tiveram um comportamento absolutamente condenável, o que,  num país que precisa de encontrar soluções de fundo para as suas divisões,  não é nada recomendável.

O meu primeiro alvo é o PP, um aparelho de corrupção que anda a ser confundido com um partido político desde 1989. Nascido das cinzas do franquismo, pelas mãos dos mesmos intervenientes, falamos de um partido que, durante anos, procurou dividir a sociedade espanhola com uma retórica unionista primária e irracional, a que juntou um conservadorismo social enjoativo, enchendo os ouvidos do eleitorado de moralismo e nacionalismo, ao mesmo tempo que a sua classe dirigente enchia os bolsos. Nem tudo foi mau. Muitos dos liberais que vieram do partido de Adolfo Suárez foram fundamentais para que os governos do PP apresentassem bons resultados económicos, especialmente uma impressionante recuperação da Grande Recessão. A verdade é que, no geral, é um partido que herdou a retórica provocadora do seu mentor (Manuel Fraga) e, durante anos, contribuiu para tornar a política espanhola numa batalha campal, abandonando-se o civismo dos primórdios da democracia pelo eleitoralismo descarado. Para piorar a situação, aquele que poderá ser o seu último Primeiro Ministro mostrou que o PP não é só para dividir, a sua missão é essencialmente preservar-se, nem que isso cause a secessão da Catalunha, ou um governo do PSOE com a menor legitimidade democrática da História. O PP nunca reconhece um erro e nunca dá um passo atrás, nem que esteja à beira de um precipício. Dar a parte fraca é para esquerdistas e elites urbanas secularizadas. Os verdadeiros machos espanhóis roubam e não se responsabilizam, dividem e não arcam com as consequências, não fossem eles os herdeiros de Franco, o mais teimoso dos líderes.

Não é só de incompetência do PP que se faz esta crise. Os nacionalistas bascos e catalães (que parecem pouco importados com o caos que provocam em Madrid, desde que consigam desviar fundos para o seu eleitorado) têm muitas culpas no cartório, permitindo que o PSOE forme um governo depois da moção de censura, mais que justa a Rajoy, em vez de exigirem novas eleições.

Finalmente, o mais condenável de todos é Pedro Sánchez que está há 4 anos a apunhalar meia Espanha para chegar ao cargo que agora ocupa, numa espécie de "House of Cards" para toscos, em que se esperneia e se berra para se ficar agarrado ao poder e, ao fim de tanta espera, ele nos acaba por cair no colo. O facto de ter conseguido manter-se na liderança do PSOE depois dos dois piores resultados eleitorais de sempre já era espantoso o suficiente, tendo inclusive sido removido e recuperado o cargo à revelia de todo o establishment socialista. Agora juntar a esse resistência interna esta golpada constitucional, tornando-se Primeiro Ministro, quando o seu partido definha nas sondagens, e, podendo aproveitar o cargo, para partir numa cruzada de políticas eleitoralistas para se perpetuar no poder, tem tanto de genial como de trágico.

Quem fica de mãos a abanar neste golpe de Estado é o Ciudadanos, que apesar de ser o mais vibrante, responsável e construtivo partido da política espanhola, vê um partido que segue 10 pontos atrás de si nas sondagens a fugir com o poder, prometendo adiar eleições o suficiente para que esta vantagem esmoreça. Os liberais (que tenho constantemente elogiado), geriram bem a situação catalã, têm uma mensagem limpa e clara, pró-europeia, reformista e moderna que visa defender o modelo de base atual, mas reformá-lo de maneira a que deixe de funcionar mais para uns do que para outros, e com isto conseguiram atrair quem está farto da direita enferrujada do PP, da esquerda ultrapassada do PSOE e da irresponsabilidade crónica do Podemos.

Nem tudo é deprimente, e se Espanha sai a perder sem o C's, não deixa de ser verdade que este Governo trará também mudanças necessárias . O PSOE poderá usar esta janela de oportunidade para finalmente resolver a situação catalã, oferecendo à região a merecida autonomia fiscal de que já gozam os bascos. Sem a necessidade de agradar ao radical unionismo da ruralidade, a tarefa parece muito mais fácil. A manutenção do orçamento de estado do PP em 2018 também nos garante que apesar dos favores políticos feitos ao País Basco, a Espanha terá mais um ano de responsabilidade financeira.

Só que as boas notícias acabam por ser curtas tendo em conta que vamos ter um governo super-minoritário, absolutamente dependente do irresponsável Podemos que deixará a Espanha num limbo político arriscadíssimo, até que o Sr. Sánchez decida que já lhe é vantajoso permitir que o eleitorado decida o seu futuro, depois da queda de um governo minado por corrupção


João Maria Jonet

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