República das bananas


Passaram 3 meses desde que o povo italiano foi às urnas produzir os resultados mais estranhos e perigosos que se podiam imaginar. Nesses três meses mantive-me pensativo, resignado, olhando para as constantes voltas do processo de formação de governo com um misto de descrença e vergonha alheia, enquanto via algumas das personagens menos recomendáveis da Europa Ocidental a brincar à roleta russa da política com a 3ª maior economia da Zona Euro. Não foram poucas as vezes em que pensei começar a escrever um artigo sobre Itália, só para parar a meio, completamente perdido e com a certeza do que nada do que me tinham dito naquele dia seria verdade no dia seguinte. Tive de esperar três meses, mas, finalmente, depois de me certificar mais do que uma vez de que Giuseppe Conte tinha mesmo sido empossado como Primeiro Ministro, posso dizer que consigo analisar Itália, e as repercussões que as eleições de Março terão no seu futuro.

Começando pelo dia das eleições, as surpresas não foram tanto a força dos populistas do Movimento 5 Estrelas (M5S) ou da Lega, mas sim a fraqueza de Renzi e Berlusconi, cujos partidos foram dizimados numa clara rejeição do sistema vigente. A derrota foi tal que Renzi nem coligado com mais 4 partidos conseguiu chegar perto do M5S, demitindo-se de seguida. Esta derrota levou a imprensa ao seu devaneio costumeiro "como é que o establishment dá a volta a isto", mas o facto é que a derrota foi tal que não havia nada a fazer: Salvini tinha-se superiorizado a Berlusconi e era livre de fazer o que queria, deixando de estar agrilhoado à coligação de "centro"-direita. Por seu lado, o M5S, vazio de ideologias, ou mesmo de pensamento, queria só chegar ao governo e assim nasceu o bonito casamento dos populistas. Claro que se eu tivesse escrito artigos constantes teria de ter explicado a complicada relação na coligação de direita, ou o esforço do M5S para cativar o Partido Democrático que Renzi deixara em cacos, mas com três meses de perspetiva, fica bem mais fácil separar o trigo do joio.

Ainda tivemos a montanha-russa de emoções entre o momento em que M5S e Lega começaram a negociar e a tomada de posse do desconhecido Conte no dia 1 de Junho. Esse período ficou marcado por fugas de informação constantes e pânico nos mercados, enquanto se tornava claro o plano de governação euro-cético, anti-democrático e orçamentalmente suicida que o primeiro governo populista da Europa Ocidental ia apresentar. A loucura era tal que a proposta final de composição de governo elevava Paolo Savona (maior defensor académico da saída italiana do euro) a Ministro da Economia, ideia vetada pelo Presidente italiano, que ameaçou imediatamente um governo tecnocrático. Este drama que se desenrolou no espaço de poucos dias acabou com o compromisso de que Savona seria apenas Ministro dos Assuntos Europeus, ficando o também duvidoso Giovanni Tria com a pasta da Economia.

No fim do dia, a cronologia está longe de ser o essencial, sendo sim fundamental perceber a mossa que isto vai fazer. Estamos a falar de um governo dominado por uma incógnita (provavelmente o ser humano mais próximo de um fantoche que os dois partidos encontraram), em que dois partidos que prometeram o céu e a terra ao seu eleitorado terão pela primeira vez oportunidade de levar a cabo as suas ideias. Sinceramente, prefiro que, tal como Trump ou com o Brexit, os povos aprendam que as suas decisões têm consequências, em vez de vivermos em constante negação do panorama político de descontentamento com alianças que procuram desvirtuar o que foi expresso nas urnas. Se os populistas têm um mandato, eles que governem, e vejamos o que é que dá. A democracia também é experimentação constante, e as ideias servem para ser testadas, por mais terríveis que pareçam às elites.

Agora podemos também dizer com alguma confiança que esta experiência tem tudo para dar errado. À junção das propostas de rendimento básico garantido do M5S e do fim da reforma do sistema de pensões que garantiu que Itália não falia junta-se a vontade da Lega de instituir um "flat tax" de 15% para toda a população, ao mesmo tempo que aumenta exponencialmente os gastos na fronteira, aplicando a sua política xenófoba e odiosa através do seu controlo do Ministério do Interior. Isto tudo enquanto prometem antagonizar a UE, levantando dúvidas sobre o seu compromisso com a Zona Euro e com as iniciativas de defesa coletiva (ambos os partidos acham que Vladimir Putin é um pobre injustiçado). O rebentar das contas públicas e o afastamento progressivo do Ocidente prometem deteriorar em muito a posição de Itália no Mundo, isto se a sua frágil mas gigantesca economia não levar os sistemas financeiros todos atrás num crash que parece cada vez mais provável.

Deixar os populistas governar tem dado os mesmos resultados em tudo quanto é lado: erosão dos valores democráticos, criação de bodes expiatórios em organizações internacionais ou minorias e uma governação geralmente incompetente. Vendo o terrível trabalho que o M5S tem feito a gerir as câmaras de Turim e Roma, a falta de preparação e qualidade dos seus líderes, e o currículo duvidoso de alguns dos seus ministros, não se pode augurar nada de bom. Não se pode é dizer que os italianos não terão o que querem ou o que merecem: foi nisto em que votaram, tal como votaram em Berlusconi, elegendo-o 3 vezes. Por mais que eu goste de pensar que escolhas estúpidas têm efeitos pedagógicos, e que os povos aprendem com os erros, pensar que os italianos passem a votar responsavelmente parece tão ou mais louco do que pensar que este governo vai correr bem.

João Maria Jonet

Comentários