França 2017: Hamon vai a Lisboa (e volta perigosíssimo)


Benoît Hamon reuniu-se ontem com António Costa para discutir a solução governativa que este encontrou para Portugal. O candidato do PS mostrou interesse em replicar a estratégia de Costa nas Presidenciais gaulesas ao aliar-se com a esquerda radical de Mélenchon e com os Verdes de Yannick Jadot. Todos juntos, segundo a última sondagem da Opinionway (a minha preferida, porque não inclui Bayrou, que ainda é uma incógnita) chegariam a 31% das intenções de voto, mais que suficiente para ganhar a primeira-volta.

O problema é que estes acólitos de Bernie Sanders polarizariam a eleição de tal maneira que a tornariam altamente imprevisível, ostracizando o centro ao negarem ao eleitorado uma opção que defenda uma economia de mercado inclusiva na segunda-volta, aumentando muito as hipóteses de vitória de Le Pen. No fim do dia, a única diferença entre estes ressuscitar de uma Frente Popular e a Frente Nacional seria o racismo e a atitude em relação à UE (assume-se que seriam pró-europeus como em Portugal, apesar do euro-ceticismo de Mélenchon), o que reduziria o sufrágio a um referendo à União Europeia, coisa que normalmente não corre bem.

Também não é de excluir que, no caso da formação desta nefasta aliança, a direita decida voltar para Fillon. O candidato dos Republicanos tem vindo a recuperar dos seus escândalos e parece estar de volta à luta, a sua doutrina na linha de Tatcher ofereceria um contraste perfeito em relação à doutrina socialista da possível "esquerda unida".

Lidamos com uma crescente ameaça à economia de mercado globalizante que trouxe um incrível aumento de qualidade de vida a um número extraordinário de pessoas. Um sentimento de nostalgia tem assolado o eleitorado ocidental, enganando na hora de ir às urnas. As alterações demográficas, tecnológicas, sociais e laborais estão a andar demasiado rápido para o envelhecido eleitorado europeu que se sente frustrado e confuso. Perante isto temos duas opções:

1-Voltarmos à doutrina de compromisso dos Clintons, tentando desacelerar o progresso e fazer compromissos para evitar instabilidade social,  ao mesmo tempo que se defende com unhas e dentes uma sociedade progressivamente mais aberta e compreensiva, que abrace com mais tranquilidade as suas diferenças. Revoluções e mudanças abruptas são muito difíceis de gerir e, dada a incompetência latente dos centros de decisão, se calhar é altura de dar um toque no travão porque ainda há demasiadas pessoas com medo da liberdade.

2- Abraçarmos a instabilidade como uma consequência natural de um Mundo liberal em que as pessoas são responsáveis pelas suas ações e livres de fazer muito do que querem. Deixamos as pessoas viver livres e defendemos agressivamente a Ordem Mundial vigente, contra as ameaças dos autoritários à esquerda e à direita. As pessoas não precisam de quem lhes diga o que fazer, o que vestir, onde trabalhar ou onde viver. Claro que a tarefa de governar fica mais difícil e tudo se torna mais imprevisível, mas vale a pena porque ninguém tem legitimidade para controlar todos os aspetos das nossas vidas ou de nos perseguir por termos determinada orientação sexual, cor de pele ou simpatia política.

Estas duas opções válidas são as que o liberalismo tem para sobreviver a este ataque extremista. O resto são radicalismos autoritários.

João Jonet

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