Noticiarei até que a voz me doa
Do título adivinhar-se-ia um fado bizarro... 'Bizarro' é mesmo a palavra adequada ao tempo em que vivemos, especialmente em relação ao que se passa do outro lado do Atlântico. Fado é também uma palavra adequada, dada a melancolia e nostalgia de um tempo passado, mas próximo, em que o Presidente dos EUA era gente sã, com alguma noção de direitos humanos e de liberdade...
Esta semana, repórteres da BBC, do NYTimes, Politico, LATimes e CNN foram impedidos de comparecer ao briefing da Casa Branca, conduzido pelo porta-voz Sean Spicer, numa atitude autoritária vinda da Casa de Estado do país líder do mundo livre nunca antes vista. Acresce o triste facto de apenas a Revista Time e a agência The Associated Press se terem solidarizado com as agências vítimas deste ato semi-ditatorial (será o 'semi' um prefixo eufemizante?...), tendo decidido não comparecer ao briefing da Casa Branca. A Fox News, a ABC, a NBS ou a CBS não se deixaram afetar pela ameaça à liberdade de imprensa... É apropriado citar o próprio Donald Trump: "Sad!".
Trump já se tinha excedido ao escrever na sua página do Twitter que os 'media Fake News' NYTimes, NBC, ABC, CBS e CNN eram o inimigo do povo Americano: algo muito pouco saudável de se dizer em termos democráticos, uma vez que é óbvia a distinção entre criticar a atuação de uma determinada agência noticiosa numa determinada ocasião (todos os Presidentes o fazem), e afirmar que determinada imprensa (neste caso, a imprensa mainstream) é o inimigo da nação. Os valores democráticos de um Presidente dos EUA medem-se, entre outras formas, pela sua atitude face à separação de poderes - atitude que, como vimos no caso dos tribunais, é lamentável - e também face à imprensa - atitude que, de dia para dia, se demonstra mais deplorável.
A um labrego como Trump, convinha saber o que está na base das democracias liberais. Um fator fundamental é deixar que os outros digam e escrevam o que lhes apetece, e embora Trump não tenha estritamente proibido qualquer notícia de ser publicada, (não o faz porque não pode, claro), este presidente-bully vai, pouco a pouco, demonstrando a sua profunda ignorância do que é ser democrático, liberal, e, no fundo, do que é ser americano. Se chegou à presidência sem estas noções, não é de esperar que as cultive ao longo do mandato. Resta-nos confiar precisamente no que Trump tem tentado minar: a separação de poderes e o papel responsabilizante face à Administração exercido pela imprensa . Não será um símio cor-de-laranja que destruirá estas instituições. Valha-nos isso.

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