Holanda 2017: Soem os alarmes?


A sensivelmente um mês de os Holandeses irem a votos neste ano de tudo ou nada para a UE, começo uma série que servirá para acompanhar com atenção e compreender ao pormenor as dinâmicas internas dos Países Baixos e as suas repercussões no futuro do projeto europeu.

O favorito a ganhar as eleições é o PVV (Partido para a Liberdade) que tal como o UKIP ou a Frente Nacional se situa entre a direita e a extrema-direita, no sentido em que não estamos a falar de neo-nazis, mas sim de pessoas de direita que não se atualizam ideologicamente desde os anos 70 (no que toca à liderança, pelo menos). É bem mais fácil comparar o PVV com o UKIP do que com a FN, pois o partido francês não é um fenómeno de ressurgimento da velha direita no séc.XXI, mas sim um partido xenófobo e anti-semita que tem vindo a moderar a sua mensagem para se tornar uma alternativa eleitoral viável. Tal como o UKIP, que nasceu de uma série de deserções contra o rumo mais liberal (no sentido social) do Partido Conservador , também o PVV nasce com a saída do seu líder o fundador Geert Wilders das fileiras do tradicional partido liberal conservador holandês VVD (Partido Popular para a Liberdade e Democracia). Ao contrário de Trump e de Le Pen, Wilders é um liberal económico (tal como Nigel Farage), mas também é um liberal social, sendo caso único nos movimentos populistas. Defensor dos direitos LGBT ( Trump por acaso tomou posições parecidas) e da igualdade de género como bases da cultura humanista holandesa. Tal como o Partido Republicano, o PVV propõe o fim das medidas de proteção ambiental.

Se fizermos a média das sondagens de Fevereiro, espera-se que o PVV ganhe 32 (+23 do que nas últimas eleições) dos 150 lugares da Câmara dos Representantes do Parlamento holandês, seguido do PVV do Primeiro-Ministro Mark Rutte com 23 lugares (-18) e do outrora poderosíssimo CDA (Apelo Democrata-Cristão)  com 17 (+4). O parceiro de Governo de Mark Rutte, o PvdA (Partido Trabalhista) sofre a maior queda com apenas 11 deputados (-27). Parece que muitos partidos pequenos vão aumentar bastante a sua votação, especialmente o GL (Verdes) e o 50+ (Partido dos Reformados), que chegarão aos 15 (+11) e 10 (+8) deputados respetivamente. Os habituais partidos médios que permitem coligações D66 ( Democratas) e o SP (Partido Socialista) têm sortes, forma com o D66 a  ganhar mais dois deputados chegando aos 15 e o SP a cair dos 15 para os 13.
 Todos estes partidos se recusam a formar um governo de coligação com o PVV,
 e o SP também se recusa a colaborar com o VVD. Se Wilders fosse cabeça de lista do partido mais votado e não conseguisse formar governo, seria a primeira vez que isto acontecia desde 1982, numa altura em que o poder se dividia apenas entre os 3 grandes Partidos (VVD, PvdA, e CDA). Fala-se do perigo de a base do PVV se galvanizar contra o "establisment" que lhes nega o poder, mas em 1982 o PvdA viu o governo ser lhe roubado e nas eleições a seguir perdeu o seu estatuto como maior grupo parlamentar. Se a solução governativa encontrada tiver sucesso e for popular, não haverá perigo.

O problema para a Holanda é que, segundo as minhas contas, não existe uma única coligação possível que seja ideologicamente coerente. A atual coligação "roxa" entre a direita e a esquerda só poderia ser replicada se fosse com um número de partidos nunca antes visto. Ao longo do próximo mês e meio, através da análise do clima político, situação socio-económica e outros fatores, irei tentar antecipar o que se passará quando os holandeses forem a votos e quando for altura de formar governo (desta vez com um pouco mais de acerto).

João Jonet

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