A Morte da Rosa

De novo, foi nos países anglo-saxónicos que tudo começou, com Bill Clinton a ganhar em 1992 e Tony Blair a tornar-se líder dos Trabalhistas em 1994 e Primeiro-Ministro em 1997. Juntamente com Romano Prodi (1996) e Gerhard Schröder (1998), foram os impulsionadores de um novo movimento político, a "Terceira Via", em que se propunha uma economia capitalista de mercado que pautasse pela humanidade e compaixão, deixando o Estado de se preocupar com a desigualdade de rendimentos, mudando o foco para a igualdade de oportunidades, modernização e pragmatização do Estado e apoios sociais básicos. Percebendo que o capitalismo tinha sido quase universalmente aceite como o melhor sistema económico existente, estes líderes decidiram lutar contra os seus excessos e não contra a sua adoção. Juntando a isto uma agenda socialmente mais inclusiva e moderna (flexibilização do aborto, mais direitos para LGBT, entre outras propostas), estes partidos ofereceram aos eleitores um apelativo programa que unia as classes mais baixas de rendimento (fidelizadas a estas forças políticas), classes médias (atraídas pela abordagem capitalista mais soft, que lhes seria particularmente benéfica) e os mais abastados ( um misto da clássica "gauche caviar" com pessoas que achavam que estavam a ser beneficiadas pela liberalização da economia, como Warren Buffett). Esta coligação heterogénea e transversal a todos os grupos sociais levou a vitórias esmagadoras um pouco por todo o Ocidente.
A coligação Clinton era tão ampla que o levou a ganhar Estados tão díspares como a Geórgia e Nova Iorque ou o Montana e a Califórnia.
Tony Blair ganhou mais de 60% dos assentos na Câmara dos Comuns em 1997. Esta vitória deveu-se a conquistas inesperadas em zonas conservadoras do Norte e Centro de Inglaterra, que se juntaram às normais vitórias nos grandes centros urbanos e na Escócia.
Estes resultados eleitorais mostraram ao Mundo que uma ampla coligação de "Terceira Via" era garantia de sucesso. Bastaria, assim, à esquerda mundial fazer um compromisso em relação à sua ideologia económica para conseguir governar, impedir os excessos do capitalismo "laissez-faire" e impor a sua agenda de liberalização social. Finalmente, os eleitores podiam ter o que queriam: capitalistas que não eram machistas, racistas, elitistas, conservadores e religiosos. Pelo menos era o que Blair e Clinton achavam que eles queriam. O mais provável é que estivessem só fartos das mesmas pessoas, pois Bush, John Major e Helmut Kohl eram caras que não lhes saiam da frente há mais de uma década. A verdade é que o eleitorado base de Democratas, Sociais-Democratas e Trabalhistas não era menos conservadora que esses líderes de direita, e apoiava a esquerda principalmente por razões económicas. Por isso é que quando o centro-esquerda destes países se passou para o lado de lá da luta socialismo/capitalismo, os Americanos mais desfavorecidos se viraram para o Partido Republicano, transformando-o num partido protecionista e nacionalista conservador, proporcionando o aparecimento de Donald Trump; os Britânicos passaram a votar nos Liberais-Democratas (por causa da sua oposição à Guerra do Iraque) e depois no UKIP, este sim, um partido que promete defender o trabalhador inglês como o antigo Labour; os Alemães transitaram primeiro para a esquerda radical, depois para a alçada de Merkel e, agora que esta abriu a porta aos refugiados, para a extrema-direita.
Em França e Espanha, o cenário é totalmente diferente, e por isso só agora assistimos à queda dos seus partidos socialistas. Isto deve-se em parte ao facto de terem sido dos poucos países a manter líderes de esquerda durante o "boom" do liberalismo nos anos 80. Agarrados ao carisma de Felipe González e François Mitterrand, foram sobrevivendo e impedindo a necessária modernização das suas economias. O processo de reestruturação em Espanha permitiu a Rajoy fazer estas alterações absolutamente vitais, contra a força dos poderosíssimos sindicatos espanhóis. Dentro do PSOE e PSF foram sempre vincadas as diferenças entre membros da "terceira via" (que nunca governaram em nenhum dos países até 2014) e sociais-democratas mais clássicos. Lionel Jospin e Zapatero nunca assumiram proximidade com a ala direita dos respetivos partidos. Já Hollande, que sempre se colocou no centro, procurando unir os dois extremos, primeiro nomeou um Primeiro-Ministro mais esquerdista (Jean-Marc Ayrault), mas depois virou bruscamente à direita com Manuel Valls a assumir a liderança do Governo, e Macron a tornar-se Ministro da Economia. As medidas reformadoras que se seguiram levaram a manifestações gigantescas dos grandes sindicatos franceses e a uma divisão clara dentro do PS. Macron abandonou o barco e candidatou-se como independente e nas primárias internas, Benoît Hamon (que saira do Governo por considerá-lo demasiado liberal em 2014) derrotou o super-favorito Manuel Valls. Hamon era tão de esquerda que era difícil diferenciar o seu programa do de Mélenchon, que acabou por lhe roubar o eleitorado por ser incrivelmente mais carismático. O resultado final foi uma derrota histórica que poderá ter condenado uma das mais respeitadas forças políticas europeias ao desaparecimento. Com as legislativas à porta, será que o PS se vai tornar um partido pequeno? Muito provavelmente.
Percentagem de votos em partidos sociais-democratas europeus desde 1986.
Queda a pique dos partidos de esquerda europeus nos últimos anos.
Em França, no Reino Unido, Itália, Espanha, e mesmo na Alemanha, as sondagens estão a mostrar níveis de apoio embaraçosos para os partidos clássicos de esquerda. Os britânicos, comandados por Corbyn e franceses comandados por (indivíduo a decidir) poderão cair para níveis historicamente baixos nas eleições deste ano; já os alemães do SPD estão mais próximos de desapontar contra uma Merkel desgastada do que de dar alguma luta. Só em Portugal, e devido a uma jogada política engenhosa, é que os partidos de centro-esquerda mostram alguma saúde. Será que com a queda e possível destruição eleitoral e consequente divisão do PSF e do Labour, bastiões do socialismo europeu, vamos assistir à morte dos partidos da rosa?




Comentários
Enviar um comentário