Knockout?

Lembram-se quando Hillary ganhou dois debates e no último não perdeu não ganhou, ou pelo menos quando eu fiz este julgamento dos debates presidenciais americanos? Bem, no fim do dia, ou os debates não tiveram impacto ou a minha perceção estava em dissonância com uma porção significativa da população americana, pois todos sabemos quem ocupa por estes dias a Casa Branca.
Vendo ontem o debate Le Pen v Macron, e concluíndo que Macron desmantelou Le Pen, tenho de me perguntar o que é que eu aprendi com a eleição de Donald Trump e com esses infames debates, pois os paralelos são mais que muitos.
Quem não se recorda do dia em que Trump sentou na fila da frente de um debate mulheres que diziam ter tido relações sexuais com Bill Clinton. Ontem, Le Pen perguntou a Macron se este estava tentar criar uma dinâmica professor-aluno, num baixíssimo ataque ao pouco convencional casamento do candidato liberal com uma mulher que foi sua professora. De facto, tal como nos EUA, também em França havia um candidato reles, mal educado e pouco preparado para debater os assuntos a fundo que era incapaz de concluir uma ideia enquanto uma candidata inteligente, informada e experiente tentava passar as suas propostas por entre os insultos do barulhento opositor. Sexos invertidos à parte, o debate foi um show de Macron, que conseguiu passar uma imagem mais presidencial do que é costume, não cometer nenhuma gaffe, não se deixar arrastar para a "lama" retórica de Le Pen e ainda defender o seu programa e desconstruir com agressividade e sabedoria o da sua opositora (coisa que Hillary não soube fazer).
Com moderadores incapazes de acalmar o frenético ritmo da discussão, não houve foco nem capacidade para trazer à mesa os assuntos sociais levantados por Fillon ou a agenda económica de Mélenchon, esquecendo-se assim 40% do eleitorado francês. Le Pen atrapalhou-se toda a defender a sua posição relativamente à UE e Macron mostrou dificuldade em traçar uma estratégia de segurança (tal como todos os líderes ocidentais sérios, que percebem que este assunto é complexo). Trocaram-se galhardetes no campo da globalização, mas ficaram confusas as posições quanto a uma semana de 35h. A vontade de Le Pen de ligar islamistas radicais a Macron, e de criticar as suas visões sobre o colonialismo francês levaram o debate para momentos de pouca substância e produtividade. Os ataques que a candidata da FN fez a Macron na tentativa de o ligar ao governo de Hollande e a alguns dos seus negócios ruinosos esbarraram no muro da realidade, pondo a nu a sua ignorância relativamente aos dossiers em questão e a qualquer assunto político em particular.
No fim do dia, quem não conhecia bem Macron até pode ter sido persuadido a apoiá-lo, Le Pen não ganhou votos ao centro (talvez na extrema-esquerda), mas quem já conhecia e apoiava um dos candidatos terá ficado na sua. Macron foi o vencedor do debate para 64% da audiência, lidera com cerca de 60% das intenções de voto todas as sondagens, e com apenas mais um dia de campanha é improvável que alguma coisa mude. Eu diria que neste momento o ex-ministro da Economia tem mais de 80% de hipóteses de chegar ao Eliseu.
João Jonet
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