Preparando a Terceira Volta


Finalmente existem razões para sorrir, depois de vários atos eleitorais traumáticos. A vitória convincente de Emmanuel Macron garante uma Europa mais forte, coesa e liberal, confirmando também que o Velho Continente não se deixa enganar por populismos. Le Pen fez melhor que o pai (convenhamos que não era difícil), mas ficou abaixo das expectativas, com menos 3 a 8% do que as sondagens previam. As esperanças que depositam em Macron e no seu projeto são encorajadoras, mas a pressão que lhe vão colocar será fortíssima, com esta experiência centrista tecnocrata a servir de teste e exemplo para o resto do Mundo Ocidental. Se correr mal, a Ordem Liberal está acabada; se for bem sucedido, não só terá contornos milagrosos, como dará nova vida ao movimento globalizador de mercado livre.

A vitória de Macron tem muito poucos motivos de análise. Foi esmagadora a maneira como deixou para trás Le Pen, conquistando redutos conservadores como a Riviera ou a Córsega e bastiões socialistas como a Bretanha. A sua margem de 2-1 não deixa dúvidas e ficam apenas para a história duas regiões que Le Pen pintou com as suas cores - Pas-de-Calais e Aisne - zonas com números de desemprego superiores à média nacional. O que interessa agora são as eleições legislativas de Junho, que decidirão os 5 anos de mandato que estão pela frente.


  • O movimento "En Marche!" prometeu apresentar candidatos a todas as 577 circunscrições, provindo metade da sociedade civil e metade do meio político. Entretanto um acordo assinado com o MoDem do centrista François Bayrou, garantiu que os 90 candidatos deste partido se poderiam candidatar nas listas do movimento do Presidente-eleito.  As últimas sondagens põem esta coligação a ganhar as eleições com valores entre os 22 a 26% na primeira volta, projetando-se que na segunda volta chegariam à maioria absoluta. Dado o acordo com Bayrou, não seria surpreendente que este fosse nomeado Primeiro-Ministro, ele que tem boas relações com muitos centristas Republicanos (como Alain Juppé). 



  • Por falar em Republicanos, falta perceber quem lidera afinal o partido de centro-direita. Se for o cada vez mais extremista Sarkozy, os seus parceiros mais moderados da UDI poderiam juntar-se a Macron. Se Juppé se assumir como figura mais forte, ou um dos seus aliados, será ainda mais fácil para o presidente trabalhar com o Parlamento. O problema é se Sarkozy tiver sozinho poder suficiente para chantagear o Eliseu, podendo nesse caso forçar Macron a virar à direita e a nomear um dos seus (ler aqui).



  • Os Socialistas estão completamente perdidos, com um vazio de liderança e sem identidade, podendo verificar-se um êxodo para o "En Marche!". O seu centro foi consumido pelo movimento independente e todos os deputados que se posicionem nesse quadrante ideológico devem estar a considerar as suas hipóteses. Os que estão mais à esquerda que Hamon e votaram em Mélenchon, também podem explorar juntar-se ao movimento radical que o euro-deputado lidera. O partido que Mitterrand fundou pode estar perto do seu fim, destruído por lutas internas e incapacidade de escolher um rumo ideológico na era da globalização. O ex-Primeiro-Ministro Manuel Valls já abandonou o navio para apoiar Macron na primeira volta. Será que é permanente? 



  • Le Pen e Mélenchon também põem muitas expectativas nestas eleições, mas poderão ser vítimas do sistema de segunda volta. As sondagens dizem que terão cerca de 21 e 15% respetivamente, mas apenas 33 deputados no máximo. Isto contando com uma união da FN com o movimento de Doupont-Aignan e de Mélenchon com todos os partidos de esquerda radical. Ao contrário do que se antevia, não está fácil para ser extremista na Europa.
A vitória de Macron foi esmagadora, as perspectivas dos seus adversários mais populares são negras e apenas "Don Sarko" parece ter capacidade para desestabilizar o novo executivo. Ao contrário do que muitos antevêem, esta Presidência até pode correr bem.

João Jonet  


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