You're fired!


Dia 28 de outubro de 2016, Donald Trump preparava-se para uma derrota humilhante, estando atrás nas sondagens, não só em todos os swing-states como no normalmente republicano Arizona, e pontualmente na Geórgia e no Texas. Depois de se tornar do conhecimento público o infame vídeo em que fala da maneira como trata a as mulheres, muitos Republicanos tinham aproveitado para abandonar o navio, deixando Trump numa situação ainda mais precária. O partido estava condenado a sofrer pelos pecados do seu candidato, com aspirantes a senadores, congressistas e governadores a tentarem afastar-se o mais possível do nomeado, mas vendo o seu destino traçado. É então que aparece James Comey, Diretor do FBI e membro do GOP (contribuiu para as campanhas de McCain e Romney), que envia uma carta para o Congresso, informando que reabriu a investigação aos emails de Hillary Clinton que havia fechado em Julho. A suspeição causou uma queda a pique nas sondagens de todos os candidatos democratas e, mesmo com Hillary a ser de novo absolvida a poucos dias da eleição, o mal já estava feito: as pouco plausíveis esperanças de conquistar a House caíram por terra, a maioria no senado que parecia certa esfumou-se e a Casa Branca foi para o homem menos qualificado possível.

Andamos para a frente, mais precisamente para dia 3 de Maio de 2017: Comey (que não foi despedido por Trump como este ameaçara no Verão de 2016) é ouvido numa comissão de inquérito no Senado relacionada com a intervenção russa nas eleições americanas. Comey reitera o seu empenho em não permitir que esta interferência se repita, e diz que a ideia de que possa ter influenciado minimamente a eleição com as suas ações o deixa "ligeiramente nauseabundo"(ou doente, dependendo se se quer uma tradução mais compreensível ou literal). Justifica a sua carta de Outubro com o facto de Huma Abedin (a ajudante de Clinton cujos e-mails forneceram nessa altura novas provas ao caso) enviar imensos e-mails ao seu marido Anthony Weiner para impressão, estes contendo informação confidencial. Ora, o problema é que isto é mentira - não só os e-mails não tinham informação considerada confidencial à altura, como estamos a falar de meia dúzia de e-mails, não "centenas de milhares" como disse Comey.

Dia 9 de Maio, James Comey é demitido por Donald Trump, a conselho do Procurador Geral Jeff Sessions e do Procurador Geral Adjunto Rod Rosenstein. A carta de demissão acusa Comey de denegrir o FBI com o seu mau julgamento no caso dos e-mails de Hillary o que, para além de irónico, parece uma desculpa esfarrapada.

Então, o que levou Trump a demitir Comey? Muitos especulam, incluindo eu, que a condução que o Diretor do FBI estava a fazer da investigação russa, na qual Trump e Sessions estão comprometidos, se deve ter aproximado em demasia do Presidente, levando-o a terminar o mandato de um homem que tinha mais 6 anos à frente da organização de inteligência e segurança interna dos EUA. Não deixa de ser curioso que este escândalo rebente um dia antes da chegada do MNE russo, Sergei Lavrov, a Washington, ele que até já reagiu com ironia a esta decisão, fingindo não saber das notícas quando inquirido numa conferência de imprensa.

Dia 20 de Outubro, Nixon despediu o procurador especial para o caso Watergate Archibald Cox, tendo o seu Procurador Geral e Adjunto pedido a demissão no mesmo dia. Este acontecimento, conhecido como "Saturday Night Massacre ", ditou o fim da Administração menos de um ano depois.

Os paralelos com o Watergate são preocupantes, tal como a recusa da Casa Branca e da liderança Republicana no Congresso em arranjar um procurador especial, apesar de incessantes pedidos dos Democratas e, hoje, até de John McCain. Cheira a esturro para os lados de D.C., espera-se que seja mesmo fogo a provocar todo este fumo para nos vermos livres, e podermos mesmo enclausurar o idiota cor-de-laranja.

João Jonet

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