A Revolta dos Elefantes



Na semana passada deu-se um passo de gigante no que poderá ser o descolar do "establishment" do Partido Republicano do seu errático Presidente. A ala não-populista do partido, que ainda é maioritária principalmente no que a representantes eleitos diz respeito, tem vivido na esperança que o Presidente se comece a controlar, tornando-se como que por magia num Republicano normal. É uma esperança muito pouco realista, dada a falta de controlo emocional de Donald Trump, mas aparentemente necessária, pois o partido está dele dependente para passar legislação. Assim, temos assistido a quase um ano de constantes intervenções públicas de atrapalhados políticos de carreira a tentar defender declarações lunáticas vindas da Casa Branca, não tendo ninguém a coragem ou sentido de Estado necessários para fazer frente a Trump, mesmo que isso custasse a reeleição.

Isto verificava-se até à terça-feira passada, quando o Senador Jeff Flake (R-Arizona) e o todo poderoso líder do Comité de Relações Internacionais (ou Externas) do Senado, Bob Corker (R-Tennessee)  decidiram denunciar publicamente a decadência moral, a incompetência e o desrespeito pelas instituições desta Administração. Corker, que já tinha dito que se reformava em 2018, disse que o Presidente era um mentiroso, mais interessado em dividir o país do que governá-lo, e que a sua presença na Sala Oval punha o país perigosamente perto de uma III Guerra Mundial. Flake anunciou em pleno Senado que não se re-candidatava em 2018, escolhendo usar o próximo ano do seu mandato para denunciar os abusos desta Presidência e fazer veemente oposição em nome do verdadeiro e intelectualmente sustentável movimento conservador. 

Trump apressou-se a responder no Twitter, dizendo que estes dois traidores eram cobardes sem qualquer capacidade de serem re-eleitos dentro de um partido que agora é seu. Se no caso de Flake isto é verdade, pois muito provavelmente sairia derrotado da primária republicana por uma candidata de extrema-direita (o próprio admitiu que as suas credenciais de centro-direita parecem estar a perder apoio), no caso de Corker é uma mentira nas proporções vergonhosas a que Trump nos vem habituando. Não só Corker é imensamente popular no seu estado-natal, como a sua campanha já tinha os cofres de tal forma recheados que a reeleição seria uma formalidade. Corker saiu por princípio, para não ter de compactuar com esta terrível Administração. 

Este é que é o ponto importante - perceber se a revolta do "establishment" resultará numa retirada e consequente substituição por elementos mais "trumpificados" (como Flake defende, apesar de achar que será uma experiência de curta duração, uma "febre") ou se pelo contrário a velha guarda vai mostrar força para lutar de volta, apoiando uma candidato credível contra Trump nas primárias de 2020 e protegendo os seus incumbentes da extrema-direita e do Presidente, fazendo frente à Casa Branca para garantir a sobrevivência do partido.

Esta mini-revolução é muito importante porque mostra que o Congresso está cada vez mais descontente com Trump, e que as vantagens de o apoiar se vão esmorecendo. McCain nunca entrou no "Trump Train" nem se inibiu de criticar quem o fez, mas ver críticas tão claras como estas a um Presidente por parte de congressistas do seu partido é muito raro na história política americana, e pode significar que o Congresso se vai afastar da linha política da Casa Branca. Também pode significar que se a investigação russa se complicar, o partido estará pronto para descartar o seu líder.

No que toca à Rússia, os desenvolvimentos de hoje podem trazer ainda mais declarações como as da semana passada. O 2º diretor da campanha de Donald Trump - Paul Manafort -  foi intimado pelo procurador Robert Mueller, enquanto foi divulgada a notícia de que uma conselheiro de menor importância na campanha admitiu que era culpado de mentir ao F.B.I. sobre o envolvimento da equipa Trump com o governo russo com vista a ganhar a eleição de 2016.

Se o partido descolar de Trump, é o fim da sua Presidência, pois a incapacidade para passar legislação limitará o papel da Casa Branca ao envio de furiosos tweets e à possibilidade de começar uma guerra nuclear, numa morte lenta que levará a uma derrota em 2018 e depois 2020. 

Por agora, apesar dos sinais prometedores, ainda é muito cedo para dizer que o partido está pronto para um divórcio, até porque líderes como Paul Ryan e Mitch McConnell, na esperança de passar profundas reformas fiscais, ainda apoiam o Presidente, mas se os Republicanos não chegarem a um consenso no que a impostos diz respeito, não só chegarão a 2018 sem uma única vitória legislativa, como terão razões mais que suficientes para desistir do seu Presidente.

Uma Administração que nasceu sem uma claro mandato, rodeada de escândalos pessoais, de uma campanha em que foi escolhida por ser o menor dos dois males para o centro-direita americano, que não consegue passar uma mensagem e que não consegue definir estratégia parece ainda ter a confiança de um dos mais antigos partidos políticos do Planeta, que sempre foi um símbolo de responsabilidade e liberdade.

Por agora a fome de poder parece sobrepor-se à decência e à tradição. Para ver uma revolta dos "elefantes" é esperar por uma catástrofe.

João Jonet

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