Catalunha: Uma História de Disparates, Um Futuro Incerto


A questão do independentismo catalão e os recentes desenvolvimentos políticos em Barcelona têm inquietado a Europa inteira, pondo em estado de sítio a 4ª maior economia da Zona Euro numa altura em que se dispensava mais instabilidade territorial na União Europeia. E se a tendência é para começar a prever o apocalipse económico para a comunidade autónoma espanhola, entre outras grotescas consequências, o que me interessa fazer, antes de saber o que vai acontecer, é entender de onde surge esta vontade de auto-determinação catalã e qual seria a melhor maneira de resolver o problema.

As explicações mais imediatas prendem-se com a língua e com o Reino de Aragão, e assim sendo, são o ponto de partida correto para a leitura da atual situação. Como a principal bandeira da cultura catalã, rica em História e tradição em quase todos os campos possíveis desde música a artes plásticas, do desporto à arquitetura, a língua catalã é um símbolo não só da excepcionalidade da Região (fruto principalmente do extraordinário valor da cidade de Barcelona) como um importante fator de diferenciação a nível europeu. Com 9 a 11 milhões de falantes, é a maior comunidade linguística europeia que não tem uma Nação própria. Uma vincada identidade cultural e uma língua própria são fatores importantes na consideração do Estado-Nação, sendo a Catalunha uma das poucas regiões da Europa a aliar a essa identidade uma história da auto-determinação política.

Passando assim para o segundo ponto — a herança histórica do Reino de Aragão — é importante ressalvar que a Catalunha representa apenas uma pequena parte do poderosíssimo Reino Ibérico que se juntou a Castela no séc. XVI. Uma potência mediterrânica impressionante, Aragão ocupava mais de um terço do território da Península antes da unificação feita na pessoa de Carlos V. Para além do domínio de 4 atuais comunidades autónomas (Aragão, Catalunha, Valencia e Baleares), controlava também a Sardenha, a Córsega, a Sicília e todo o Sul de Itália. Isto fez com que nos séculos XIV e XV, dada a preeminência do comércio mediterrânico, Barcelona, como capital de Aragão, enriquecesse brutalmente, tornando-se numa das mais importantes cidades europeias. No entanto, é precisamente o foco no Mediterrâneo um dos primeiros erros estratégicos que condenará Aragão ao jugo de de Castela. Dada a prosperidade que Aragão já tinha, os seus grandes empresários desinteressaram-se pela expansão atlântica, que ficou totalmente entregue aos seus homólogos castelhanos. Assim, apesar das estátuas de Colombo, Barcelona ficou inicialmente um pouco à margem do enriquecimento brutal que os recursos americanos trouxeram, mas a resiliência e inteligência das suas elites foram aumentando a riqueza da região, à base da especulação e da sua enorme experiência comercial. Apesar de tudo, era inquestionável que a balança do poder tinha caído para Castela com a aposta ganha no comércio transatlântico.

E se a relação de forças já estava inclinada para o lado de Madrid, pior ficou quando as elites catalãs, noutro daqueles erros históricos que custam a independência, escolheu o lado errado na Guerra da Sucessão Espanhola. Com a vitória de Filipe V e dos seus apoiantes franceses e castelhanos sobre o Arquiduque Carlos da Áustria, apoiado por aragoneses, austríacos, prussianos, portugueses, britânicos e holandeses, a Coroa de Aragão perdeu definitivamente o seu estatuto soberano sendo finalmente Barcelona subjugada pela recente capital castelhana em Madrid. Seguiram-se um par de séculos de caminhada no deserto para a Catalunha, que viu o governo central a esquecer totalmente o Mediterrâneo e retirar-lhe importância política e económica. No séc. XIX os catalães encontraram-se finalmente do lado dos vencedores, depois de terem sido das primeiras regiões industrializadas de Espanha, viram os governos liberais descentralizadores a vencerem três guerras contra os Carlistas (absolutistas unionistas). Seguiu-se um final de século marcado pela expansão económica e cultural catalã, com a região a beneficiar da destruição do Império Colonial para se afirmar como o "ganha-pão" do Governo Central. Com a Segunda República nos anos 30 veio o Federalismo e uma enorme autonomia, mas foi tudo muito rápido, muito revolucionário, sem respeito pelas sensibilidades mais conservadores e assim veio a Guerra Civil, em que as forças fascistas de Franco voltaram a condenar a Catalunha a um estatuto secundário muito por culpa dos ímpetos progressistas da região. Seguiram-se décadas de repressão cultural violenta, que criaram na Catalunha um ressentimento anti-fascista anti-conservador e até anti-espanhol muito forte. A autonomia concedida pela Constituição democrática de 1978 foi generosa e ainda mais generoso foi o estatuto autonómico de 2006, mas as feridas do franquismo eram demasiado profundas.

Com a educação nas mãos do Governo autonómico desde 1978, já levamos duas gerações de catalães que foram ensinados a desvalorizar os erros estratégicos dos seus antepassados (muito parecidos com os que levaram à perda de independência da Escócia), e a ler a História da Catalunha como uma de repressão constante por parte de Castela, incentivando-se um pensamento nacionalista completamente anacrónico. Numa Europa em que se vão esbatendo as características do desatualizado conceito de Estado-Nação, é no mínimo caricato que uma das regiões que ao longo da História mais beneficiou com a integração continental procure afastar-se de um projeto que a beneficia porque ainda não processou erros do séc. XVII, nem ultrapassou as dificuldades que o Franquismo lhe colocou.

Estou longe de acreditar que a culpa seja apenas catalã, mas achei necessário fazer a desconstrução da justificação histórico-cutural para a independência, tal como acho necessário dizer que PP vence eleições explorando medos antigos de desintegração espanhola e ímpetos conservadores nefastos que provêem do passado franquista do partido. Aznar e principalmente Rajoy usaram a Catalunha como arma eleitoral no resto de Espanha, denunciando as suas elites intelectuais progressistas como traidores do causa espanhola e prometendo a inviolabilidade do Estado espanhol a todo o custo. Impedir o referendo com base na Constituição é absolutamente ridículo, tal como é gritar que "Espanha não se vota!" pelas ruas de Madrid. Fosse Adolfo Suárez vivo, ou pelo menos o seu partido centrista liberal, principal responsável pela construção democrática espanhola e estaria certamente pronto a condenar os ímpetos anti-democráticos de uma direita espanhola conservadora, pós-fascista e ainda ligeiramente carlista contra a qual lutou com tanta força como lutou contra as forças radicais de esquerda nos primeiros dias do novo regime.

As cargas policiais fizeram lembrar Franco e a falta de coragem para por a independência da Catalunha a votos mostraram uma fraqueza, até cobardia política inaceitável. O unionismo radical dos partidos do velho regime, a juntar à inaptidão política dos seus líderes exigem uma renovação do sistema partidário espanhol, porque tal como na maioria dos países ocidentais, os problemas do séc. XXI estão a mostrar-se demasiado difíceis para partidos políticos, com 40, 60, 100 ou 200 anos. A França já deu o pontapé de saída, está na altura de renovar as estruturas partidárias, está na altura de haver eleições regionais na Catalunha, de haver eleições legislativas em Espanha, de se mudar a Constituição, de se fazer um referendo, de se defender a solução mais racional (a União) e de o "Não" vencer, tal como aconteceu na Escócia. O sistema está podre, a Constituição desatualizada e nada muda. Enquanto isso não acontecer, Espanha e a Catalunha parecem caminhar alegremente para o abismo.

João Jonet

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