O Pestilento Compromisso


Com os recentes resultados eleitorais na Europa Ocidental, que ditaram uma tremenda expansão de partidos populistas isolacionistas , a Europa parece preparar-se para se "fechar em copas" como parte de um nefasto compromisso político que deve acalmar os ímpetos nativistas do Velho Continente, à custa da sustentabilidade populacional do mesmo e da vida de milhares de refugiados, ou migrantes melhor dizendo, que agora é a palavra de ordem, como que implicando que não temos nada de ajudar pessoas que tomaram a escolha de se deslocar para as fronteiras da UE. Fantástica a influência nacionalistas mesmo neste pequenos traços de discurso.

Bem, estou a dizer que isto vai acontecer sem ter sequer apresentado os resultados, com a agravante de os governos ainda não estarem nem perto de ser formados na República Checa, Áustria e Alemanha. Mesmo estando esta possível tomada de posição europeia muito longe de acontecer acho importante por essa hipótese no seguimento destes resultados eleitorais desastrosos para os partidos que mais apoiaram esta modelo da UE, os sociais-democratas.Estes três países que realizaram eleições nas últimas semanas tinham governos compostos por partidos dessa família política, fosse na liderança (Áustria e Rep. Checa) ou como parceiro minoritário (Alemanha). Ora nestas eleições o SPD alemão perdeu 40 deputados e 5% dos votos, com a euro-cética AfD a ganhar 94 mandatos e 7,9 pontos percentuais, na Áustria o SPO do Chanceler Christian Kern não perdeu mandatos e até ganhou 0,1%, mas foi ultrapassado pelo OVP (o centro-direita tem agora mais 10 deputados) e viu o FPO (direta radical) a aproximar-se muito (mais 11 deputados e 5,5%). Na Rep. Checa os sociais democratas do CSSD passaram de maior para 6º maior partido no Parlamento perdendo 35 deputados e 13,1% (menos de1/3 do resultado de 2013), ao mesmo tempo que os centristas populistas euro-céticos do ANO 2011, liderados por Andrej Babis, o segundo homem mais rico daquele país, conquistaram mais 31 deputados e 11% dos votos, que juntando ao enorme crescimento da extrema-direita do SPD (irónico no mínimo), apenas mitigado pela enorme derrota do também euro-cético Partido Comunista. Mesmo assim de ressalvar o enorme aumento do contingente parlamentar de partidos cuja principal bandeira é a xenofobia.

Estas forças poderão chegar ao poder na Áustria, como parceiras de coligação do jovem Sebastian Kurz, líder do centro-direita e também na Rep. Checa o partido de Babis deverá formar governo, certamente influenciado por ímpetos no mínimos islamofóbicos. No entanto, o mais importante será a posição alemã. A CSU, parceira bávara de Merkel, já forçou a Chanceler a garantir um limite no número de entradas de refugiados, ameaçada pelo crescimento da AfD na Baviera. Os liberais do FDP também prometeram apertar muito com a política migratória, podendo subir para dois o número de parceiros de coligação de Merkel avessos a acolher mais refugiados.

Estes resultados levam-me a pensar que podemos estar perante uma força crescente no Conselho Europeu em favor de uma política de fecho de fronteiras. Se o acordo com a Turquia para retenção de refugiados já cheirou "a esturro", principalmente em termos humanitários, um possível consenso europeu que permita a sobrevivência e possível maior federalização da UE ("trade-off" que não deve chatear Macron por ai além) só pode ser considerado vergonhoso.

É importante ressalvar que um compromisso frio e calculista como este não passa de uma tentativa de "empurrar com a barriga" o problema das migrações e de resposta humanitária europeu. Tal como os consensos em relação à escravatura que foram adiando o problema nos E.U.A. até este ter resultados terríveis, também esta resposta pode deixar um vinco no processo de integração europeia, que se pode ir agravando até ser impossível de solucionar.

João Jonet

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