Coligaçãozinha sem sal


Para uma pessoa que está sempre a exigir mais incrementalismo e menos fervor partidário na política americana, eu estou certamente enjoado dos passinhos de bebé da política europeia, e com europeia quero dizer alemã, logicamente.

Dependendo de uma votação dos membros do SPD, que deverá ser favorável, está feito um acordo para mais uma grande coligação entre os Democratas Cristãos (CDU) de Merkel e os Sociais Democratas (SPD) de líder a definir, e é mais do que relevante perguntar em que é que esta será diferente das outras duas coligações do mesmo tipo que controlaram a Alemanha em 8 dos últimos 12 anos. A resposta é difícil de encontrar.

Num documento de quase 200 páginas, os dois partidos, mais a CSU, partido irmão da CDU na Baviera, fizeram questão de ser o mais vagos possível, especialmente no que toca à questão europeia, onde a presença de um ex-Presidente do Parlamente Europeu (Schulz) fazia prever muito mais. O facto de Martin Schulz ter desistido da liderança do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Partido pode estar relacionada com esta falta de ambição. Pode também ser apenas um atrasado reconhecimento do flop que foi a sua liderança, e mesmo a sua carreira.

No entanto, o substituto de Schulz pode não ser particularmente importante, pois a Alemanha tem consensos de política externa bastante alargados e o SPD já controlava este Ministério, pela mão do seu anterior líder Sigmar Gabriel, na última legislatura, sem que isso tenha produzido qualquer laivo de eurofilia por parte de Berlim. Macron está ansioso por um parceiro para reformar a União Europeia a nível político e económico-financeiro e, pelo menos no primeiro ponto, este acordo de Governo não promete nada de especial.

Estamos a falar de um consenso muito focado em política interna, com reformas laborais, ambientais, e de serviços públicos incluídas para agradar ao SPD e à ala centrista da CDU, apesar da ansiedade e antecipação de todas as capitais europeias para que esta solução de governo fosse oferecer uma solução de futuro para a Europa - já agora, na ótica dos governos pró-europeus, uma que casasse bem com as propostas que vêm do Eliseu. Em vez disso, temos a CSU (o partido mais conservador deste possível Governo) a controlar o Ministério do Interior e a estipular limites ao número de refugiados que podem entrar no país ou juntar-se às suas famílias, e o capataz de Merkel, Peter Altmaier, a dominar o Ministério da Economia, o que deverá significar que podemos esperar sentados para que os alemães começassem a investir o seu excedente orçamental e a dar algum dinamismo à economia europeia.

O único campo em que pode haver uma mudança positiva para o projeto europeu, garantindo alguma viabilidade à União Financeira, a um Fundo Monetário Europeu, e a um aumento do orçamento comunitário, é a escolha do centrista Presidente da Câmara de Hamburgo, Olaf Scholz (SPD) para a pasta das Finanças, que deverá ser muito menos cético que Schäuble em relação a estes projetos. Resumindo, nada de espetacular, mas não é mau,  dado que a teimosia e falta de tato do ex-ministro das Finanças foram um dos grandes entraves a necessárias reformas estruturais da UE.

Somos de novo presenteados com uma solução política que será eficaz, mas não fantástica. Os dois maiores partidos alemães continuarão a alimentar a narrativa de que os partidos de centro não são capazes de fazer mudanças profundas e que não têm identidades bem definidas, argumentos que dão folgo a movimentos populistas como a AfD. A chave estaria em rejuvenescer as lideranças partidárias, coisa que tarda em acontecer, mas também em propor projetos de centro mais arrojados, a estilo de Macron ou Albert Rivera. A provável sucessora de Schulz, Andrea Nahles, como esquerdista inveterada e política de carreira, não é uma boa solução em nenhum destes campos.

Sem mudança, o "centrão" alemão está condenado a coxear de grande coligação em grande coligação, para grande infortúnio do resto da União Europeia e até do Mundo, que vê uma super-potência económica com imensas dificuldades em transportar essa força para a arena político-diplomática.

João Jonet

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