Estendendo uma passadeira laranja


Fui adiando este artigo, esperando em vão que pudesse ser escrito depois de Elina Fraga ter posto fim ao seu percurso no PSD, que tem tanto de penoso como de curto. Apesar disso, a continuidade da ex-Bastonária só vem reforçar o ponto que já venho a fazer desde Outubro: Rui Rio não tem capacidade nem qualidade para liderar um grande partido português e vencer eleições legislativas.

Esta novela foi um exemplo claro disso, pela quantidade de erros crassos que foram acontecendo. Uma pessoa que ganha com a legitimidade reduzida com que ganhou Rio tem de ter cuidado para acomodar a fação derrotada, sob perigo de sectarizar (ainda mais!) o partido. A união com Santana ia nesse sentido e parecia tudo lançado para que esta primeira fase fosse uma raro momento de confluência e tranquilidade no PSD. A escolha "surpresa" de Elina Fraga veio arruinar isto tudo, trazendo de volta à memória aquilo que mais desagrada aos militantes no seu novo líder, o facto de ter abusado da oposição interna à liderança anterior. Elina Fraga não só tem um passado duvidoso ao nível da ética (não era Rio que nos vinha dar um banho?), como procurou na justiça contestar uma opção política legítima do Governo de Passos Coelho, e por isso, vá, mais pela última coisa, foi vaiada quando disseram o seu nome no Congresso.

O que interessa é que Rio é um homem frontal (ou estupidamente teimoso) e não se ia deixar afetar por uma mísera humilhação pública em direto para todo o país, muito menos assumir um erro, visto que nunca os comete. Assim, alinhavaram-se no dia seguinte entrevistas nos maiores canais para que a sua futura Ministra da Justiça se pudesse redimir publicamente. Elina Fraga apresentou-se na televisão como o seu mentor (Marinho Pinto) se apresentaria, defendendo-se não através de sólida argumentação (não são capazes), mas sim desvalorizando as suas falhas claras como fait-divers. Entre as tentativas falhadas de salvar a sua imagem pública, foi mostrando pensamento político visionário com frases como "este Governo repugna-me porque é de esquerda". Com capacidade argumentativa deste nível e com a forte base eleitoral de Marinho Pinto (teve 1,13% nas últimas eleições) percebe-se claramente a vontade de Rio de integrar uma pessoa como Elina Fraga na sua equipa.

Brincadeiras à parte, era claro que depois do erro da escolha, e depois da falhada tentativa de recuperação, não havia caminho para Elina que não passasse pela porta de saída. Mas Rio gosta disto, adora sentir que o estão a tentar destruir, que é ele contra o Mundo. O ex-autarca do Porto está cheio destas "qualidades" salazarentas. O que passa por determinação e sentido de Estado não deixa de ser teimosia e fetiche pelo combate. Não gosta de ser questionado e não gosta de se questionar, e por isso Elina fica... e Costa também.

E se estes primeiros dias da semana já tinham demonstrado que Rio mete demasiada água para chegar a São Bento, o que dizer da saga de Fernando Negrão. Ponhamos de parte a expulsão pouco inteligente de Hugo Soares, que, de facto, também esteve bem ao não por o lugar à disposição. Excluamos até o facto de Negrão ser um político com o carisma de uma bota velha, que é ótimo para liderar comissões parlamentares, mas terrível para ser a cara do partido de 15 em 15 dias. Para quê estar a por um líder parlamentar a votos se não se tem os votos, raios? Negrão conseguiu empatar com os votos brancos, e um quarto da bancada brindou-o com  nulos, alcançando até a proeza de ter menos votos do que pessoas na lista. Outra humilhação pública, que mostra sempre o mesmo: Rio não tem tato, não tem manha e não tem talento para ser político.

Esta falta de manha tem-lhe valido uma carreira política respeitável, tal é o desprezo que a população tem por jogos de bastidores e truques constantes. Mas sem manha, sem conhecer os meandros e navegar por mares menos recomendáveis, ainda ninguém chegou a Primeiro-Ministro. António Costa têm-na a potes; ninguém tem menos que Rui Rio. Um tecnocrata orgulhoso e arrogante não ganha eleições - que o digam algumas pessoas admiráveis como Hillary Clinton ou Mario Monti e pessoas menos capazes como Martin Schulz ou Hubert Humphrey. Um político precisa de saber fazer política para ganhar eleições a nível nacional. Rio pode ganhar no Porto, ou até dentro do PSD, mas se não consegue ganhar debates, controlar o ciclo noticioso, ou conter polémicas, não se vai safar de certeza perante o País todo.

Digo e repito, as ideias são boas e as reformas são precisas. O homem é que não tem a capacidade política e os traços de caráter necessários para chegar lá para as implementar. Rio é o anti-político e está orgulhoso disso. Não devia.

João Jonet

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