Puritanismo por conveniência

Nada é mais fácil do que apanhar um político americano a ser profundamente hipócrita. Dada a mediatização do fenómeno por aquelas bandas, não só as opiniões dos políticos mudam ao sabor das constantes sondagens sobre tudo e mais alguma coisa, como a sua presença constante em meios de comunicação os leva a serem facilmente apanhados a dizer tudo e o seu contrário. Mais importante que tudo isso, a cada vez maior polarização leva a que os partidos estejam muito menos preocupados com coerência e muito mais com ganhar a próxima batalha pela alma dos Estados Unidos.
Eu nem sou uma daquelas pessoas que valorizam a coerência ideológica (ou a falta dela) como essencial no currículo de um político; aliás, até acho que pessoas demasiado comprometidas com correntes filosóficas fazem políticos ineficazes, incapazes de alcançar compromissos e operar em câmaras legislativas com práticas complexas. Mas há limites, senhoras e senhores.
Quarta-feira, dois dias antes da data limite para financiar o Governo antes de novo "shutdown", a líder Democrata na Câmara dos Representantes Nancy Pelosi passou 8 horas a bloquear o funcionamento daquela Câmara com um discurso que visava criticar um acordo orçamental atingido no Senado para financiar o Governo (coisa que já devia estar feita desde Outubro), por este não incluir garantias para os "Dreamers", pessoas trazidas ilegalmente para os E.U.A. enquanto menores, dos quais 800 mil são protegidos de deportação por um programa federal que Trump vai acabar em Março. É evidentemente uma causa louvável, pois estes jovens são americanos exemplares em tudo menos na cidadania e não merecem ser enviados para países que não conhecem só porque a extrema-direita que sustenta este Presidente tem alergia à palavra amnistia. No entanto, é preciso ser claro. Apesar de 90% do público apoiar uma solução legislativa que proteja estas pessoas, o atual ocupante da Casa Branca foi eleito em parte pela sua posição extremista em relação à imigração (principalmente, foi o nomeado Republicano por isso mesmo) e o Congresso tem maiorias democraticamente eleitas de um partido que não favorece esse tipo de políticas. Para além disso, estes congressistas são eleitos para por o Governo a funcionar, e é no mínimo condenável que um partido que é constantemente derrotado nas urnas queira traçar a agenda política, mantendo o Governo Federal refém. Querem passar uma lei de imigração que tem gigantesco apoio popular, passem-na, mas não a colem a outras coisas para ganhos políticos. Para além disso, onde estava a senhora Pelosi entre 2009 e 2011, quando era Speaker e o seu Partido controlava totalmente Washington? Bem sei que a crise tomou precedência, mas dois anos dão para muita coisa, não fosse a líder demasiado medrosa (ou, pior, eleitoralmente pragmática) para enfrentar a ala conservadora do seu partido na questão da saúde e da imigração ao mesmo tempo. Se calhar não teria perdido a maioria e dezenas de colegas se as minorias a tivessem defendido em 2010, em vez de ficar em casa, mas, como sempre, o cálculo dos Democratas em D.C. foi do mais cauteloso possível e com ele veio uma derrota histórica.
Esta é uma das razões para eu me ter identificado sempre mais com o Partido Republicano (até à era Trump). Historicamente, fosse para abolir a escravatura, partir monopólios, dar direitos políticos a mulheres e minorias ou mesmo rever o código fiscal, por regra o GOP era o Partido arrojado da mudança, e os Democratas um inoperante bicho de duas cabeças, presos à sua extrema direita sulista e às suas indecisas elites intelectuais urbana. Apesar de serem os Republicanos agora os donos e senhores desse presente envenenado que é o Sul dos Estados Unidos, a identidade histórica (ou falta dela) dos Democratas parece persistir, não fosse o partido liderado por três septuagenários nas suas posições há 15 anos. Prometer vitórias totais ou morrer a tentar é fácil quando não se cheira o poder, mas para fazer reformas estruturais que envolvem compromissos e muita coragem é preciso uma capacidade política que muito poucos no Congresso parecem ter.
A crítica não é só para os Democratas. Esta legislatura, como as últimas, tem sido marcada pela inoperância que vem de uma regra idiota do ex-Speaker Republicano Dennis Hastert, que, para agradar aos radicais do seu partido (ou seja, não perder o poleiro), lhes garantiu que nunca poria a votos legislação que não fosse apoiada por uma maioria do sue próprio partido. Essa regra, seguida à letra por Paul Ryan, tem impedido uma solução para o problema da imigração e, de uma maneira mais geral, um regular funcionamento das instituições. No entanto, este acordo orçamental conseguido no Senado prova que os Republicanos também parecem usar o seu puritanismo ideológico apenas em ocasiões especiais. Depois de passarem anos a dizer que Obama e a dívida que este acumulava punham em perigo o futuro da América (o que é verdade, apesar de ter sido algo exagerado), passam um orçamento que aumenta brutalmente a despesa, principalmente nas já recheadas Forças Armadas, o que, a juntar ao insensato corte de impostos, promete duplicar o défice, tudo com o cunho do partido do défice zero. Apenas o libertário Rand Paul, que forçou o fecho do Governo Federal por algumas horas em protesto, parece estar disposto a defender o conservadorismo fiscal que tem sido a base das vitórias do Partido Republicano.
Nada parece faltar mais na colina do Capitólio do que sensatez, com os líderes dos dois partidos a mostrarem constantemente que o seu foco é ganhar aos outros e não melhorar os Estados Unidos. Talvez se os critérios para ser líder, ou mesmo congressista, fossem as qualidades políticas e capacidade negocial, e não a lealdade partidária ou a cegueira ideológica, isto funcionasse, mas, por agora, o Mundo parece condenado a assistir à política da sua maior potência em total disfuncionalidade, num constante ciclo de trocas entre oposições fantasistas e maiorias hipócritas, defraudando constantemente o eleitorado e fragilizando a democracia. Hmm... se calhar isso explica a Presidência Trump! Não, devem ser as suas complexas posições políticas e a maneira como ressoam em determinados tecidos socio-económicos.
João Jonet
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