O estado da união é deprimente


Dada a grande controvérsia gerada pela publicação de informação confidencial pelos Republicanos no Congresso, cuidadosamente selecionada para tentar comprometer a investigação ao envolvimento da Rússia na campanha de Trump, nenhum balanço desta Presidência, alicerçado no discurso do Estado da União, podia estar completo sem conhecer todos os factos deste processo. Assim, escrevo agora sobre o discurso de terça-feira, ms também sobre o degradante circo mediático e institucional que se seguiu, espelhando o que tem sido esta Administração. Se num dia Trump consegue usar a instituição da Presidência para normalizar o seu discurso de ódio e divisão, nos dias seguintes a sua falta de controlo e tato político deitam tudo a perder, condenando-o a uma base de apoio, que não cresce nem decresce, de independentes nacionalistas e Republicanos em geral, que preferem consistentemente o partido ao País.

O discurso do Estado da União é a arma perfeita para um Presidente conseguir a aprovação da sua agenda política, com a sua grandiosa apresentação e coreografada grandiosidade, é o exemplo perfeito da glorificação das instituições democráticas americanas. No entanto, para Presidentes que dominam a comunicação e os ciclos noticiosos, serve apenas para dignificar a sua mensagem, pois o público já está mais que informado sobre as suas intenções. Kennedy não teve de prometer um homem na Lua no Congresso e Reagan nem precisou de tomar posse para que toda a América soubesse que ele ia acabar com a URSS. Para políticos que estão sempre nas notícias, este discurso não costuma trazer muitas novidades, e não há Presidente que esteja mais nas notícias que este.

Nos dias que antecederam a visita de Trump ao Capitólio, a Casa Branca prometia que este discurso seria um apelo à colaboração bi-patidária e à união do povo americano, e se isto parecia pouco credível antes do discurso, 80 extenuantes minutos depois tínhamos a certeza de que Trump não muda, não mudará e quem ainda se engana com as suas promessas vazias começa já a justificar a entrada numa instituição psiquiátrica. O grande negociador demonstra constantemente que é incapaz de dialogar, preferindo fazer exigências e esperar que as pessoas se conformem, apesar de os seus argumentos serem tão convincentes como a sua sanidade mental.

O ínicio do discurso até mostrou o que Trump faz melhor, vender produtos. Assim foi com a reforma fiscal Republicana, que, com recurso a uma série de meias-verdades e incorreções claras, foi apresentada como uma fantástica oportunidade para o povo americano, especialmente a classe média, isto apesar de o Presidente ter dito que uma família típica americana ganhava mais 20 mil dólares por ano do que a média, expondo sem querer o claro enviesamento desta legislação para beneficiar quem ganha mais.

Nada a seu estilo, o Presidente que destruiu o favorito Republicano Jeb Bush com a alcunha "low energy Jeb" mostrou uma falta de vitalidade que tornou o seu longuíssimo discurso ainda mais aborrecido. Seguiram-se convidados escolhidos a dedo (tradição que vem de Reagan) para que as suas histórias de vida ajudassem a construir a narrativa da nova América trumpiana. Naturalmente, Trump usou e abusou desta arma, visto que as suas ideias não se sustentam em estatísticas e estudos, mas sim numa mentalidade de notícias por cabo, que de uma história singular constrói teorias sobre o estado do Mundo. Assim, Trump foi buscar, entre muitos outros, dois casais cujas filhas foram assassinadas por um grupo de imigrantes ilegais, ocorrência já de si extremamente rara, que é escolhida de forma ainda mais perversa por um dos imigrantes ter entrado nos Estados Unidos quando era criança. Trump usou de forma nojenta este caso para fazer uma falsa equivalência e comparar os visados do programa D.A.C.A. (crianças que os pais trouxeram para os E.U.A.  e que vivem vidas exemplares, estudando, trabalhando e não cometendo nenhum crime) com um gang violento. Esta retórica repugnante é precisamente o tipo de coisa que a hipócrita direita americana, e até europeia, deixa passar, desvalorizando como exagero, para ver se conseguem agarrar-se ao poder de Trump tempo suficiente para conseguirem moldar as sociedades ocidentais com "valores cristãos".

Curiosamente, esta parte do discurso, que condenou tudo o resto para segundo plano, especialmente com a frase "Americans are Dreamers too", veio na sequência de sólidos 15 minutos de promessas que tinham como objetivo agradar os Democratas. Aliás, o egocentrismo de Trump é tão grande que. a cada proposta centrista que fazia, Trump virava-se para a oposição, pedidndo-lhes que o aplaudissem.

O discurso confirmou tudo o que esta Presidência tem feito e mostrou que nada vai mudar. Trump vai continuar a deportar imigrantes que já estão nos E.U.A. há décadas, destruindo famílias a torto e a direito. Vai continuar a tentar reduzir a imigração legal (leu bem) e a construir um muro, apenas para agradar à sua base de extrema direita, apesar das claras desvantagens económicas das duas políticas. Vai continuar a ficar com o crédito da reabilitação económica de Obama. E, mais importante, vai continuar a prometer trabalhar com os Democratas para resolver problemas estruturais, para depois se perder a insultar atletas profissionais e apresentadoras de televisão.

Pior que tudo isto, a saga da publicação de um memorando confidencial que se seguiu, que Trump tornou público contra a vontade do seu Diretor do F.B.I.  e do seu Departamento da Justiça, mostram que os factos alternativos, o descrédito das instituições, e principalmente as tendências autoritárias estão para ficar.

Apesar de o memorando ter sido um flop (é demasiado técnico para o seu conteúdo ter real efeito mediático), o debate em seu redor parece ter reforçado a única prioridade desta Administração até às eleições de Novembro, dividir o País de maneira a que o eleitorado Republicano não fique em casa. Apenas um estado de guerra partidária absolutamente destrutivo para a maior potência mundial pode salvar o Partido Republicano eleitoralmente, mas, como Trump já provou, nada para si é mais importante do que a sua pessoa.

João Jonet

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