Determinação e Seriedade

E ainda bem que há Fillon. François Fillon é a personificação da rejeição do populismo que já conseguiu arrastar personalidades como Sarkozy, que a cada dia se parecia mais com Marine Le Pen, ou, do outro lado do Atlântico, Hillary Clinton (criticar a pobre senhora neste momento custa, mas tem de ser...), que se virou contra o TPP quando (erradamente, penso eu) viu que as tendências protecionistas reveladas por Trump ou Bernie Sanders lhe poderiam arrecadar alguns votos, se também ela as adotasse.
Fillon tem um programa bastante ambicioso (mais do que o de Juppé, certamente), o que me parece bastante positivo. Tem um senão, que é o que todas as pessoas ambiciosas enfrentam: falhar este tipo de projetos ambiciosos e bem definidos é mais fácil do que falhar projetos vagos e tímidos. No entanto, as propostas a que Fillon se compromete são mais do que necessárias a um país com uma lei laboral típica dos anos 60 e com regulação a jorrar por todos os lados. Se França se submeter a estas reformas de facto difíceis (como tanto Juppé, com o seu programa mais moderado, ou Fillon admitem), terá um futuro mais risonho, que mais facilmente corresponderá ao imenso potencial daquele país (turismo, agricultura, indústria... e, diga-se de passagem, um estatuto privilegiado na União Europeia), só faltando mesmo tornar a economia mais competitiva e flexibilizar o mercado laboral, cuja regulamentação compendiada origina um documento de proporções bíblicas.
Fillon pretende reduzir a despesa pública em 100 mil milhões de euros. Para tal, propõe, por exemplo, o despedimento de 500 mil funcionários públicos ao longo de 5 anos e a eliminação do limite de 35 horas de trabalho semanais. Estas e outras medidas são vistas como demasiado ambiciosas e arriscadas... Talvez o sejam, mas surge outra crítica ao que me parece ser, pelo contrário, uma grande vantagem de Fillon. É que o ex-PM francês não se deixa afetar pela ameaça populista, não caindo no erro de querer alterar as suas convicções e as suas propostas para se tornar num "populista mais moderado". Ele é, precisamente, o anti-populismo em ação. E se uns sugerem que esta atitude é capaz de afastar potenciais votantes, eu acredito que é maior o benefício de não termos toda uma classe política que se verga a uma vaga de populismo, que só será derrotada se o lado liberal não ceder.
E posto isto, parece-me Fillon a escolha mais indicada. Fillon é, para além do que aqui foi escrito, um homem cuja seriedade é inquestionável, e cujo trabalho enquanto Primeiro Ministro é meritório. Apesar de tudo, Juppé partilha muitas das qualidades de Fillon e, apesar de o seu programa ser mais tímido, tendo em conta que pretende atingir sensivelmente os mesmos resultados de Fillon, não me parece que ele seja um dos traidores do liberalismo que se juntou à frente populista e protecionista. De todo. E, por isso, esperando que os Republicanos escolham Fillon, não me importava nada se escolhessem Juppé.
S.G.
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