Trump! E agora?

A minha primeira sugestão é chorar. Estamos perante um dos momentos mais tristes da História das Democracias Liberais. Houve aqui a possibilidade de um momento extraordinário em que uma mulher quebrava a barreira mais difícil, derrotando um homem que representa todos os fantasmas que queríamos liquidar de vez (sexismo, racismo e isolacionismo), numa espécie de vitória de Bem contra o Mal para as gerações, que tornaria movimentos extremistas nacionalistas absolutamente anacrónicos. Em vez disso, estes foram revalidados e ameaçam destruir tudo o que o Mundo alcançou nos últimos 30 anos.
A minha segunda sugestão é deixar Hillary em paz. A mulher foi atacada constantemente nos últimos 30 anos e sempre se levantou pra se defender de acusações infundadas que a foram minando durante toda a carreira, para lutar pelo que acreditava e pelo que ambicionava. Esta resiliência, como disse Trump, tem de se respeitar. Apesar dos ataques constantes, estamos perante o protótipo de bom funcionário público, uma pessoa que deu a vida para ajudar as pessoas e para tornar a vida delas melhor. O facto de sair de mãos a abanar é triste e não é merecido.
A minha terceira sugestão é não normalizar Donald Trump. Estamos a falar de um homem que apelou à proliferação nuclear, ao regresso da tortura por simulação de afogamento, à proibição da entrada de muçulmanos nos EUA, à construção de um muro entre os EUA e o México, ao castigo de mulheres que decidam abortar, ao assassínio de familiares de terroristas, ao uso de balas molhadas em sangue de porco para matar essas mesmas pessoas, um homem que disse que John McCain não era um herói de guerra por ter sido capturado (um homem que foi preso da Guerra do Vietname do Norte durante 5 anos e meio e esteve dois anos em solitária, ficando com problemas físicos até hoje), um homem que se gabou de assediar mulheres, um homem que quer acabar com os acordos de Paris e aumentar a pegada ambiental dos EUA substancialmente, um homem que quer sair da NATO e dar carta branca a Putin no Báltico, um homem que disse que os imigrantes mexicanos eram "criminosos, traficantes de armas e violadores", um homem que disse que ia prender a sua adversária, um homem que foi investigado pelo Governo Federal nos anos 70 por atos de segregação nas suas propriedades, um homem que está em dívida para com muitos dos empreiteiros e trabalhadores dos seus projetos imobiliários, um homem que vale mais de 3,2 mil milhões de dólares e que não paga impostos há vinte anos, um homem que perdeu mil milhões de dólares num ano, enfim, um ser humano verdadeiramente deplorável. Não se deve esperar nada de bom de um energúmeno como este, deve-se ter medo.
Uma Administração Trump é absolutamente imprevisível. Poderemos ter Chris Christie a receber a Procuradoria-Geral, isto enquanto está a ser investigado por ter congestionado uma ponte para se vingar de um rival político. Para além disso, liderou cânticos na Convenção Republicana a exigir a prisão de Hillary . Rudy Giuliani também é uma possibilidade, podendo este homem que está absolutamente louco acabar alternativamente como Secretário da Segurança Nacional. Newt Gingrich poderá ser Secretário de Estado, e dada a sua experiência em Washington, até pode ser uma fator tranquilizador. Visto que praticamente ninguém com estatuto para ocupar posições de Governo apoiou Trump, muito pouco mais se pode dizer. Ou o novo Presidente enche a Administração de pessoas completamente inexperientes, ou enche-a de políticos Republicanos experientes. Reagan conseguiu um misto e deu-se bastante bem. Reagan também era um homem empático, inteligente e competente. O facto de serem ambos "outsiders" é a única razão para os estar a comparar.
A tendência de muita gente é confiar que Trump vai ignorar as suas promessas presidenciais e normalizar a sua mensagem, sincronizando-a com a dos Republicanos no Congresso. Talvez isto esteja a acontecer, porque a possibilidade de o Presidente-eleito cumprir o que quer que seja pareça assustadora demais. É, no entanto, preciso ser realista. Trump é um ser ignóbil com poderes inimagináveis, controlando o Congresso e possivelmente o Supremo Tribunal pela primeira vez em gerações e nada nos pode garantir que um senhor que se descontrola com críticas de comediantes não vá fazer coisas destrutivas com este poder.
Quer queiramos ou não, vivemos tempos assustadores, a guerra contra as democracias representativas e imprensa está aberta e os ventos da mudança apontam para uma destruição de instituições liberais comparável à que aconteceu nos anos 20 e 30 do século passado. Quem defende a abertura económica, a liberdade de expressão, a responsabilidade ambiental e o internacionalismo liberal está a ver o seu Mundo a ser destruído, é preciso um contra-ataque entusiástico para o salvar.
João Jonet
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