E no fim...


Contra todas as expectativas, o Mundo acordou (ou adormeceu) com a notícia de que a pessoa menos qualificada a concorrer à Presidência dos Estados Unidos da América se tinha tornado mesmo o líder da maior potência mundial. Ontem à tarde parecia claro para todas as pessoas minimamente informadas que Hillary Clinton sairia vencedora desta eleição. Toda a gente previa uma vitória para Hillary, que parecia há muito clara, por isso disse em Agosto que os Clintons já podiam preparar-se para voltar a viver na Casa Branca. Agora aparece muita gente a encontrar respostas "óbvias" para acontecimentos que "sempre foram" possíveis. Estas declarações parecem-me hipócritas e antes de começar a falar de uma Administração Trump e do que esta pode ou não fazer (até porque entre o choque e raiva não seria aconselhável entrar nesses exercícios) , gostava de tentar explicar por que é que achei que Hillary ia ganhar e onde é que me enganei.

Começando pelos primeiros Estados que Trump ganhou e que fizeram soar as campainhas, a Florida e a Carolina do Norte. Dada a demografia em mudança dos Estados (cada vez mais diversos) e a sua instabilidade interna (ataques de Orlando e tensões relativas sociais) estes bastiões Republicanos de outrora pareciam cada vez mais azuis. Acabou por ser uma análise política precipitada visto que "cada vez mais azuis" não quer dizer que sejam de facto "azuis". Para além disso Hillary acaba por ser prejudicada pela falta de entusiasmo dos grupos demográficos de que dependia, situação que se repete por todos os outros "swing-states" que perdeu. Hillary quis mudar a base dos Democratas da outrora cintura industrial dos EUA (Wisconsin, Iowa, Michigan, Ohio e Pensilvânia) para a nova e populosa zona costeira do Sul. Acabou por perder nas duas frentes.

Sempre disse que para Trump ganhar a Presidência teria de ganhar TODOS  os "swing-states" e um Estado tendencialmente Democrata. Trump acabou por não ganhar o Nevada, onde a comunidade latina ainda deu para fazer a diferença (tal como nos mais Democratas Colorado e Novo México), mas compensou com duas vitórias contundentes em Estados que pareciam seguros para Hillary. No Wisconsin, a que Hillary nem foi durante a campanha e onde tinha uma vantagem de mais de 6% segundo as sondagens, venceu por mais de 1%, talvez impulsionado pelo enorme financiamento de grandes "donors" do GOP na corrida ao Senado. Na Pensilvânia, onde Hillary investiu imenso e tinha uma vantagem de cerca de 3%, as minorias falharam e muito e a campanha Republicana para o Senado tinha tanto dinheiro que também pode ter ajudado o bilioná... Presidente-eleito.

As vitórias no Ohio e Iowa provaram ser casos em que a minha análise do eleitorado se provou correta, não numa primeira instância, mas com o decorrer da campanha.

Acaba por ser um fator importante o facto de Trump ter ganho 5 Estados ganhos por Obama em 2012, mostrando que a cena partidária está em mudança e reforçando a imprevisibilidade destes resultados.

Queria portanto pedir desculpa às pessoas que acalmei, mas é preciso perceber que não havia cenário mais improvável que este e que ninguém que olhasse para as sondagens com algum conhecimento de causa teria uma apreciação diferente. As pessoas que Trump vai prejudicar mais decidiram ficar em casa e vão pagar por isso tal como os jovens britânicos pagarão pelo Brexit. Que péssima altura para ser liberal, que ótima altura para ser lunático!

João Jonet





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