Eloquência e experiência


Contra todas as expectativas, Alain Juppé, o "político mais popular de França, foi claramente ultrapassado por François Fillon, que, numa subida meteórica, passou de irrelevante a principal candidato à Presidência. Este artigo não se vai dedicar ao ex-primeiro-ministro de Sarkozy e à sua extraordinária ascensão, mas sim ao suposto favorito que agora se vê numa situação complicada para conseguir ser o candidato dos Republicanos, entrando na segunda-volta com uma desvantagem de 16% da primeira volta relativamente a um adversário que já tem o apoio de Bruno Le Marie e Nicolas Sarkozy (23% das intenções de voto na primeira volta).

A montanha parece demasiado difícil de escalar para o Presidente da Câmara de Bordéus, que conta com o apoio de peso do ex-Presidente Chirac. No entanto, continuo a pensar que este é o melhor candidato à Presidência e apesar de as suas hipóteses serem escassas, numa primária aberta nunca se sabe. Vou defender a causa do homem que é, sem dúvida, o político mais consensual em França.

Para já, temos as razões eleitorais para preferir Juppé. O candidato dos Republicanos deverá ser um dos candidatos a chegar à segunda-volta, provavelmente contra Marine Le Pen, logo, dá jeito ter alguém que apele ao centro e à esquerda. Juppé é esse alguém. Um centrista por natureza, pugna por uma agenda de otimismo e conciliação, pouco focada em propostas concretas, mais interessada em sarar as feridas do povo francês e trazer alguma calma ao processo político. Parece-me ser mais importante para França um período de acalmia do que um de grandes alterações políticas (como propõe Fillon).

A agenda de Juppé, por ser muito menos ideológica, dividirá menos os franceses, tanto em termos de políticas económicas como sociais, em comparação com Fillon. Apesar das reformas que Fillon propõe serem inteligentes e necessárias ao desenvolvimento de França, trariam também comoção desnecessária a um momento já de si turbulento.

Por fim, temos o fator experiência, que traz atrás de si o respeito do grande público. Juppé é um político com mais de 40 anos de serviço público e a idade que lhe permite ter a confiança da maioria dos franceses. A sua personalidade calma e ponderada pode ser também uma mais-valia.

Dito isto, Juppé tem atrás de si 40 anos de serviço público, algumas incoerências e mesmo problemas com a justiça, e isso pode-lhe custar contra Le Pen, que vai apresentar uma mensagem populista anti-sistema. Fillon, apesar de não ser um "outsider", ficou com esse rótulo devido ao seu percurso nestas primárias e poderá beneficiar disso. Para além disso não é de querer que Le Pen ganhe numa segunda-volta a quem quer que seja. Logo, o facto de Fillon ser um pouco mais de direita não deve ser grave. O programa de Fillon é muito apelativo para a direita francesa, tem qualidade e denota empenho numa mensagem coerente e bem estruturada, garantindo-nos que será um excelente Presidente. Esperando que os Republicanos escolham Juppé, não me importava nada se escolhessem Fillon.

João Jonet

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