Nuvens Negras

Nas últimas 24 horas, o homem que infelizmente liderará a maior potência do Mundo usou o Twitter para insultar a CNN, apelar à prisão de pessoas que queimem bandeiras e difundir "tweets" de adolescentes a corroborar a sua rocambolesca teoria de que teria perdido o voto popular por votos de imigrantes ilegais. Seguir Trump nas redes sociais é hilariante e assustador ao mesmo tempo, o caráter aleatório e incendiário das suas publicações não é aceitável para um adulto mentalmente capaz, quanto mais para o "Líder do Mundo Livre", estando, no entanto, cobertas de um ridículo hilariante. A eloquência usada na reação à morte de Fidel foi especialmente divertida, pois enquanto Chefes-de-Estado por todo o Mundo enviavam notas de pesar elaboradas, Trump "tweetava": "Fidel Castro is dead!". Simples e inconclusivo, como toda a sua campanha, não faltando o clássico ponto de exclamação no fim de cada frase.
Trump tem usado a plataforma da Presidência para criticar a imprensa e rivais políticos de uma maneira que não tem precedentes, mas se fosse só o Twitter... meus amigos, estávamos felizes da vida. Bem mais preocupante tem sido o processo de seleção da Administração, apesar de termos algumas boas notícias, pelo menos para quem é Republicano porque acredita nos ideais do Partido e não porque é xenófobo, homofóbico ou outras coisas que hoje em dia passam por conservadorismo nos EUA. Vou começar pelas más escolhas, para acabarmos um artigo de forma positiva pela primeira vez nalgum tempo.
A escolha mais perigosa e irresponsável foi a de Steve Bannon (um ser humano abjeto) que será o principal conselheiro do novo Presidente (já abordada aqui).
A segunda pior escolha é a do Senador mais extremista do Estado mais extremista dos EUA como Procurador-Geral (Attorney General). Jeff Sessions (Alabama) é um grande defensor da ultrapassada "War on Drugs", a pior decisão da Administração Reagan, reforçada pela Administração Clinton. Esta dita "Guerra" leva pessoas que são apanhadas com pequenas porções de marijuana a cumprirem penas de prisão maiores do que muitos ladrões e burlões, apesar de os Estados quererem liberalizar mais as drogas leves, o Senador parece querer continuar esta política irracional. Jeff Sessions foi nomeado para um posto como juiz federal em 1986 e foi rejeitado por ter levado a cabo investigações com objetivo de enfraquecer a comunidade afro-americana do Alabama eleitoralmente, considerando vários Senadores que Sessions era uma pessoa aberta e vergonhosamente racista. Sessions acabou por se tornar Senador alguns anos depois, sendo considerado uma personagem demasiado extremista dentro do Partido Republicano. O seu estatuto de "outsider" e as suas orientações extremistas levaram-no a apoiar Trump desde cedo, valendo-lhe essa lealdade um cargo apetecível, se bem que, de novo, sujeito a aprovação no Senado, que devido ao seu passado não se afigura fácil. Pela positiva temos o facto de Sessions ter de facto experiência jurídica (já foi Procurador do Alabama), sendo considerado um jurista qualificado pelos seus pares.
A luta de Rudy Giuliani, um Republicano moderado virado cão raivoso que parece ter deixado os constantes falhanços da sua carreira política afetarem a sua saúde mental, para se tornar Secretário de Estado (equivalente a Ministro dos Negócios Estrangeiros), um cargo para que não tem nem qualificações nem temperamento, é também uma nota negativa desta transição. Trump parece querer estender o "ramo de oliveira" à facção do Partido Republicano que mantém a sua sanidade mental com a escolha do Governador Mitt Romney (um homem bastante inteligente que será a melhor escolha dentro das possíveis apesar da sua falta de experiência diplomática) para este cargo. No entanto, Giuliani e outros membros da equipa original de Trump (incluindo Steve Bannon) têm criticado abertamente esta possível escolha. Ficamos à espera de mais desenvolvimentos nesta novela, na qual ontem se envolveu o desgraçado "herói de guerra" David Patreus, que foi visto como o "novo Eisenhower" antes de ser revelado o seu caso extra-conjugal (em que revelou informação confidencial) e o seu problema com servidores de e-mail muito semelhante ao de Hillary.
Para departamentos menos importantes temos escolhas fantásticas se for um "establisment Republican".
Na Educação temos Betsy DeVos, uma milionária do Michigan, apoiante de John Kasich, defensora de um sistema de "vouchers educativos" e da troca gradual da escola pública pela privada, subsidiando o Estado a educação de quem não a possa pagar.
Nos Transportes, a sino-americana Elaine Chao (Secretária do Trabalho da Administração Bush II e Vice-Secretária dos Transportes da Administração Bush I). Tem carradas de experiência e um currículo que garante qualidade. É até agora a pessoa com mais experiência de Casa branca de longe e oferece alguma esperança num setor que Trump prometia revolucionar com medidas pouco ortodoxas. Mulher do líder Republicano no Senado Mitch McConnell deverá ser confirmada com facilidade na Câmara alta.
No cargo de Embaixadora nas Nações Unidas (considerado um cargo com estatuto "ministerial" nos EUA) a Governadora indo-americana da Carolina do Sul Nikki Haley. Haley foi uma das principais apoiantes de Marco Rubio e tal como Romney o DeVos crítica de Trump. A sua capacidade de compromisso e qualidade negocial levaram o futuro presidente a por o passado de parte.
Na Saúde, Tom Price é a escolha. O Representante da Georgia está no Congresso há 11 anos, foi dos poucos Republicanos a falar de uma alternativa ao Obamacare em vez da simples eliminação do programa. Sendo dos maiores críticos das reformas na Saúde do atual Presidente, chega a este cargo com naturalidade. O ex-Governador do Louisiana Bobby Jindal tinha sido melhor escolha, até porque já serviu neste departamento na Administração Bush, mas se calhar a Administração ficava muito étnica para Trump com mais um indo-americano.
Estas últimas escolhas deixam alguma (pouca) esperança que Trump seja um Presidente pouco preocupado com políticas e muito preocupado com a sua imagem, deixando a Administração ao seu "Cabinet". Se assim for teremos quatro anos de governação de uma liderança republicana que, apesar de algo radicalizada, não será de todo tão perigosa como Trump. Faltam escolher os cargos mais importantes (Defesa, Tesouro, Estado e Comércio) para perceber se afinal será Mike Pence que vestirá as calças na "West Wing".
P.S.: Desde que este artigo foi escrito, Donald Trump já nomeou Steve Mnuchin (Tesouro) e Wilbur Ross (Comércio). Ambas as escolhas serão abordadas em futuros artigos.
João Jonet
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