100 Dias de Júpiter


Passados 100 dias da tomada de posse de Emmanuel Macron, e ao contrário do que aconteceu com Donald Trump, há ainda muito pouco para reportar em termos da direção política que França vai tomar nos próximos 5 anos. Um Presidente que foi eleito com muito entusiasmo por uma parte reduzida da população francesa (muita gente "tapou o nariz" ao votar nele na segunda volta), nunca teve imenso capital político interno, tendo a sua posição sido ainda mais enfraquecida pelos altos níveis de abstenção nas legislativas que deram  uma sólida maioria ao seu jovem partido. Se, no exterior, Macron é aclamado pela sua vontade de mudança, pragmatismo e refrescante defesa do internacionalismo liberal, em França a oposição é feroz e continua a dificultar-lhe a vida, apesar da sua fragilidade eleitoral.

Estes 100 dias ficam marcados por uma série de encontros internacionais bem sucedidos em que passou a imagem de que a França está de volta como grande potência, com sucessivos "abraços de urso" a Donald Trump, tentando por-se numa posição de ponte entre o Presidente americano e a União Europeia e de influenciador do excêntrico nova-iorquino, tentando servir de guia no caminho do liberalismo. Para a História fica também a conversa longa e amistosa com o também jovem liberal Justin Trudeau, PM do Canadá, os vários encontros com Merkel, em que se comprometeu a reforçar a parceria entre os dois países, e o "rendez-vous" com Putin em Versalhes, onde recebeu o  proto-ditador de braços abertos para depois o atacar violentamente na conferência de imprensa conjunta, tanto pelo seu apoio a líderes homofóbicos radicais na Chechénia como pelas "fake news" publicitadas pelo Kremlin.

No campo interno tem sido mais complicado. Em vez de reformas arrojadas que visem o aumento de competitividade da economia francesa, Macron tem apresentado pequenas medidas incrementais que lhe retiram crédito junto do eleitorado, sem que nada de imenso valor seja conseguido para apresentar à sua base.

Quando Macron tomou posse, procurou compensar a sua aparente inexperiência com o que vários observadores classificaram como uma presidência jupiteriana, em que o Eliseu se transforma num Olimpo e Macron no Rei dos Deuses, sempre acima de controvérsias mundanas e falando sempre dos traços gerais da sua orientação política, guiando a República ideologicamente para um futuro mais iluminado, sem se meter nas normais disputas políticas de uma democracia parlamentar. Ora esse plano falhou a toda a linha por três razões. A primeira foi o confronto aberto com o Chefe-de-Estado-Maior do Exército Pierre de Valliers, que se demitiu depois de serem anunciados cortes na defesa e que o Presidente justificou com o facto do General ser irmão de uma conhecida personalidade conservadora, um ato bastante humano para Júpiter. Depois veio o discurso de abertura do Parlamento, que devia ser a expressão clara desta maneira de governar, mas acabou por ser um longo chorrilho de generalidades que iam adormecendo os deputados presentes. Por fim, temos o facto simples de Macron estar a desapontar quem o colocou no Eliseu, aquelas pessoas que o seguiram desde o princípio pela sua proximidade, espontaneidade e humanidade. Isto só pode desapontar a sua base, que, de facto, não pediu Júpiter, pediu Hércules, alguém com um toque humano, mas com uma força indomável e uma incrível resiliência para trazer a França para o Séc. XXI.

Se esta Presidência for feita de pequenos incrementos, de quezílias sem interesse e de um constante desapontar dos seus mais fiéis seguidores, poderemos estar perante um Hollande 2.0, fraco, indeciso e até ridículo, sem poder nem respeitabilidade. Como ainda só passaram 100 dias, Macron ainda vai a tempo de fazer a revolução democrática que prometeu, mas se não o fizer, a extrema-direita e a extrema-esquerda podem começar a afiar as facas, porque 2022 será o seu ano.

João Jonet

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