2020 Ali Tão Perto


Sim, este artigo podia ser sobre a Venezuela, mas sinceramente não me interessa estar a "bater no ceguinho". A total falência de um país que optou pelo socialismo uma década depois da Queda do Muro de Berlim e que é governado há 4 anos por um homem que não tem habilitações literárias para jogar Monopólio não devia causar surpresa a ninguém. Este tema tem merecido demasiada atenção dos intelectuais ocidentais, apesar de ter alguma graça lembrar a declarada admiração da esquerda radical europeia ao regime bolivariano.

Também podia dedicar este espaço à análise do recente (e infeliz) despedimento da personagem mais engraçada deste "reality show" que é a Casa Branca de Donald Trump. Anthony Scaramucci deu-nos os melhores 10 dias da História do Departamento de Comunicação Presidencial, deitando abaixo Sean Spicer e Reince Priebus de forma explosiva, antes de ser, sem alarido, a primeira vítima do General John Kelly, novo Chefe de Gabinete. A lei marcial que Kelly, empossado hoje, vai aplicar na "West Wing" ainda está numa fase demasiado embrionária para ser sujeita a uma análise mais extensiva.

Numa semana absolutamente louca, o acontecimento mais estranho e mais importante passou completamente ao lado da imprensa nacional, como é costume. Há 3 dias, John Delaney,  o milionário "low profile" que há 6 anos é congressista na Câmara dos Representantes, pelo "district" menos democrata do extremamente democrata Maryland, e que construiu a sua identidade à volta da capacidade de conseguir trabalhar com os Republicanos, chamou uma conferência de imprensa. O rumor inacreditável era que Delaney, em vez de se candidatar ao seu lugar atual, ao Senado ou à Mansão de Governador no ciclo de 2018, se ia candidatar à Presidência em 2020! Nunca um candidato anunciou uma campanha presidencial a 3 anos e meio da eleição mais próxima, estando o recorde anterior nos 2 anos.

Esta declaração precoce é não só um atestado de incompetência passado ao Presidente em funções, mas também uma certeza de que a loucura, se dúvidas existissem, está instalada na política americana. A eleição de um idiota da dimensão de Donald Trump para o mais poderoso cargo do Mundo criou, justificadamente, a ideia de que qualquer pessoa pode ser Presidente dos Estados Unidos, o que pode levar pessoas como Oprah Winfrey, Kanye West, Dwayne Johnson ou Mark Cuban a concorrer. É um sentimento que se tem disseminado, de que a capacidade e o conhecimento da política não são importantes, de que é mais importante ser genuíno do que qualificado. Se, de facto, há políticos demasiado dissimulados, conhecedores  dos procedimentos e não do Mundo que os rodeia - e há alguns -, é profundamente disparatado assumir uma postura de desconfiança perante candidatos experimentados, aliás perante peritos no geral, algo que se tem espalhado rapidamente nas democracias liberais.

Este anúncio espelha a crescente descrença nas instituições que moldaram o último século do Ocidente. As pessoas desconfiam dos procedimentos parlamentares, da educação (ou "politicamente correto") ou da preparação e entusiasmam-se com pessoas sem qualquer tipo de competência para ocupar cargos políticos, devido ao seu desprezo pelas convenções. A burocracia e as práticas políticas convencionais não são "sexy", e parecem fechar a política aos "não-políticos", porque, de facto, fecham. A política é para quem a percebe e a ele se possa dedicar e são normalmente as pessoas que passam esse teste as mais indicadas para liderar os seus concidadãos. É uma "arte" que não é para todos, e Donald Trump prova exatamente isso.

A candidatura trapalhona de Delaney não será mais do que  auto-promoção e não dará em nada, digo-lhe eu com um grande grau de certeza. É verdade que poderia ter escrito o mesmo sobre Trump em 2015 e aí estaria errado. É possível que esteja errado agora, mas as análises e as previsões só são feitas por pessoas com os dados para saber o que é mais provável e com a coragem e a confiança para errar e assumir o erro. Não se devia perder credibilidade por fazer uma previsão ponderada que acaba por não se verificar. A futurologia é perigosa, mas faz parte da natureza humana, por isso é preferível que seja bem feita.

P.S.: É muito cedo, mas é interessante começar a pensar em 2020. Com dezenas de possíveis candidatos Democratas e 5 ou 6 Republicanos que também devem ser analisados, tentarei escrever pequenos perfis ao longo dos próximos anos, dissecando as qualidades e defeitos das diferentes opções para suceder a esta Presidência falhada. Muita coisa pode mudar até lá, Trump até pode ser re-eleito com larga maioria como outras Presidências "falhadas" (Ronald Reagan e Bill Clinton por exemplo), mas é divertido especular.

João Jonet

Comentários