Porquê o Silêncio, Francisco?


Não gosto de falar sobre a Venezuela (o país em si tem muito pouco interesse e só se pode queixar de si próprio), mas a situação começa a ficar ridícula no que à reação ocidental a este Estado-falhado diz respeito.  Há pessoas na Europa e mesmo nos E.U.A. (certos Senadores do Vermont por exemplo) que continuam vergonhosamente remetidas ao silêncio, líderes de instituições outrora respeitadas e porta-estandartes da esquerda internacional que, perante as perturbadoras ações ditatoriais de Nicolás Maduro, se remetem a um silêncio tão confrangedor como hipócrita.

As personalidades que vou descrever não costumam merecer a minha atenção, mas dada a minha antipatia pela sua ideologia comum e pela maioria das personalidades em questão, pareceu-me uma boa oportunidade, até por estarmos numa altura do ano algo lenta em termos políticos, para expor as incompatibilidades que os líderes da esquerda europeia têm com o conceito de liberdade.

Apesar dos malabarismos políticos dignos do Salazarismo que Maduro tem levado a cabo para se eternizar no poder à revelia do povo venezuelano, apesar da fome, apesar da violência, o homem que lidera as sondagens para ser o próximo Primeiro-Ministro Britânico, o PM grego, os mais energéticos líderes da esquerda francesa e espanhola, os partidos que sustentam o governo português, o partido anti-sistema que se prepara para lutar pelo poder em Itália e o Papa continuam caladinhos,  sem condenar um perigoso ditador cujo radicalismo ideológico transformou um dos países mais ricos das Américas num antro de pobreza e violência a caminhar para o despotismo.

Fiquei positivamente surpreendido com a decisão do que resta da esquerda responsável em Portugal e do Governo por ela composto ter apoiado sanções ao regime chavista, dado o apoio incondicional do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista à revolução bolivariana. Como o único partido de centro-esquerda funcional na Europa Ocidental, é importante ver o PS a bater o pé aos loucos impulsos do seu lado do espectro, mas infelizmente as boas notícias parecem acabar aqui.

Jeremy Corbyn parece convencido de que o caos que se vive na Venezuela é apenas resultado de ímpetos contra-revolucionários que procuram parar a imparável marcha do marxismo. De lembrar que o líder do Labour já manifestou várias vezes apoio ao regime que procura instituir uma ditadura do proletariado  na América do Sul; logo, o silêncio quando se fala de crimes contra a humanidade cometidos por correligionários era expectável. De Alexis Tsipras, Pablo Iglesias ou Jean-Luc Mélenchon  também não se esperaria outra coisa; só chateia o apoio que têm nos seus respetivos países. Quanto ao Movimento 5 Estrelas, que se prepara para competir pelo poder em Itália no próximo ano, a sua falta de ideologia (ou rejeição da mesma) leva a estas posições pouco ortodoxas e a que eu tema pelo futuro de Itália. Tudo isto mostra bem que a esquerda global se perdeu no seu radicalismo doutrinário, dando espaço a líderes que não conseguem defender convenientemente a democracia, e que infelizmente, devido ao partidarismo excessivo do Ocidente e à bipolarização política crescente, se encontram demasiado perto do poder nos seus respetivos países para nos sentirmos confortáveis.

Quem preocupa mais, que é mais escandaloso no meio disto tudo, é o Papa Francisco, que é uma expressão dos ímpetos autoritários e de auto-preservação da Igreja, tal como um dos muitos simpatizantes com o idílico económico socialista democrático dos incompetentes líderes da América do Sul, tais como Dilma, Kirchner, Evo Morales e Maduro. A política externa conduzida por este Papa, que o Wall Street Journal classificou em Dezembro passado como o Líder da Esquerda Global, tem muito pouco de Ocidental, sendo completamente oposta à do Papa João Paulo II, essencial para a expansão das democracias liberais na Europa. Francisco não se coíbe de atacar ferozmente líderes (certamente condenáveis) de direita como Donald Trump, mas confina-se ao silêncio quando chega a altura de criticar deploráveis atos de pseudo-ditadores sul-americanos como Nicolás Maduro, cujo pensamento económico está muito próximo do do Santo Padre. Se Trump foi corretamente condenado por culpar igualmente manifestantes neo-nazis e contra-protestantes das mais diferentes origens, o Mundo ficou em silêncio quando o Papa distribuiu as culpas na Venezuela entre um Governo repressivo e uma oposição democrática.

Não é só na Venezuela que o Papa mostra ímpetos muito pouco comuns para o Vaticano. Também na Síria Francisco distribuiu a culpa por todas as partes, talvez por considerar preferível manter Assad no poder e as comunidades cristãs protegidas, mesmo que isso signifique que o povo sírio viva oprimido ou que algumas pessoas morram gaseadas. Como não faziam parte do seu rebanho, também não fazem muita falta... A sua simpatia por Putin é outro exemplo da sua calamitosa abordagem diplomática, mantendo-se em silêncio quando chega a hora de condenar a Guerra da Ucrânia para se manter nas boas graças de um líder autoritário que considera vital para um melhorar de relações com a Igreja Ortodoxa.

Este texto serve para relembrar que tanto a esquerda radical como a Igreja Católica operam no Ocidente não para defender os valores de Liberdade e Democracia, mas sim para se preservarem e para mudarem fundamentalmente a nossa maneira de viver, avançando as suas próprias filosofias e afastando-nos daquilo que nos torna ocidentais, o amor pela capacidade de nos expressarmos como queremos, de praticarmos a religião que queremos e de fazermos o que queremos, sem que nenhuma autoridade nos venha limitar fundamentalmente estes direitos. Estes ideais não estão na agenda do Papa, nem na dos líderes da Esquerda global e por isso se mantêm em silêncio quando chega a altura de defender o povo Venezuelano na sua busca pela liberdade.

João Jonet

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