Bye, Bye, Miss "America First"

Trump anunciando uma nova estratégia para o Afeganistão em Arlington, Virgínia
Na madrugada de ontem, Trump fez um anúncio esperado. Os E.U.A. vão mesmo continuar no Afeganistão sem prazo para regressar, e ainda devem aumentar o seu contingente em cerca de 4 mil militares. Esta decisão, em clara dissonância com as promessas eleitorais de retirada imediata, foi muito bem recebida pelo "establishment" do Partido Republicano e com silêncio complacente por parte da liderança Democrata. O discurso foi ponderado e inteligente na defesa de decisão e mereceu rasgados elogios de pessoas tão avessas ao Presidente como John McCain, um dos maiores defensores desta abordagem no Congresso, pintando-a como absolutamente essencial para uma vitória estratégica dos E.U.A. na sua guerra mais longa (já leva 17 anos). A ideia é levar os Talibã a uma rendição pela exaustão ou pelo menos levar os radicais islâmicos a sentarem-se à mesa para negociar um compromisso com o Governo de Cabul.
Ao contrário de Obama, que fazia sempre aproveitamento político destas decisões estratégicas, Trump apresentou um discurso que não prometeu datas de retirada nem objetivos irreais, mas sim uma retirada condicionada pelo cumprimento de objetivos estratégicos, como seja a pacificação do Afeganistão a juntar a uma muito correta condenação do papel de agente-duplo que o Paquistão tem tido neste conflito, afirmando-se aliado dos E.U.A., mas ao mesmo tempo acolhendo terroristas. Muito interessante foi também o apelo ao apoio da Índia, um "player" local muitas vezes esquecido pela política externa americana que se devia assumir mais como uma potência regional responsável, defensora dos valores da Democracia no seu raio de ação. Esta importância dada à maior democracia do Mundo pode ser benéfica para contrabalançar a influência chinesa no continente, ao mesmo tempo que se procura uma cooperação na área da segurança e da luta contra o terrorismo entre dois países que se podiam dar bem melhor (Índia e Paquistão).
Claramente guiado pelo "Eixo dos Adultos" da Casa Branca do qual fazem parte os generais/intelectuais James Mattis (Secretário da Defesa), John Kelly (Chefe de Gabinete da Casa Branca) e H.R. McMaster (Conselheiro de Segurança Nacional), começa já a notar-se uma mudança do discurso Presidencial desde que Steve Bannon, o radical ideólogo da "alt-right", abandonou a Casa Branca. Ficou claro que o "establishment" do GOP não tem qualidade neste momento para liderar o país com as saídas de Reince Priebus e Sean Spicer em Julho e ficou agora comprovado que os Estados Unidos também ficam melhor servidos sem elementos "deploráveis" como Bannon (como era mais ou menos óbvio). Os mais competentes operativos à volta do Presidente vão, felizmente, ganhando poder e influência à custa dos mais incompetentes membros da sua órbita (nos quais se incluem a sua absolutamente inócua filha e o seu incapaz cunhado, que, por agora, se mantêm).
A retórica "America First" sofreu um rude golpe com a saída de Bannon e mesmo com a continuação dos seus acólitos Stephen Miller e Sebastian Gorka na "West Wing". O anúncio de ontem, a juntar à iminente decisão de subir o teto da dívida sem sobressaltos à revelia dos mais radicais conservadores, parecia provar que esta Administração estava a normalizar a sua abordagem e a abandonar o caminho perigoso que tinha sido apresentado em campanha. No entanto, os sinais dados ontem num comício em Phoenix não foram animadores.Trump descontrolou-se completamente, atacando Senadores do seu partido como John McCain e Jeff Flake, continuando a sua guerra com os media e, ao contrário do que a Casa Branca tinha indicado a meio do dia de ontem, ainda disse que poderia amnistiar o Xerife Joe Arpaio, condenado a uma curta pena de prisão por discriminação racial na altura de deter suspeitos.
Se o que hoje é verdade, amanhã é mentira, e em nenhum sítio é isso mais verdade do que nesta Casa Branca. A continuar a mudança ideológica da madrugada de terça-feira, Trump deverá melhorar muito a sua posição e as suas hipóteses de reeleição. De lembrar que também Reagan e Bill Clinton começaram catastroficamente, mas conseguiram mudar o rumo das suas Administrações e ter mandatos de grande sucesso. Claro que Trump ainda não parou de "tweetar", nem de atacar Senadores do próprio partido, mas o discurso do Afeganistão foi um bom sinal (tal como o ataque que Bannon lhe fez a partir do seu site pseudo-noticioso Breitbart), bem mais significativo que o regresso às origens desta madrugada. E, se ao longo dos próximos meses começarmos a ver mudanças no seu Gabinete e entradas mais consensuais na Casa Branca, é possível que isto não seja um desastre. É possível que estes episódios de loucura vão sendo menos comuns, que o "Eixo dos Adultos" o consiga "domar". É possível, mas ainda não é provável. Por agora, ainda estamos no trilho da catástrofe.
João Jonet
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