A direita sonolenta

Ao longo das décadas, o fator chave que tem vindo a definir a direita portuguesa é a responsabilidade/conservadorismo fiscal. Ninguém de direita em Portugal consegue estar 10 minutos sem falar do facto de o PS ser um partido irresponsável e das consequências dessas irresponsabilidades caírem sempre no colo de um governo de direita. Cada vez mais o discurso político desse lado do espectro tem sido dominado por figuras com o perfil de Manuela Ferreira Leite ou Cavaco Silva, pessoas que não têm jeito nenhum para ser políticas, mas que são vistas como governantes capazes e sóbrios, ideais para tempos difíceis. Ora, o problema de ter candidatos para tempos difíceis tem duas vertentes: uma é que força o PSD a ter uma mensagem constante de arauto da desgraça, de antecipador da chegada do diabo, o que é uma mensagem pouco apelativa em 95% dos ciclos políticos (excluem-se aqueles em que o diabo de facto chegou, situação em que mais vale votar em quem previu a sua chegada). A outra vertente é a insistência em líderes pouco carismáticos, mas sérios (Ferreira Leite, Passos Coelho, Marques Mendes, Rui Rio, entre outros), que são incapazes de competir com a maioria dos líderes do PS (normalmente políticos habilidosos como Sócrates, Costa, ou Soares), a não ser que a coisa esteja mesmo complicada em termos de finanças públicas.
Assim, vejo a vitória de Rui Rio como natural, tendo em conta a maneira como se enquadra neste perfil de líder, mas considero que é um tiro no pé. Sim, o perfil economicamente liberal, com prudência fiscal e um quase libertarianismo social são exatamente as características que eu costumo procurar em candidatos, e Rio deve ser dos político de que ideologicamente estou mais próximo na História deste país. Apesar disso, a política não é só feita de ideias e Santana, que também não estava muito longe deste perfil (tirando o seu conservadorismo social, até era mais liberal que Rio), teria certamente mais capacidade para construir um projeto político alternativo que conseguisse galvanizar o eleitorado de direita e tentar impedir que o Governo de Portugal continue a depender de partidos absolutamente irresponsáveis. Como já disse, a falta de carisma e qualidade argumentativa de Rio, a juntar à sua postura sobranceira e quezilenta, levam-me a concluir, como aliás concluí com Passos Coelho, que é uma pena que os bons projetos políticos em Portugal tenham políticos tão incapazes a propô-los.
Como sempre, a direita portuguesa ligou o carisma à irresponsabilidade, a qualidade política à desonestidade e quem ficou a perder foi o PSD. É difícil perceber porque é que isto acontece, se o PSD escolhe líderes aborrecidos porque está estigmatizado com o carisma dos líderes do PS, que confunde com dissimulação, ou se a direita portuguesa gera naturalmente pessoas mais aborrecidas. Se ser de direita é ser arauto da desgraça por natureza, ou se foi uma linha de pensamento que se foi criando com base nas experiências governativas do PS. A verdade é que nos últimos 25 anos o PSD governou 9, teve dois dos seus piores resultados de sempre (2005 e 2009, já para não falar em 2015, pois não se sabe como seria sem o CDS) e teve 10 dos seus 18 líderes. É óbvio que algo não está a correr bem, e que, se em pleno caos económico, em 2009, Manuela Ferreira Leite não conseguiu chegar aos 30%, estamos para saber o que é que fez os militantes do PSD acreditar que um candidato nos mesmos moldes, com uma conjuntura económica muito mais positiva (claro que num ano e meio isto pode mudar, mas não é provável) e um Primeiro-Ministro muito menos polémico, terá um resultado melhor. Principalmente numa era em que os debates são tão importantes na decisão final dos eleitores, tendo em conta a fraca capacidade de Rio nesta arena.
Prevejo, portanto, um mau resultado para o PSD em 2019, podendo o partido ser abandonado por jovens de direita pela sua ala socialmente conservadora em favor de uma líder do CDS que, apesar de não ser fantástica, a comparar com Rio parece uma estrela de cinema. Isto ao mesmo tempo que provavelmente nenhum centrista será convencido a abandonar um Governo do PS com tão poucas falhas ao nível do que mais interessa: dinheiro no bolso ao fim do mês.
É uma má escolha de líder por parte do PSD, frase que dificilmente surpreenderá alguém que acompanha política portuguesa.
João Jonet
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