Voando sobre um ninho de galos


Estamos a pouco mais de um mês das eleições italianas, e a Europa está em Estado de nervos. É tal a diversidade partidária e a concentração de egos que o resultado promete pôr o mais frágil dos gigantes económicos da UE à beira do colapso.

Dada a lei eleitoral que permite que uma força política que tenha 40% dos votos possa ter maioria absoluta (tentativa vã de garantir estabilidade no caótico sistema político italiano), os partidos tendem a juntar-se em abrangentes coligações de "centro-esquerda" e "centro-direita", mas nestas eleições a viragem à direita do maior partido de esquerda na última legislatura, o Partido Democrático, guiado pelo centrista reformador Matteo Renzi, veio dividir ainda mais o eleitorado, pois as forças mais à esquerda, que normalmente se juntam na sua coligação, estão desta vez a concorrer a solo, aparentemente com um apoio superior a 6%. Renzi, que foi Primeiro-Ministro entre 2014 e 2016, está  de volta, depois de se ter demitido há um ano devido a uma humilhante derrota num referendo que oferecia reformas demasiado tímidas e trapalhonas para o sistema político italiano (claramente resultantes de um longo processo de cedências a barões partidários). Outrora visto como o homem que ia mudar a Itália, o jovem líder do PD parece gasto e o seu partido tem vindo a cair consistentemente nas sondagens, apesar da popularidade do seu atual Governo, liderado pelo diplomático e conciliador Paolo Gentiloni. A coligação de centro-esquerda anda entre os 25 e os 27%, com o PD a representar 90% desses votos, sendo os restantes provenientes de pequenos partidos de centro, que Renzi parece preferir aos habituais aliados mais à esquerda, com custos eleitorais evidentes.

A disfunção só aumenta com o crescente apoio ao Movimento 5 Estrelas, que, depois de ter sido o partido mais votado nas últimas eleições, promete repetir o feito, mas com maior margem. Finalmente, separados do polémico Beppe Grillo, apresentam um líder mais jovem e pragmático nestas eleições, Luigi Di Maio, que parece inclinado a acabar com a política "anti-coligações" do seu partido, guiando-o para o arco da governação. Com apenas 31 anos, Di Maio quer definitivamente ser o próximo Primeiro-Ministro, tendo abandonado muito do euro-cetismo que caracterizava o partido e prometendo guiá-lo para um caminho anti-ideológico que consiga retirar boas propostas da esquerda e da direita (apesar de até ser visto como um membro da ala direita do partido). A mensagem anti-establishment de Grillo era apalhaçada como o próprio, mas a de Di Maio até pode vir a ser construtiva num país com tantos problemas estruturais.

Do lado da direita, o partido mais moderado (Forza Italia) deixou de ser um gigante acompanhado por anões mais radicais, para estar praticamente equiparado à "Lega Nord", partido de extrema-direita anti-europeu que, à imagem da frente nacional, se tem limpo um pouco de maneira a aproximar-se do poder. O seu líder, Matteo Salvini, afastou-se da mensagem original do partido, que se focava numa vontade de independência do Norte de Itália, que se senti explorado pelos "preguiçosos" mais a Sul, mudando até o seu nome fora do seu território natural para simplesmente "A Liga". Uma força anti-imigração, protecionista e nacionalista tem vindo a ser esvaziada nas sondagens pelo regresso de Berlusconi à política ativa, mas se a direita conseguir maioria absoluta promete fazer parte vital de um futuro Governo. A coligação conta ainda com mais uma força extremista que tem superado as expetativas nas sondagens (ronda os 5%), conhecido como "Fratelli d'Italia", pedindo o nome emprestado a um verso do hino daquele país. O partido que resta na coligação é o "Noi con l'Italia", um partido que tem quase 3% de intenções de voto e que representa uma direita mais tradicional. No seu todo, a coligação parece ter um equilíbrio precário que deixa Berlusconi e os mais centristas com apenas 20% de intenções de voto, contra cerca de 18% da direita mais radical. Apesar do carisma do ex-PM e de o acordo negociado pelo atual governo para impedir a entrada de refugiados líbios terem enfraquecido a posição de Salvini e companhia, um Governo meio euro-cético e nacionalista na 3ª maior economia da zona Euro tem de assustar os idealistas em Paris e Berlim.

Não é esperado que nenhuma das três grandes forças chegue aos necessários 40%, o que poderá acabar por ser a melhor solução para a Itália, se a compararmos com a possibilidade de ter governos reféns da extrema-direita - este provavelmente liderado pelo Presidente do Parlamento Europeu Antonio Tajani -, ou um menos provável Governo do PD refém da extrema-esquerda, possivelmente liderado pelo líder parlamentar do centro-esquerda no Parlamento Europeu, Gianni Pitella.

Se nenhum dos três tiver 40%, um governo podia surgir liderado por Di Maio e moderado pelo PD e Renzi (se sobreviver) ou pelo Forza Italia e Berlusconi (essa sabemos que sobrevive sempre). Para mim a melhor hipótese seria um governo de bloco central liderado por Gentiloni, que está a fazer um excelente trabalho e é extremamente popular, ou pelo popular e polémico Ministro do Interior Marco Minniti, ambos pragmáticos centristas do PD, com o apoio minoritário do centro-direita. Berlusconi é louco, mas é um patriota e até é um bom político, tendo já provado que consegue escolher ministros capazes (se descontarmos a pontual modelo). Para além disso, o próprio estaria impedido de ocupar cargos públicos devido a uma sentença de 2013. Macron já o disse, e eu concordo em absoluto, que os italianos têm muita sorte por ter Gentiloni. Talvez desta caótica guerra de egos e de um consequente resultado inconclusivo possa sair um dos melhores Governos que Itália teve nos últimos anos, capaz de acompanhar Macron, Merkel, Schulz, Rutte e esperemos que Albert Rivera no caminho ardiloso para reformar a União Europeia.

João Jonet

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