Parabéns, Sr. Presidente

No dia de Natal a equipa de Trump estava jubilante. As promessas do Presidente e do seu Partido de reduzir brutalmente os impostos sobre as empresas, acabar com impostos sobre heranças, acabar com impostos do Obamacare e abrir as reservas naturais do Alaska tinham sido todas concretizados com uma simples peça de legislação que, devido ao prometido efeito de trazer o crescimento da economia americana para valores mais pujantes (acima dos 3%), se batizou "Tax Cuts and Jobs Act". Tudo corria bem e a popularidade de Trump começava a chegar aos 40% depois de quase um ano a não agradar a muito mais de um terço do eleitorado.
Mas, se há uma verdade nesta Casa Branca, é a de que o que é bom é efémero e raramente é tão bom como devia ser. Esta reforma fiscal cria estímulos fiscais desnecessários para uma economia com pleno emprego e altamente dinâmica, estímulos esses que aumentam o défice brutalmente e deixam os E.U.A. muito mais vulneráveis na resposta a uma próxima recessão. Para além disso, a maneira como beneficia desproporcionalmente os mais ricos só vem contribuir para uma escalada de tensões sociais e para uma continuação pouco inteligente da comprovadamente ineficaz teoria de "trickle-down economics", que se tornou ortodoxia do Partido Republicano.
A verdade é que, apesar da impopularidade desta reforma (principalmente em Estados Democratas, desproporcionalmente afetados), e do facto de esta ter falhado miseravelmente na sua suposta missão de simplificar o IRS americano, os Republicanos e Trump provaram que conseguiam fazer reformas estruturais, fechando um ano disfuncional numa nota positiva de normalidade.
O estado de graça não durou.
No princípio do ano, a Casa Branca foi abalada pelo livro sensacionalista de Michael Wolff Fire and Fury que, apesar de eu ter considerado demasiado rídiculo para abordar aqui, levantou de novo suspeitas minimamente credíveis de profunda disfuncionalidade e incompetência no seio da Administração Trump. Uma richa pública com Steve Bannon e alguns tweets particularmente infelizes fizeram o resto para recuperar o clima de desconfiança para com Trump, fazendo antever que, ao contrário do que acontecera com as Presidências de Reagan ou Clinton, esta não seria capaz de se redimir.
Depois veio o debate da imigração, ligado à necessidade de passar outro Orçamento provisório para manter o Governo Federal aberto. Os Democratas insistiam que deixariam o governo fechar se os Republicanos não reconhecessem o estatuto especial dos 800 mil imigrantes ilegais protegidas pelo D.A.C.A. por terem sido trazidos para os Estados Unidos enquanto menores. O G.O.P. (e a ala nativista/sulista liderada por Trump, principalmente) insistia que só legalizaria esses jovens com garantias da parte dos Democratas de que se reduziria a imigração legal nos E.U.A. e se construísse o muro. A redução da imigração legal seria feita com a proibição da imigração em cadeia (processo pelo qual cidadãos naturalizados ou residentes legais nos E.U.A. podem permitir a entrada de familiares) e o fim de uma política de estímulo à diversidade que oferece a possibilidade de residência (no caso de estarem empregados) a imigrantes de países menos representados nos Estados Unidos, processo sujeito a um altíssimo grau de escrutínio.
Estas propostas radicais, que vão contra tudo o que fez da América "A cidade reluzente numa colina" de que falava Reagan, foram logicamente rejeitadas pelos Democratas e, assim, 364 dias e 12 horas depois de Donald Trump ter tomado posse como Presidente, o Governo Federal entrou em serviços mínimos, na mais evidente prova da disfuncionalidade, radicalismo e incapacidade política desta Administração.
Este "shutdown" é inequivocamente culpa de Trump, não deixando de ser engraçado notar que, uma semana depois de o Presidente ter descrito países africanos e americanos como um "shithole", seja o governo americano a paralisar, oferecendo os Senadores Democratas (e alguns Republicanos) como parabenização ao seu Presidente pelo ano passado em D.C. um "shit cake", se me permitem ser tão educado como Donald Trump.
João Jonet
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