Uma mão cheia de cavalheirismo

Acabou ontem mais um "shutdowm" do Governo Federal americano, e, como tem acontecido nestas ocasiões, as conclusões e os ganhos para cada um dos lados foram escassos. Depois de três dias em que o Presidente dos Estados Unidos recusou envolver-se em negociações (o que até deve ter ajudado bastante, mas é certamente atípico), um grupo liderado pela Senadora mais liberal do GOP (Susan Collins- Maine) e o Senador mais conservador dos Democratas (Joe Manchin- Virginia Ocidental) composto por mais 12 Democratas, 8 Republicanos e um independente considerados centristas acabou por conseguir um acordo.
O acordo prevê que o Governo esteja aberto até dia 8 de Fevereiro, juntando a este mini-orçamento o financiamento para 6 anos de um programa de saúde para 9 milhões de crianças desfavorecidas, que os Republicanos já deviam ter financiado desde Setembro, mas que estavam a usar como trunfo negocial. Este intervalo de 17 dias deve servir para que se possa negociar uma alargada reforma de imigração e finalmente discutir o D.A.C.A., cujos beneficiários deixam de estar protegidos de deportação a partir de 5 de Março. O Senado votou 88-18 em favor desta resolução, apesar de que a única garantia dada pelo líder da maioria Mitch McConnell de que haveria um voto numa proposta de imigração foi a sua palavra.
Depois de forçarem o fecho do Governo Federal, a única coisa que os Democratas conseguiram foi a palavra de honra de McConnell e a ala progressista do partido está furiosa, tendo 16 dos votos contra vindo de personalidades como Bernie Sanders ou Elizabeth Warren e de uma série de outros potenciais candidatos em 2020, com os dois restantes votos a virem dos dois Senadores libertários do GOP (Rand Paul e Mike Lee). Esta fúria da esquerda é muito parecida com a fúria da direita que marcou a ação do Tea Party e dos Senadores que daí vieram (como os dois libertários já mencionados). É uma vontade de fazer política como se fosse guerra, sem compromissos, sem reféns, de maneira a conseguir uma vitória total. Ora, como dizia John McCain depois de assassinar o Trumpcare, o Senado não é feito de vitórias totais e quezílias constantes, é feito de cavalheirismo, compromisso e incrementalismo. Por isso é que são precisos 60 votos para conseguir passar legislação, porque os Pais Fundadores pressupunham que tinha de haver consenso alargados junto dos mais altos representantes da Nação.
É aqui que a recém-fundada "Common Sense Coalition", o grupo mencionado no início, vem dar uma lição de como pôr o país à frente do partido. Contra as vozes mais radicais dos dois lados do espectro, mostrou a força do centro americano ao conseguir re-abrir o Governo. É destes consensos alargados que são feitas as grandes instituições liberais, parecendo este grupo a única hipótese de se conseguir alguma coisa no que à imigração diz respeito.
O balanço final é que ninguém sai a ganhar tirando os centristas. Trump voltou a mostrar que é absolutamente incapaz de governar ou guiar legislação, parecendo de novo a milhas de compreender o que estava a ser tratado e alternando entre posições do mais liberal possível até ao nativismo fanático. McConnell volta a não conseguir uma relação de trabalho funcional com o líder da minoria, depois de anos de animosidade com o titular anterior, Harry Reid. Os seus truques parlamentares e discurso dissimulado continuam a tornar tóxico o debate e a dificultar soluções, sendo que a sua falta de ideologia e cega lealdade partidária não ajudam nada, como mostra a sua recusa em propor legislação que não passe com uma maioria de votos republicanos (mania partilhada por Paul Ryan na House), dificultando a passagem de propostas sem o aval da extrema-direita e as suas ridículas declarações em pleno Senado na semana passada, dizendo que não deixaria votar propostas sem a concordância de Trump, admitindo prontamente que não sabia o que é que o Presidente queria ao certo. Por fim, Chuck Schumer mostrou que ainda está verde no que à liderança dos Democratas diz respeito. Depois de ter forçado o fecho do Governo Federal, cedendo à pressão da ala esquerda do seu partido e focando o debate na imigração (apesar de haver mais problemas para resolver neste debate, problemas menos polémicos e mais populares como infraestrutura e a crise dos opiácios), para passados três dias ter de ceder à pressão da mais tímida ala direita do partido, re-abrindo o Governo sem ganhar nada, tirando a palavra de McConnell e menos uma semana até ao próximo "shutdown".
No fundo, o que se conclui é que o problema dos E.U.A. e a causa da sua disfuncionalidade política são os seus líderes no Congresso e na Casa Branca, e não propriamente os seus congressistas em geral, que, se lhes dessem oportunidade, provavelmente fariam a coisa certa muito mais vezes que os seus capatazes.
João Jonet
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