O político e o pároco

No espaço de poucas horas, Rui Rio e Pedro Santana Lopes debateram duas vezes, repetindo-se um padrão que já vinha do primeiro debate. Rio confirmou-se como um político com pouco jeito para fazer política e Santana como um candidato com uma carreira longa e polémica que dificilmente lhe permitirá dar dois passos como líder da oposição sem que lhe caíam 40 escândalos em cima. A vida de ambos foi escrutinada a fundo, mas Santana, apesar de ter telhados de vidro, voltou a conseguir vender Rio como o verdadeiro político incoerente em cena, coisa que a atabalhoada defesa do portuense não ajuda. Se Rio era o político limpo e sem truques, porquê aquelas manchetes enganadoras? Se era cegamente leal ao partido em 2005 e por isso apoiou Santana, porque é que criticou tanto Passos? A defesa de Rio a estas duas acusações é tão fraca como a sua capacidade de debate, dizendo que os "truques" foram uma retaliação (uma espécie de "ele é que começou" que se ouve tanto nas escolas primárias) e a segunda está cheia das incoerências, que apesar da sua insistência em dizer o contrário, tendem a caracterizá-lo. Diz que apoiou Santana por ser leal ao partido, e criticou Passos porque só tinha de servir os interesses do Porto. Ora, Rio já era Presidente da Câmara do Porto em 2005, e se Santana era tão mau para o país, porque não criticar na altura? Ficou claro que Rio, se é neutralizado por um político que, por mais hábil que seja, está cheio de fragilidades no histórico, não terá a menor hipótese de ganhar um debate a António Costa.
Mais claras ficaram as fragilidades de Rio quando o tema passou para a economia, no debate televisivo. Ali estavam dois homens, um economista e um político, e Santana parecia perceber mais de economia que Rio. As debilidades de Rio não podiam ter ficado mais evidentes do que ficaram aí. No geral, o debate na TVI foi pouco interessante, principalmente devido à condução perfeitamente amadora de Judite de Sousa (coisa recorrente diga-se de passagem), parecendo sempre mais preocupada em falar do que em ouvir, deixando passar o assunto mais interessante (a proposta de Rio de criar um imposto para pagar a dívida) e mostrando no geral que percebe tanto de política como eu de física quântica. A sério, alguém que lhe peça para explicar o que é o défice, adorava ver.
No debate radiofónico, que teve excelentes entrevistadores, a conversa já foi outra. Houve menos conversa sobre o passado, discutiram-se coisas que nunca se tinham discutido (política interna do partido, política externa) ficando quem ouvia mais esclarecido do que em qualquer momento da campanha, se bem que isso não é grande coisa, dado o evidente vazio de ideias.
Tivemos também a perceção de que há uma escolha clara para os militantes do PSD. Santana, que quer entrincheirar o partido na oposição à direita, misturando uma mensagem liberal economicamente com conservadorismo ao nível de costumes e compaixão social, fazendo uma espécie de Partido Republicano de George W. Bush versão portuguesa. O PSD fica um partido de direita, interessado em combater a esquerda e as suas guerras culturais (a mensagem de Santana quando questionado quanto à legalização da canábis e da prostituição foi nesse sentido), entrincheirando-se num campo ideológico (o que lhe é algo estranho) e deixando que o charme de Santana faça o resto. Por outro lado temos Rui Rio, cujo conservadorismo económico se junta a grande pragmatismo ao nível da gestão corrente do Estado e dos debates culturais. Rio está interessado em liderar um PSD que não se prende a ortodoxias de direita a nível social, e se fosse só pela mensagem, até recomendaria aos militantes do partido o antigo autarca do Porto, cujas propostas, apesar de escassas, mostram grande sensibilidade e inteligência.
O grande problema de Rio é que a política não é uma folha de Excel, e a sua incapacidade para se superiorizar em debate, a juntar a uma grande falta de clareza quando se expressa (enrola sempre imenso), fazem dele uma escolha muito fraca para evitar que Portugal continue a virar mais à esquerda do que devia. Os seus ímpetos autoritários e a sua má relação com a imprensa são só uma cereja estragada no topo deste bolo de mediocridade política e por isso, mas também porque seria extremamente divertido ter Santana de novo na liderança do PSD, é que sugiro a qualquer militante que me leia que escolha Pedro Santana Lopes.
João Jonet
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