A História De Um Burro Indeciso
Hillary Clinton tornou-se na primeira mulher nomeada por um grande partido norte-americano para concorrer à Presidência. Já em 1984 o Partido Democrata tinha sido o primeiro a nomear uma mulher para a vice-presidência, Geraldine Ferraro. Falamos, também, do primeiro partido a nomear um católico (Al Smith, 1928) e o primeiro a nomear um afro-americano (Barack Obama, 2008). Podemos concluir, portanto, que o Partido Democrata é um Partido à frente do seu tempo que procura a integração e o progresso. Ora, a história deste que é o partido mais antigo do Mundo e que agora é liderado por uma mulher nem sempre foi assim tão cor-de-rosa.
Nos seus primórdios, o Partido Democrata surge como o defensor dos direitos dos Estados, contra a centralização do poder no governo federal. Isto levou o Partido do primeiro Presidente negro a ser o maior defensor da escravatura, por acreditar que os mais populosos Estados do Norte não tinham nada de meter o bedelho na economia do Sul, sustentada por uma das maiores nódoas morais da História do Homem. Depois da Guerra Civil e da abolição da escravatura, os Democratas viram-se à beira do abismo. Sustentados apenas pelo seu braço armado, o Ku Klux Klan, viraram-se para o vandalismo e o terror enquanto estiveram privados da Casa Branca por mais de 20 anos. Com Grover Cleveland no final do séc. XIX o Partido deixa de se concentrar no seu eleitorado sulista (garantido graças a propostas de segregação e a algum "extremismo" na busca da igualdade racial por parte dos Republicanos) e passa a olhar com mais atenção para a classe operária das grandes cidades. Os Republicanos eram cada vez mais o partido da classe média para cima e deixaram de se preocupar com os mais desfavorecidos habitantes do Norte, que prontamente entregaram aos democrata a Casa Branca por quatro vezes (1884,1892,1912 e 1916).
Este eleitorado, muito afetado pela Grande Depressão, tirou depois mais quatro vezes a Casa Branca aos cada vez mais elitistas Republicanos. Franklin D. Roosevelt (nova-iorquino como Cleveland) ganhou as eleições de 1932,1936,1940 e 1944, tornando os Democratas não só no partido dos operários e dos agricultores, mas também da classe média com a criação de um forte Estado Social. É na sua Presidência que se cria uma divisão no partido que dura até hoje entre os progressistas dos antigos Estados Republicanos e os moderados do Sul democrata. Isto porque o intervencionismo de Roosevelt obrigava à expansão dos poderes do Governo Federal e, assim, ia contra a ideia fundadora do partido, a descentralização do poder.
Quando Roosevelt morre, poucos meses depois de ganhar as suas quartas eleições, Truman sucede-lhe. O sulista moderado do Missouri sucedia ao progressista e assim seria a História dos Democratas até aos nossos dias.
Apesar do Sul ser hoje em dia completamente Republicano, os poucos Democratas que lá ficaram continuam com muito poder dentro do partido, poder esse que é demasiado para o pouco que ajudam em termos eleitorais. Jimmy Carter, Al Gore, Bill Clinton e Hillary Clinton estão todos ligados a estados que hoje em dia são propriedade do GOP. Apesar disso, todos eles conseguiram ganhar alguns Estados do Sul.
A revolução de Bernie Sanders era precisamente contra este poder instalado representado pelos sulistas, que estão neste momento mais ao centro que o eleitor democrata comum. Durante anos, esta disputa tem dilacerado os Democratas. Em todas as primárias, há uma pessoa ligada ao Sul moderado contra uma ligada ao Norte progressista, com o ponto alto quando Ted Kennedy (Massachussetts) e Jimmy Carter (Georgia) quase causaram uma Guerra Civil em 1980.
Está na altura dos Democratas escolherem: querem ser um Partido de centro que representa a classe operária e os agricultores, mas também a classe média e a esquerda moderada; ou querem cometer o mesmo erro dos Republicanos e focarem-se numa elite progressista que levará o Partido tão para a esquerda que perder o poder será inevitável?
A História não se repte, mas às vezes rima. Hillary está avisada.

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