O feminismo como não deve ser


A Silly Season é a época em que tudo é notícia. Ficamos a saber o que se come na EXPOFACIC, em Cantanhede; ficamos a saber, como se não o soubéssemos antes, que a taxa de ocupação dos hotéis algarvios está próxima dos 100%; ficamos a conhecer pousadas e pousadinhas, turismo de habitação e rural por esse (imenso) Portugal fora; ficamos a saber que está muito calor e que a ida à praia só é recomendável antes da hora do pequeno almoço e depois da hora de jantar; ficamos a saber onde José Sócrates passa férias e conhecemos mais um namorico do herói nacional Cristiano Ronaldo. Mas a Silly Season também é a época em que se pode ler artigos (como o que passarei a descrever) com mais tolerância, paciência e compaixão.
Pluma Caprichosa, a plataforma de opinião/crónicas de Clara Ferreira Alves, prenda-nos de quando em quando com artigos como o "É Humana!", em que o fanatismo da articulista vem ao de cima de forma descarada.
"É Humana!" pretende mostrar ao leitor que Hillary Clinton (na verdade, a ideia é estender o argumento de HC a todas as mulheres) é alvo de todo o tipo de discriminação e que, coitadinha, é vítima das mais infames calúnias e injustiças. Para tal, CFA recorre a um convincentíssimo leque de argumentos e exemplos que vale a pena analisar.
CFA não tem dúvidas: a discriminação de género afeta Hillary, e é por isso que a ex-Primeira Dama nos parecia um robô até ao discurso humanizante que Bill Clinton fez a seu respeito na Convenção Democrata de há uma semana. Primeiro erro crasso da cronista. Hillary Clinton parece um robô porque não tem carisma político, porque tem pouca capacidade oratória, porque nos últimos 20 anos tem tido um percurso que parece ter sido planeado ao pormenor, porque, de alguma maneira, atua ainda num campo ensombrado por escândalos e  por anteriores candidatos e presidentes democratas que não lhe permitem brilhar. Não é, de forma alguma, porque a sociedade quer ofuscar o seu inegável talento político. Esse talento não existe. Não existe de tal forma que a nomeação de um septuagenário socialista assumido (recorde-se que "socialismo" é palavra proibida nos EUA) chegou a ser uma possibilidade.
Mas o argumento mais bizarro da autora é o de que se Donald Trump fosse uma mulher, não teria o sucesso que tem, dado o estatuto menor que é imposto ao género feminino. E explica: "Uma mulher com as características de Trump nunca chegaria a receber a nomeação de um partido" (recordo que se trata do Partido Republicano, o chamariz da chanfradice nos EUA) porque a personalidade que "nele é considerada um sinal de autenticidade [...], nela seria um sinal de insanidade". Como assim? Só nas cabeças de CFA e do próprio Donald Trump é que o Sr. Cor de Laranja não é tido por insano. Chega a parecer que as propostas, a personalidade e as afirmações de Trump são bem aceites na opinião pública, no establishment do partido, no mundo em geral. Chega a parecer que ninguém condena a misoginia, o racismo e xenofobia, o extremismo e todas as obscenidades por DT bradadas. Para CFA, Donald Trump é um homem querido e admirado por todos...
A cronista falou ainda do look , dando exemplos de várias mulheres da política discriminadas por causa da sua imagem, Clinton incluída, e sugerindo que os homens não são sujeitos aos implacáveis julgamentos de imagem. Também aqui se engana. Trump nunca foi gozado pelo seu cabelo no mínimo estranho? O estilo antiquado de Jacob Rees Mogg nunca foi comentado nos media? Gravatas excêntricas, sapatos inapropriados, etc., não são alvo de comentário? Ferreira Alves acha que não, mas acha mal.
Clara Ferreira Alves mistura dois assuntos completamente distintos porque o resultado, por fora, até parece fazer sentido. Fala de discriminação de género, que existe, mas usa todos os elementos que contrariam quaisquer indícios de discriminação no caso de Hillary Clinton. A incompetência e falta de talento são mascaradas de resiliência e persistência contra o sistema; CFA apela à sensibilidade do público para as injustiças sociais, mas na direção errada. Hillary Clinton não é a figura que resistiu a um sistema injusto, desigual e discriminatório, mas o resultado das suas próprias características políticas e de personalidade, que, apesar das inúmeras lacunas, a levaram à nomeação Democrata. Negar isto é perpetuar a ideia de que, com as mulheres, os casos são sempre diferentes e excecionais, é assumir que, quando há mulheres vencedoras , há sempre uma explicação mais complexa que escapa ao normal. É desonesto, sobretudo.
A igualdade de género merece melhores defensores. Ferreira Alves caprichou, mas mal. Tentou transmitir a mensagem que sempre fracassa de que a discriminação justifica quaisquer falhanços. Hillary Clinton pode até ser, ou ter sido, vítima de discriminação, mas a imagem que a sociedade tem dela nada tem a ver com isso. Fazer do caso de Clinton um exemplo paradigmático é igualmente grave, mas a Silly Season dá-nos o tempo, a coragem e o ânimo que são precisos para perdoarmos, virarmos a página e continuarmos a ler a revista. Artigos melhores surgirão com certeza.
S.G.

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